quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

A-ha: grata surpresa em 2015 de um admirador tardio

2015 acabando sem deixar tantas saudades: instabilidade política e econômica, muitos episódios explícitos de ódio e intolerância (especialmente em relação à política, mas não só), enfim, realmente já deu.

Contudo, nem todo o saldo foi negativo e, neste fim de ano, falar de boa música é bem mais prazeroso.

Sou fã de boa música, independentemente do estilo. Gosto desde música clássica (Mozart, Bach, Chopin etc.) a rock pesado e heavy metal (Iron Maiden, principalmente, mas também Metallica e os jurássicos Led Zeppelin e Black Sabbath). Gosto de música de boa qualidade, aquela que é feita com sensibilidade, arte e vibração, sem o necessário intuito de “vender”. Quando vira música meramente comercial, me desagrada, realmente não curto. Claro que pode ser comercializável, mas o talento e a capacidade artística têm que vir antes. Sucesso deve ser consequência, não causa.

Em outubro deste ano, fui ao show do A-ha aqui em Recife, na companhia da esposa. Ela sempre foi fã, mas na vez anterior que eles estiveram em Recife - supostamente a turnê de despedida em 2010 – não conseguimos ingresso. Por relaxamento meu, deixei para a última hora, pois não achava que uma banda dos tempos de minha adolescência, que eu nem apreciava muito, por sinal, teria tanto público. Pra minha surpresa, ingressos esgotados e Classic Hall lotado naquela vez, e também agora, só que nesta última, ressabiado, comprei logo no primeiro dia de vendas.

Embora achasse algumas canções deles boas, nunca fui fã. Em minha adolescência, as garotas os achavam lindos, era aquela histeria de meninas adolescentes. Como garoto adolescente, minha tendência era achar que toda banda composta por caras bonitos era necessariamente ruim. Pura babaquice de adolescente tolo que, no fundo, sentia aquela inveja pelo fato da mulherada delirar por eles e não por mim (risos).

Realmente uma monumental bobagem, pois minha desatenção levou-me a verdadeiramente “descobri-los”, em termos musicais, somente agora.

O A-ha é uma banda que iniciou nos anos 80 do século passado, formada por 3 amigos de Oslo/Noruega: Magne Furuholmen (tecladista), Morten Harket (vocalista) e Pal Waaktaar-Savoy (guitarrista). Cantando em inglês, seu primeiro álbum “Hunting high and low” já foi um arrebatador sucesso mundial, com a canção título e mais dois clássicos: “The sun always shines on TV” e “Take on me”. Sucesso absoluto de público e venda, ganharam vários dos principais prêmios mundiais da música e ocuparam as primeiras posições na lista de canções mais tocadas, na Inglaterra e nos EUA, inclusive. Logo a seguir, lançam o 2º álbum, “Scoundrel days”, com outros clássicos como a canção título, e ainda “Cry wolf”, “I’ve been losing you” e “Manhattan skyline”. Em 1987, “The living daylights” é tema de filme de 007. Depois, 3º álbum, “Stay on these roads”, com a canção título, e mais “The blood that moves the body”, “Touchy” e “You are the one”.

Em 1991, no Rock in Rio 2, foram atração principal numa noite com quase 200 mil pessoas de público. Foi apoteótico e, sem dúvida, o auge da banda. “Crying in the rain” e “Early morning”, dentre outros, foram hits entoados por milhares.

Deram um tempo entre 1994 e 1998, e com a volta, emplacaram “Summer moved on”.

Entre 2000 e 2010, não ficaram se repetindo apenas com os clássicos, mas fizeram várias coisas novas e interessantes. Destaques para a canção “Forever not yours” no álbum “Lifelines”, de 2002, “Analogue” (canção do álbum de mesmo nome) em 2005 e “Foot of the mountain” (canção do álbum de mesmo nome) em 2009, esta uma canção realmente linda. "Foot of the mountain" seria supostamente o último álbum deles. Partiram em turnê, anunciando isso, que seria a última, com o show final na terra deles, Oslo, em 4 de dezembro de 2010.

Eis que em 2014, foram convidados a se apresentarem nos 30 anos do Rock in Rio e celebrarem os 24 anos do maior show de sua história. Para satisfação dos fãs, quebraram a promessa de encerrarem definitivamente a banda: voltaram e lançaram o álbum “Cast in steel”. Não gostei da canção título, mas há uma que em nada fica a dever aos seus maiores hits: “The wake”. Letra e melodia belíssimas. Em pleno 2015, os noruegueses cinquentões ainda compõem canções de altíssima qualidade.

Até este ano, eu desconhecia a maioria dessas informações. Um pouco antes do show de Recife, e depois também, a curiosidade me fez prestar atenção no A-ha, e com isso descobri, um tanto tardiamente, que a banda é realmente excelente, com letras e melodias de alto nível. Diferente daquela tola mentalidade adolescente, vejo que os caras são infinitamente mais do que rostos bonitos (e hoje, com as marcas da idade, nem têm mais a beleza física da juventude). Com muito carisma, são excelentes artistas e músicos. Uma banda longeva que envelheceu como um bom vinho, pois se não tivesse qualidade, dificilmente ficaria tanto tempo na estrada. Destaque especial para Pal Waaktaar-Savoy que, além de assinar a maioria das canções de maior sucesso, ainda faz músicas para outras bandas, como o Coldplay, cujos componentes são grandes fãs do A-ha.

Ter ido ao show deles foi um dos melhores momentos de 2015. Poder hoje admirá-los como uma das melhores bandas pop de todos os tempos, também.

Long live to A-ha!

Takk, Magne, Morten e Pal!


domingo, 27 de dezembro de 2015

É preciso ideologizar a arte e a vida? Menos, por favor!

O recente episódio da agressão verbal sofrida por Chico Buarque demonstra mais uma vez como a temperatura política atual, na qual o tom raivoso tem predominado, está muitas vezes levando a uma preocupante incapacidade de pensar e de sentir. Claro que há muitas reações a isso, inclusive esse texto não deixa de ser uma. Mas é interessante ver pessoas “de direita” minimizando o ocorrido, dizendo que foi um simples “bate-boca” ou pior: justificando e dizendo que Chico Buarque merece esse escárnio. Para piorar ainda mais, tem gente dessa mesma direita dizendo que ele, no fundo, é medíocre e péssimo compositor, já que suas canções seriam só “hinos comunistas” e, só por causa disso, obteve favores dos governos petistas para ficar “milionário” e ter um apartamento em Paris. Como se Chico Buarque não tivesse engajamento político desde antes da criação do próprio PT e como se ele já não fosse um compositor consagrado e “rico” muito antes da ascensão do PT ao poder.

Em primeiro lugar, nem vou discutir a evidência da extrema falta de civilidade e boa educação dos sujeitos que agrediram Chico Buarque. Poderia ser contra Lobão ou Danilo Gentili. O Ministro aposentado Joaquim Barbosa já passou por coisa semelhante. Agressão é agressão, é dado objetivo. Se alguém vai até outro, o chama de “merda” e esculhamba suas opções políticas, isso é agressão em qualquer circunstância e contra qualquer um. Por que o sujeito é uma figura pública, isso não dá o direito a ninguém de ir “tirar satisfação” de suas opções de qualquer natureza. Para mim, isso é um ponto fora de qualquer discussão.

O intuito desse texto, em verdade, é outro, apesar da relação que tem com o narrado até aqui..

Vamos lá, parece que em alguns casos, o sujeito se ideologiza de forma tão fanática (com frequência, de modo raso e com pouquíssima leitura e reflexão) que passa a adequar o mundo e a arte à sua régua ideológica. E mede até a qualidade artística a partir desta, sem enxergar valor em qualquer coisa que contrarie seu senso “estético”. Eita, lembrei que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Pois é.

Convenhamos o seguinte: ainda que você seja de direita, contra o PT, deteste Lula e adore Bolsonaro, você vai me dizer que canções como “Com açúcar e com afeto” ou “Valsinha” são feias? Que uma canção como “Olhos nos olhos” não adentra fundo na alma feminina (várias amigas já o disseram a mim, antes que achem que estou querendo falar pelas mulheres)? Que uma “João e Maria” ou uma “Fado tropical” não são obras-primas em termos de estética poética e musical? Que “Vai passar” não é um samba com letra e música simplesmente extraordinárias? Se você pensar “Cálice” como um libelo antiditaduras de qualquer tipo (incluindo soviética, cubana ou o que mais seja), não é uma canção genial?

Do mesmo modo, como reação à esquerda, já tem gente compartilhando postagens de Roberto Carlos como o “queridinho” da ditadura e que seu sucesso deveu-se a isso, não à sua qualidade musical. Pera lá, amigos, diferentemente de Chico, Roberto Carlos nunca foi politicamente engajado. Certamente obteve favores oficiais, como muitos dos artistas do status quo da época, mas daí a dizer que estava alinhado com os ditadores, parece, no mínimo, um exagero. Pior ainda é analisar a sua qualidade musical com essa régua. Vamos lá, você que é de esquerda, abomina os EUA e defende os irmãos Castro e o socialismo, vai me dizer que canções como “Detalhes”, “O divã” e “Como é grande o meu amor por você” são feias? Que canções como “Cavalgada”, “Os seus botões” e “Cama e mesa” não são belas e profundamente eróticas, no melhor sentido do termo? Que “Todos estão surdos” e “Emoções” não tocam profundamente na alma em letra e melodia? Que “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, feita para Caetano Veloso quando este estava exilado na Inglaterra justamente durante a ditadura, não diz muito sobre seu autor e sua sensibilidade?

Menos, pessoal, vamos parar de ideologizar a vida e a arte!

Não é por que Wagner era antissemita e Hitler gostava de suas músicas que ele seria um mau compositor. Eu gosto muito de Wagner e abomino o nazismo. Stalin adorava Charles Chaplin. Então quem gosta de Chaplin seria stalinista? Villa-Lobos fez músicas para o Estado Novo e por isso virou um compositor ruim? Regina Duarte é uma má atriz por que fez campanha pra Serra? Gilberto Gil é um péssimo músico por que foi Ministro de Lula e é de esquerda?

Vamos deixar de lado esse patrulhamento ridículo.

Vãs ideologias jamais conseguirão dizer o que Chico, Roberto e muitos outros grandes letristas disseram. Jamais conseguirão tocar fundo na alma como uma música de Mozart ou Chopin, ou uma cena de um “Cinema Paradiso” e seu emocionante grand finale com a bela música de Ennio Morricone.


A arte genuína é sublime. Relaxe e aproveite-a, sem ranços ou preconceitos.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Pequenas “blasfêmias”, grandes homenagens: a Jesus iluminado

Esse texto é uma homenagem ao aniversariante do dia, na prática, tão esquecido por toda uma sociedade que se considera cristã. E não me refiro somente ao consumismo de presentes e papais noels, mas mesmo entre os que vão à Igreja e “louvam o Senhor”, muitos o fazem somente da boca para fora, dizendo “sou de Jesus” e, ao sair do templo, já falam mal de um desafeto qualquer.

E por que um não cristão vem querer dar lição de moral a cristãos? Isso não seria papel dos padres e pastores?

Na verdade, não quero dar lição de nada a ninguém. Acho isso muito pretensioso. No máximo, despertar algumas reflexões em tom talvez blasfêmico, já pedindo antecipadamente perdão aos mais puristas e fervorosos, mas com o sincero intuito de prestar uma homenagem a esse homem extraordinário que foi Jesus de Nazaré.

Pois bem. Não sendo cristão, minha homenagem não teria como ser uma louvação ao “filho de Deus” ou ao próprio “Deus encarnado”. Mas ao homem. Sim, ao homem espetacular que esteve entre nós há cerca de 2 mil anos e deixou tantos ensinamentos de sabedoria universal aplicáveis à vida de qualquer pessoa, cristã ou não.

Ouvi hoje a parábola do filho pródigo. Que lição maravilhosa sobre perdão, reconciliação e compaixão... Quão profunda e sábia é a percepção daquele pai em relação aos 2 filhos, ao mais velho, ressentido e ao mais novo, que “estava perdido e foi reencontrado”... Que profundidade do arrependimento deste último – “pai, não mereço ser chamado teu filho”...

Lembrei de outras como a da ovelha perdida, do bom samaritano, dos dois servos... As atitudes dele diante das pessoas, sem fazer acepções, enxergando o coração de cada um, próximo das “más companhias” de coletores e prostitutas (“os sãos não precisam de mim, mas os enfermos”).  Sem puritanismos ou fundamentalismos, rechaçou episódios de ódio coletivo, como o do apedrejamento da adúltera, mostrando respeito e tolerância com cada ser humano, vendo-o como alguém sempre maior que seus erros e pecados (“Onde estão os que te condenam? Nem eu te condeno, mulher, vai e não tornas a pecar”). Rechaçou os fetichismos da Lei, como os exageros do sabatismo (“o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado”). Até mesmo precursor da laicidade e da tolerância religiosa provavelmente o foi (“A César o que é de César, a Deus o que é de Deus”, “raras vezes vi tão grande fé em Israel”, sobre o centurião romano, acolhendo-o espiritualmente, como o fez com tantos não judeus, sem exclusivismos religiosos).

Curioso é ele também ter falado dos falsos profetas e ter antecipado coisas que até hoje ocorrem em Seu Nome (“Esse povo me louva com os lábios, mas o seu coração está distante de mim”, “Nem todo o que diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas o que faz a vontade do Pai”).

Esse homem era realmente extraordinário. Foi um ser iluminado que trouxe tanta sabedoria e bondade a bilhões de corações desde então, mesmo descontados os tantos que dizem ser “de Jesus”, “ungidos do Senhor” e não praticam nada do que ele pregou.

No budismo, alguns autores dizem que Jesus é um boddhisattva. Um ser senciente que, embora tenha plena espiritualidade para atingir a iluminação e o nirvana, adiou seu ingresso neste pela extrema compaixão pelos seus próximos. Renasce nesse mundo com a missão de ajudar os seres a evoluírem na espiritualidade. Seria equiparado ao Buda, ou como diz Thich Nhat Hanh, monge budista vietnamita, Jesus e Buda são irmãos na budeidade...

Em nossa fé budista, Jesus não é Deus. É homem como nós, porém, com tamanha evolução espiritual que se tornou iluminado, bem como iluminou e ilumina milhões com seu exemplo e palavras de grande sabedoria.

Mas você, amigo cristão, não precisa mudar sua fé. Não é sua religião, nem a minha, nem nenhuma outra que nos levará à felicidade, mas o como cada um de nós evolui espiritualmente a partir delas ou por qualquer outro caminho espiritual apto a isso. Tudo o que possa nos conduzir a uma profunda paz conosco mesmos, com a humanidade, com a natureza, com o universo e com o infinito, chamemos de Deus, Javé, Alá, inteligência infinita ou qualquer outro nome.

Parabéns, Jesus de Nazaré. Ainda que muitos não te entendam e usem teu nome para fazer o oposto do que pregastes, tua presença material na história e espiritual na vida de tantas pessoas que fazem o bem em teu nome (“o que fizeres ao menor de meus irmãos, é a mim que o fazes”) são um presente divino para a humanidade.

Parabéns também a todos que o seguem genuinamente, não dizendo “sou de Jesus”, mas agindo em seu espírito de bondade, generosidade, compaixão e amor. Que o espírito do Natal permaneça com vocês e com todos nós.

Amém!

Namastê!