quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Agora Professor Associado e um breve retrospecto da carreira docente

Compartilho aqui com os amigos: saiu finalmente, após meses de tramitação nas instâncias burocráticas da UFPE minha promoção/progressão vertical na carreira docente universitária de Professor Adjunto para Professor Associado.

Sou advogado inscrito na OAB/PE, com anuidade em dia, e hoje atuo na Instituição dando minha contribuição, voluntária e sem remuneração, como Conselheiro Estadual e Presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Acho a advocacia uma das profissões mais bonitas que existem, embora nem sempre bem compreendida.

Mas não posso negar que a docência é a minha paixão e profissão por excelência. Iniciei minha vida de professor universitário aos 24 anos, como Professor Substituto na mesma Faculdade de Direito do Recife/UFPE, ao mesmo tempo em que ingressei no Mestrado da mesma instituição, no agora longíquo ano de 1998. Durante todo esse tempo, passei pelas agruras e doçuras da docência, sentindo como é tratada a educação no Brasil, sempre presente com ênfase nos discursos políticos e pouco prestigiada em termos concretos, até mesmo quando estão no poder os partidos e políticos ditos "progressistas". Como o Professor Substituto é temporário (terminei meu contrato em 2000), lecionei durante esse tempo em diversas instituições privadas (AESO - Barros Melo, Universo, FIR, Faculdade Guararapes), com destaque para minha segunda casa, a ASCES, onde tive o privilégio de lecionar durante 7 anos (de 1999 a 2005) e aprendi muito lá a ser o professor que hoje sou, inclusive exercendo Coordenação de Pesquisa e Extensão, bem como de Pós-Graduação, sempre procurando corresponder à confiança em mim depositada.

Na universidade pública, tive o privilégio de lecionar em duas outras, antes de finalmente voltar à FDR/UFPE: em 2004, um mês antes de defender minha tese de Doutorado, fui aprovado em primeiro lugar no Concurso para Professor Adjunto em Direito Constitucional na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, também para mim, uma grande escola e experiência maravilhosa durante um ano e meio. Em 2005, fui aprovado para Professor Adjunto na Universidade Federal da Paraíba, igualmente uma grande experiência, ainda que curta, onde trabalhei de janeiro a setembro de 2006, quando finalmente, após concorrido Concurso e aprovação em primeiro lugar, pude assumir o cargo de Professor Adjunto na tradicional e grandiosa Faculdade de Direito do Recife, que me acolheu como seu filho, não obstante eu ter sido graduado pela Universidade Católica de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos e aprendizados no mundo do Direito.

Destaco, para que fique claro, a importância que tiveram os meus cursos de Mestrado e de Doutorado em minha formação: foram fundamentais, eu não seria o mesmo sem eles, sem falar nas oportunidades de vivenciar a academia em outros países, como na Universidade de Coimbra/Portugal e nas andanças acadêmicas em outros países da Europa e da América do Sul. Para ser professor de Direito, precisa ter formação específica, não basta ser um grande advogado ou um ótimo juiz.

De 2006 a hoje exerci com muito orgulho e procurei honrar a todo momento o cargo que me foi conferido pela aprovação no Concurso. Méritos, sim, os tenho para aqui estar; mas sou grato às pessoas que me ajudaram na vida para que eu chegasse onde estou, a começar pela esposa, família, colegas parceiros, alunos, alguns grandes mestres que me influenciam até hoje, e aos que me deram oportunidades para mostrar minhas potencialidades. Nenhum sucesso é estritamente individual, devemos lembrar disso. Não somos quase nada sozinhos.

Decorre daí uma grande responsabilidade: sei que, como docente em uma universidade pública, sou remunerado pelos tributos recolhidos de todos os cidadãos. Não estou fazendo favor quando cumpro minhas obrigações, pois estou ali para isso. Durante esses quase 9 anos de efetividade na FDR/UFPE, procurei, com todas as dificuldades pessoais e problemas familiares que tive durante o período, exercer com presteza e dedicação tudo o que me foi atribuído. Busco ser assíduo e dificilmente faltar às aulas, salvo em casos de doença ou compromissos programados em benefício da própria Instituição e informados com antecedência; planejo minhas atividades antes de iniciar o semestre e sempre preparo minhas aulas com bastante atenção; em termos de pesquisa, pleiteei praticamente em todos os anos bolsas de iniciação científica para alunos interessados nesta, mesmo quando não me senti apto a orientá-los como mereciam, muitas vezes apenas para mantê-los interessados em fazer pesquisa; na Pós-Graduação, ministrando aulas todos os anos, orientando e participando das bancas examinadoras, assim como procuro fazer também na própria graduação (embora esse processo ainda seja muito falho nesse âmbito); hoje tenho horário fixo de atendimento a orientandos da graduação e da pós, já corrigindo alguns erros passados e organizando melhor meu trabalho; no campo da produção científica, embora eu não seja, digamos assim, "midiático" em relação aos temas "da moda" ou aqueles que "caem em concurso" ou são "pra ganhar dinheiro", procuro mantê-la razoável, produzindo escritos com conteúdo apto a integrarem as boas Revistas jurídico-científicas, assim avaliadas pela CAPES e os critérios QUALIS, bem como mantemos atualmente em atividade o Grupo sobre Justiça de Transição, que, a meu ver, possui grandes potencialidades acadêmico-científicas, ainda mais agora com a recente criação na UFPE do Instituto de Estudos sobre a América Latina. Destarte isso, ainda dei uma mãozinha de 2013 até junho deste ano à gestão de Artur Stamford na Coordenação do Curso, sendo seu Vice-Coordenador e substituto em alguns momentos.

Procurei pautar minha prática docente por um tripé básico: excelência e profundidade de conhecimento, respeito à liberdade discente e honestidade intelectual. Não escondo minhas posições acadêmicas e políticas, mas decepciono os que querem ter um guru a ser seguido; incentivo meus alunos a andarem com suas próprias pernas, a fazerem seu próprio caminho, a não seguirem nenhum "dono da verdade", a duvidarem sempre, não necessariamente em razão de desonestidades, mas dos humanos erros nos quais todos incorremos; a buscarem o conhecimento e refletirem sobre ele; a evitarem ter "aquela velha opinião formada sobre tudo". Procuro fazer da mesma forma em relação às avaliações que realizo, pautando-as pela diversidade de métodos de aferição do conhecimento e reflexão e critérios pré-estabelecidos de análise das respostas, buscando evitar subjetividades excessivas, mas sem tolher a capacidade crítica do aluno.

Enfim, toda essa intensa atividade desenvolvida me credenciou a ter todas as minhas progressões aprovadas com "sobra" em termos de avaliação, que combina tempo, atividades desenvolvidas e produtividade acadêmico-científica (sempre fiquei com notas superiores a 9, quando a nota 7 já seria suficiente) e finalmente veio a progressão vertical com a Portaria da foto, agora chamada de promoção, para Professor Associado, uma categoria acima da de Adjunto, somente inferior a de Titular ou Titular Livre na atual estruturação da carreira.

Tenho muito orgulho de ter chegado até aqui, mas plena consciência de que ainda há muito o que caminhar. Em um país em que as pessoas, por vezes, se esquecem de seus equívocos históricos e se orgulham da própria ignorância, ser educador em qualquer nível que seja, é um desafio permanente. É, muitas vezes, uma luta contra governos, contra parcelas da sociedade e do empresariado que desdenham da educação de qualidade, contra incompreensões, por vezes até contra colegas que menosprezam ou colocam em plano inferior a profissão de professor quando exercem alguma outra atividade tida como principal, e até contra discursos e práticas políticas de coação à liberdade de cátedra, como esse ridículo projeto de criminalizar o "assédio ideológico" por parte do professor, como quer o Dep. Fed. Rogério Marinho (PSDB/RN), defendendo, na prática, que professores possam sofrer censura, patrulhamento e perseguição em razão de suas posições políticas.

Enfrentando tudo isso, aliado ao pouco reconhecimento profissional diante das dificuldades remuneratórias e de financiamento de atividades de produção científica, ainda acho que vale a pena ser professor. Sinto-me, mesmo com todas as dificuldades, profundamente realizado quando vejo o progresso de meus alunos, jovens que eram ingênuos e imaturos, mas que chegam a mim anos depois e me dizem que graças àquela minha aula sobre constitucionalismo comparado ou a pesquisa sobre justiça de transição, ele ou ela se interessou em estudar na Argentina, no Chile, em Portugal ou na Inglaterra e conseguiu realizar seus sonhos acadêmicos e engrandecer suas experiências profissionais e pessoais. É ver muitos ex-alunos, que hoje também são professores, muitos provavelmente melhores que eu (e a ideia é essa mesma, o aluno superar o mestre), para além dos que exercem as profissões jurídicas com muita dignidade, a advocacia, a magistratura, o ministério público, lembrarem, muitas vezes com carinho, de que aquelas despretensiosas reflexões ditas em sala de aula ou num encontro de pesquisa ou de orientação lhes influenciou para toda a vida (ainda que muitas vezes nem eu mesmo lembre o que eu disse, mas eles sim). Isso é simplesmente maravilhoso e me faz ser professor com profundos sentimentos de amor por essa linda profissão e tudo o que ela proporciona a mim e aos que me cercam.

Que eu possa continuar sendo abençoado com o privilégio de seguir exercendo essa profissão com dignidade e dedicação por muitos anos ainda. E um muito obrigado, de coração, a todos que me acompanharam nessa jornada, só não nominando-os pelo risco de cometer injustiças com as falhas da memória.

Detalhes curriculares, a quem interessar, na Plataforma Lattes do CNPQ (apesar da ausência de algumas atividades que fiz/faço e esqueci de registrá-las por lá, mas devo fazê-lo em breve): http://lattes.cnpq.br/8696645008219824.

3 comentários:

PETRUS disse...

Promoção merecidamente alcançada. Tive a felicidade de, como aluno da ASCES, conhecer um pouco dessa trajetória. Fico feliz por tudo.

Fabio Leao disse...

Bruno, parabéns pela trajetória acadêmica, profissional e pessoal. Que bom exemplo!

Fabio Leão

U Pensador disse...

Em frente e parabéns!!!!