sábado, 18 de fevereiro de 2017

Justiça de transição e superação do passado autoritário - Argentina 7 X 1 Brasil

La detención de César Milani: critican la "hipocresía" del kirchnerismoCésar Milani, Comandante do Exército argentino durante os governos Kirchner, foi preso preventivamente diante de acusações do cometimento de crimes contra a humanidade (no caso, sequestros, desaparecimentos forçados e torturas) durante a ditadura militar daquele país, entre 1976 e 1983.

Na reportagem do Clarín, a atual Vice-Presidente da Argentina, Gabriela Michetti, dentre outras pessoas do governo e da oposição, criticam a hipocrisia dos Kirchner que, embora tenham tido um discurso político de combate aos criminosos de lesa humanidade e incentivado ações nesse sentido, acobertaram alguns daqueles, um deles o próprio Milani.

Mas, sem adentrar em quem tem razão na questão, algo me chama muito a atenção: o Governo de Maurício Macri, um liberal, ideologicamente à direita e sem qualquer simpatia com socialismo, comunismo etc. critica os Kirchner, considerados esquerdistas, por terem sido lenientes com criminosos de lesa humanidade da ditadura argentina, e kirchneristas, a seu turno, se defendem alegando terem sido seus governos os que mais fizeram em favor da punição daqueles criminosos, desde a redemocratização argentina.

Ou seja, lá, onde ocorreu uma espécie de "Nuremberg argentino" e os ditos criminosos foram severamente punidos, direita e esquerda querem distância de qualquer associação à ditadura passada.

Enquanto isso, em terrae brasilis, um deputado, eleito com quase 500 mil votos, que defende abertamente a ditadura militar e seus crimes e que faz homenagem em plenário a um notório criminoso de lesa humanidade, chega à segunda colocação nas pesquisas de opinião para a Presidência da República, além de vermos aos milhares, discursos e mensagens em redes sociais e fora dela, defendendo "intervenção militar", louvando a ditadura, ou pelo menos justificando-a por que era para "combater o comunismo e a esquerda", demonstrando como faz falta um processo de efetiva justiça de transição em um país que sofreu e sofre com o autoritarismo, como o Brasil.

Em matéria de justiça de transição e superação do passado autoritário, nossa derrota de 7 x 1 é para a Argentina, sem sombra de dúvida.

Reportagem disponível em: http://www.clarin.com/politica/detencion-cesar-milani-critican-hipocresia-kirchnerismo_0_Hk61Fr8Yg.html

2 comentários:

Barbara Figueiredo disse...

A transição não completa do Brasil resvala numa democracia frágil e num sem número de consequências deixadas pelo não punição dos agentes criminosos por crimes imprescritível

Ronaldo Bastos disse...

Muito bom, professor. Por lá, apesar da polarização política ser bem maior que no Brasil e há muito mais tempo, me parece que a polarização tem bem mais conteúdo e é claro que ninguém quer estar ao lado da ditadura. O mesmo no Chile, que eu não vejo, como ocorre aqui no Brasil, dizer que pelo menos com Pinochet a economia foi bem. Estamos bem atrasados.