terça-feira, 18 de agosto de 2015

EUA e respeito à diferença

Enquanto tento digerir essa infame tentativa da Confederação das escolas particulares do Brasil terem o "direito" de discriminar a pessoa com deficiência (ingressaram com Ação Direta de Inconstitucionalidade, tentando declarar a inconstitucionalidade do Estatuto da Pessoa com Deficiência, que proíbe a discriminação por parte da escola - cf.  http://educacao.uol.com.br/noticias/2015/08/14/escolas-privadas-vao-ao-stf-contra-obrigacao-de-ter-alunos-com-deficiencia.htm), não poderia deixar de reconhecer em um país para o qual muitos torcem o nariz (especialmente os politicamente à esquerda) um exemplo de tratamento institucional e social às necessidades da pessoa com deficiência.

Apesar de, em regra geral, me considerar um sujeito de esquerda (social democrata, embora na atual temperatura política nacional, qualquer um que não seja um feroz antipetista/anitesquerdista é considerado comuna, petralha, bolivariano, leninista-maoísta e por aí vai), sou um grande admirador dos EUA enquanto país, com suas colossais contradições, mas também com seu espírito vanguardista e incrível pluralidade sócio-cultural. Minha admiração aumentou consideravelmente desde que me vi envolvido com os direitos da pessoa com deficiência em razão do autismo de meu filho mais velho. Pude ver nos inúmeros relatos de pessoas que moram lá ou que o conhecem bem, um país profundamente inclusivo em termos sociais e institucionais, com profundo respeito à diferença na questão da pessoa com deficiência, o que me faz corar de vergonha enquanto brasileiro dos anos-luz de distância que estamos deles nesse particular.

Vi agora escrito um relato de uma dessas mães numa conversa em redes sociais, mais ou menos assim (alterei algumas coisas para preservar as envolvidas):

"As mães americanas daqui têm um grupo no FB e falam bastante nas intervenções dietéticas e nos ótimos resultados dos esportes para o desenvolvimento dos autistas.
Uma delas falou que o filho com 15 anos foi incluído no futebol e depois disso, nunca o viu tão feliz.
As crianças americanas são educadas para conviver e respeitar as diferenças. Isso é recorrente nos vários Estados por aqui.
Mas nas escolas as crianças estão misturadas com as de outras nacionalidades e, sinto dizer, as mais preconceituosas são justamente as crianças brasileiras, pois os pais não lhes ensinam que as diferenças existem e é necessário conviver com elas.
Revoltada com o Brasil, somos preconceituosos e fingimos que não.
Na Igreja que frequento, que é cheia de brasileiros, eles não se importam, fingem que meu filho não existe. Já bem próximo, há uma Igreja americana que tem até uma sala à parte para autistas, onde eles ficam enquanto os pais assistem o culto.
É muito diferente do Brasil. As crianças americanas tentam se conectar com ele, chamam para brincar. Chamam-no de "buddy" (companheiro, parceiro), têm paciência com ele, ensinam-lhe a brincar, respeitam muito. Já as brasileiras ficam: "ei tia, por que ele não fala, por que bate as mãos, ah, ele parece com meu irmão bebê"."

Tiro o chapéu pra os EUA nisso e em muitas outras coisas.

Obs.: pra ninguém ficar com raiva, a foto é da Embaixada dos EUA reaberta em Cuba (vejam a bandeira deste país). Enquanto alguns por aqui ressuscitam vetustos discursos da Guerra Fria ("Brasil não será uma nova Cuba"), EUA e a ilha caribenha se aproximam politicamente, convictos de que o belicismo nunca foi benéfico a nenhum dos dois. Mas isso é assunto pra outra postagem.

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