domingo, 27 de dezembro de 2015

É preciso ideologizar a arte e a vida? Menos, por favor!

O recente episódio da agressão verbal sofrida por Chico Buarque demonstra mais uma vez como a temperatura política atual, na qual o tom raivoso tem predominado, está muitas vezes levando a uma preocupante incapacidade de pensar e de sentir. Claro que há muitas reações a isso, inclusive esse texto não deixa de ser uma. Mas é interessante ver pessoas “de direita” minimizando o ocorrido, dizendo que foi um simples “bate-boca” ou pior: justificando e dizendo que Chico Buarque merece esse escárnio. Para piorar ainda mais, tem gente dessa mesma direita dizendo que ele, no fundo, é medíocre e péssimo compositor, já que suas canções seriam só “hinos comunistas” e, só por causa disso, obteve favores dos governos petistas para ficar “milionário” e ter um apartamento em Paris. Como se Chico Buarque não tivesse engajamento político desde antes da criação do próprio PT e como se ele já não fosse um compositor consagrado e “rico” muito antes da ascensão do PT ao poder.

Em primeiro lugar, nem vou discutir a evidência da extrema falta de civilidade e boa educação dos sujeitos que agrediram Chico Buarque. Poderia ser contra Lobão ou Danilo Gentili. O Ministro aposentado Joaquim Barbosa já passou por coisa semelhante. Agressão é agressão, é dado objetivo. Se alguém vai até outro, o chama de “merda” e esculhamba suas opções políticas, isso é agressão em qualquer circunstância e contra qualquer um. Por que o sujeito é uma figura pública, isso não dá o direito a ninguém de ir “tirar satisfação” de suas opções de qualquer natureza. Para mim, isso é um ponto fora de qualquer discussão.

O intuito desse texto, em verdade, é outro, apesar da relação que tem com o narrado até aqui..

Vamos lá, parece que em alguns casos, o sujeito se ideologiza de forma tão fanática (com frequência, de modo raso e com pouquíssima leitura e reflexão) que passa a adequar o mundo e a arte à sua régua ideológica. E mede até a qualidade artística a partir desta, sem enxergar valor em qualquer coisa que contrarie seu senso “estético”. Eita, lembrei que “Narciso acha feio o que não é espelho”. Pois é.

Convenhamos o seguinte: ainda que você seja de direita, contra o PT, deteste Lula e adore Bolsonaro, você vai me dizer que canções como “Com açúcar e com afeto” ou “Valsinha” são feias? Que uma canção como “Olhos nos olhos” não adentra fundo na alma feminina (várias amigas já o disseram a mim, antes que achem que estou querendo falar pelas mulheres)? Que uma “João e Maria” ou uma “Fado tropical” não são obras-primas em termos de estética poética e musical? Que “Vai passar” não é um samba com letra e música simplesmente extraordinárias? Se você pensar “Cálice” como um libelo antiditaduras de qualquer tipo (incluindo soviética, cubana ou o que mais seja), não é uma canção genial?

Do mesmo modo, como reação à esquerda, já tem gente compartilhando postagens de Roberto Carlos como o “queridinho” da ditadura e que seu sucesso deveu-se a isso, não à sua qualidade musical. Pera lá, amigos, diferentemente de Chico, Roberto Carlos nunca foi politicamente engajado. Certamente obteve favores oficiais, como muitos dos artistas do status quo da época, mas daí a dizer que estava alinhado com os ditadores, parece, no mínimo, um exagero. Pior ainda é analisar a sua qualidade musical com essa régua. Vamos lá, você que é de esquerda, abomina os EUA e defende os irmãos Castro e o socialismo, vai me dizer que canções como “Detalhes”, “O divã” e “Como é grande o meu amor por você” são feias? Que canções como “Cavalgada”, “Os seus botões” e “Cama e mesa” não são belas e profundamente eróticas, no melhor sentido do termo? Que “Todos estão surdos” e “Emoções” não tocam profundamente na alma em letra e melodia? Que “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, feita para Caetano Veloso quando este estava exilado na Inglaterra justamente durante a ditadura, não diz muito sobre seu autor e sua sensibilidade?

Menos, pessoal, vamos parar de ideologizar a vida e a arte!

Não é por que Wagner era antissemita e Hitler gostava de suas músicas que ele seria um mau compositor. Eu gosto muito de Wagner e abomino o nazismo. Stalin adorava Charles Chaplin. Então quem gosta de Chaplin seria stalinista? Villa-Lobos fez músicas para o Estado Novo e por isso virou um compositor ruim? Regina Duarte é uma má atriz por que fez campanha pra Serra? Gilberto Gil é um péssimo músico por que foi Ministro de Lula e é de esquerda?

Vamos deixar de lado esse patrulhamento ridículo.

Vãs ideologias jamais conseguirão dizer o que Chico, Roberto e muitos outros grandes letristas disseram. Jamais conseguirão tocar fundo na alma como uma música de Mozart ou Chopin, ou uma cena de um “Cinema Paradiso” e seu emocionante grand finale com a bela música de Ennio Morricone.


A arte genuína é sublime. Relaxe e aproveite-a, sem ranços ou preconceitos.

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