sábado, 22 de julho de 2017

“La dictadura perfecta” e as realidades fabricadas

Voltando a fazer breves e despretensiosas crônicas sobre cinema depois de muito tempo.

Procurando ontem um bom filme para ver na Netflix, encontrei no gênero comédia “La dictadura perfecta”, película mexicana de 2014 dirigida por Luis Estrada. Pelo meu habitual interesse em estudar os regimes autoritários e seus mecanismos institucionais, vi-me seduzido pelo título, imaginando tratar-se de uma sátira ao autoritarismo. Tive uma extraordinária surpresa, pois o filme, embora também faça esse papel, é infinitamente mais que isso.

Na verdade, se você procura uma comédia, esqueça. O filme tem apenas algumas pitadas de humor cáustico em alguns diálogos e situações e é predominantemente tenso. Na verdade, é bombástico e chocante. E para pensar a atual (mas não somente) realidade brasileira, excepcional.

Trata-se da história de Carmelo Vargas (interpretado soberbamente por Damián Alcázar), governador de um Estado mexicano que, filmado recebendo uma mala de dinheiro proveniente de corrupção, tem esse escândalo divulgado e mostrado pela TV MX, rede de TV mexicana de maior audiência. Ele visita o diretor-presidente da TV MX (Tony Dalton) e tenta suborná-lo. Este não aceita a oferta diretamente, mas propõe ao dito governador um contrato entre eles para que a empresa planeje e execute a recuperação da imagem do governador na opinião pública. A partir daí, a criação de “realidades” pelo órgão midiático, desde as “cortinas de fumaça” para desviar a atenção do público daquele escândalo até o planejamento e execução de atos mirabolantes para heroicizarem a figura de Carmelo Vargas em suas ações governamentais e demonizarem seu principal adversário político, o líder da oposição Agustín Morales (Joaquín Cosío), o filme mostra em detalhes toda uma engrenagem típica de uma republiqueta latino-americana com profundo déficit de democracia e Estado de direito, envolvendo políticos, promotores de justiça, investigadores, polícia, exército e principalmente a mídia hegemônica, em atos de sequestro, assassinato, corrupção e golpes políticos travestidos de notícia. Mais do que manipular a realidade, a TV MX chega mesmo a criá-la para o público, heroicizando e demonizando quem lhe interessa a partir desses acordos escusos.

A história se passa no México, mas poderia ser no Brasil ou em boa parte dos países da América Latina.

Mas cuidado: o filme é angustiante e destruidor de certezas sobre a realidade que chega ao nosso conhecimento pela mídia hegemônica. É quase niilista, arrebatador e um soco no estômago em qualquer um que não desconfia da realidade que nos é mostrada pelas empresas que compõem a grande imprensa.


Definitivamente, não é para fracos, mas vale muito a pena.