sábado, 10 de janeiro de 2015

Sobre acadêmicos e ideólogos

Nos últimos anos, a informação tem circulado, através dos novos mecanismos de seu compartilhamento, especialmente  redes sociais, twitter e congêneres, em uma velocidade realmente incrível. 

A principal vantagem disso é uma disseminação do conhecimento como nunca se viu na história da humanidade. Hoje possuímos ferramentas de acesso ao conhecimento que, se bem utilizadas, podem proporcionar conhecimento e reflexão fundamentais ao progresso humano como um todo. 

Por outro lado, em razão do quantitativo de leituras à disposição e da natural incapacidade da maioria de nós de dar conta de todas elas, parece haver certa superficialidade nas reflexões feitas pelos ávidos leitores de nossos "tempos líquidos" (pegando emprestado termo do sociólogo polonês Zygmunt Bauman). Para compensar a nossa incapacidade, buscamos uma pasteurização das informações para consumo rápido e têm sido cada vez mais raras as reflexões feitas com profundidade e objetivando real produção de conhecimento, notadamente nas ciências humanas e sociais.

Isso inevitavelmente conduz a certa tensão entre ciência e ideologia. Estas sempre tiveram pontos de contato e de atrito entre si, pois dizem respeito ao conhecimento humano como um todo. Aprioristicamente, não há qualquer problema em um acadêmico ter posições políticas e/ou ideológicas (eu próprio tenho por hábito externar minhas opiniões nesse sentido sem nenhum problema), bem como um militante ou ativista do que quer que seja ingressar no meio acadêmico para construir um trabalho científico, uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado. O principal problema se dá quando se misturam as perspectivas de modo que o ideólogo queira simplesmente dar uma "roupagem científica" à sua visão de mundo ou que o acadêmico queira se valer de sua posição de respeitabilidade no campo científico para afirmar, indiretamente na maioria das vezes, que sua ideologia seja ciência.

É necessário que as perspectivas sejam separadas. Apesar dos pontos de contato, ciência e ideologia são campos distintos do conhecimento. Se desejamos fazer ciência, dentre outras coisas, não podemos condicionar pret-a-porter o resultado de nossas investigações. Um acadêmico não pode condicionar suas investigações à sua percepção ideológica pessoal, ainda que esta possa ter sido o estímulo para a pesquisa. Ainda que o doxa esteja no coração da epistéme, como afirmava o querido e saudoso mestre Luis Alberto Warat quando refletia sobre as relações entre as perspectivas científica e opinativa, é preciso diferenciar o estímulo que temos face às nossas circunstâncias pessoais e posições ideológicas em pesquisar determinados temas e as conclusões às quais podemos chegar diante dos dados coletados e de sua análise.

Ciência não é para aqueles que estão preocupados em impor sua visão aos demais, em querer estarem certos a todo custo. Não é para aquele que menospreza o outro por que é de ideologia ou de religião diferente, ou simplesmente possui uma visão de mundo distinta. Ciência é para quem tem mais dúvidas de que certezas, para quem está disposto a mudar suas convicções, mesmo as mais profundas, caso se evidencie cientificamente que as mesmas estão equivocadas. 

Para se fazer pesquisa científica genuína, é preciso honestidade intelectual e humildade. É preciso ter metodologia apropriada, delimitação epistemológica de seu objeto, seguir os passos necessários, manejar os dados colhidos com precisão e sem deturpações e traçar conclusões que nem sempre serão aquelas às quais o pesquisador gostaria de ter chegado. Um liberal pode fazer uma pesquisa sobre políticas intervencionistas do Estado e chegar à conclusão de que estas foram benéficas ao desenvolvimento econômico. Do mesmo modo, um socialista pode fazer uma investigação sobre a privatização de setores da economia e concluir que isso gerou uma desigualdade menor de renda naquela dada sociedade. 

Quem deseja fazer ciência com seriedade (sinceramente não vejo como seria feita de outro modo) precisa ter esse espírito. Levar em conta a máxima socrática da humildade epistêmica, difundida modernamente por Karl Popper (e tão esquecida em tempos de discursos intolerantes) de que "eu posso estar errado e você pode estar certo" e que, se nos encararmos assim, de modo recíproco, juntos podemos nos aproximar da verdade (que aqui teria o sentido mais aproximado ao de verossimilhança).

Portanto, amigo, se você deseja fazer uma boa dissertação de mestrado ou tese de doutorado, em resumo, um bom trabalho científico seja ele de que natureza for, trate de observar aquilo que foi referido nos parágrafos anteriores. Academia não é lugar para conhecimento superficial, leituras apressadas e ausência de reflexão, não obstante isso infelizmente ocorrer. Não é lugar para os que só querem confirmar suas "certezas" e "verdades". Ao contrário: no meio acadêmico, é necessário mais maturação de leituras e reflexões aprofundadas; mais conhecimento genuíno e menos "achismo"; menos arrogantes verdades "absolutas" e mais disposição dialógica; mais estudo sóbrio e menos verborragia; é sobretudo questionamento de ideias e não ataque às pessoas.

Se você não concorda com isso, tudo bem. Pode ser um excelente ideólogo e defender com ardor suas visões de sociedade e de mundo. Pode ser um ótimo político e exercer com competência cargos legislativos, administrativos ou judiciais. Pode ser um brilhante advogado, juiz ou promotor.

Mas, decididamente, seu lugar não é a academia.