quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sobre o autista argentino, vulnerabilidades e educação


Ando muito triste com as notícias desse caso do menino autista argentino, cuja expulsão foi praticamente "exigida" pelos pais e mães de sua escola sob a alegação de que estaria "atrapalhando" o rendimento dos outros colegas (cf. https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/04/internacional/1504540186_757573.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM), até por que já tive contato com casos semelhantes aqui mesmo em Recife. Contudo, o fato me fez refletir ontem e hoje sobre a importância que educadores em qualquer área têm em provocar empatia em seus educandos para com as pessoas em situação de vulnerabilidade.

Coincidentemente ontem dei aula na FDR/UFPE para os alunos da graduação em Direito sobre os direitos decorrentes do princípio da igualdade, dentre eles o direito à diferença, a outra face da igualdade já dita no debate teórico e filosófico sobre justiça como equidade em John Rawls. Tratamos da abordagem constitucional das questões de discriminação reversa em relação a setores vulneráveis da sociedade, desde a questão racial, social e de gênero (incluída aqui a da diversidade sexual), e o tema da deficiência não teria como ficar de fora. Abordei a Convenção de Nova York e a recente decisão do STF que entendeu como compatível com a Constituição a proibição de discriminação do aluno com deficiência nas escolas públicas e privadas em relação à matrícula e à cobrança de mensalidades mais elevadas. No final, falei de meu filho Heitor, 9 anos, que tem autismo e é a maior inspiração de tudo o que faço nesse campo da defesa dos direitos de vulneráveis, seja em termos teóricos e acadêmicos, seja concretamente, quando integrei a Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/PE, inclusive na condição de Presidente durante o ano de 2015.

Pode quem quiser dizer que isso não seria científico, que o docente tem que ter um olhar distanciado e frio dessas questões, que eu talvez esteja fazendo “doutrinação ideológica” com meus alunos. Lamento por quem pensa assim, mas se a docência (ou qualquer coisa que façamos na vida) não puder ser algo que gere alteridade, empatia e compaixão genuína pelo próximo, especialmente quem se encontra por qualquer razão em situação de vulnerabilidade social, eu prefiro deixá-la e aprender a fazer outra coisa na vida para sobreviver.

Mas fatos como esse me animam a continuar fazendo esse tipo de trabalho no âmbito docente. A talvez influenciar indiretamente na percepção que alguns de meus alunos, futuramente advogados, juízes ou promotores, possam ter para a questão e fazerem de seu labor jurídico também um mecanismo de promoção da cidadania, da igualdade e da tolerância.

Transformar o olhar social e cultural sobre o problema talvez seja o maior dos desafios. E a educação é mais uma vez o caminho.

Um comentário:

Sarah Lustosa disse...

Parabéns pelo seu trabalho! Não tenha dúvidas nunca que sua postura é a mais certa e humana. Esse é nosso grande desafio: gerar empatia. Sarah Lustrosa Facebook: Nós e o Autismo