sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Sobre Dilma, PT, PSDB e Universidade Federal: um mísero testemunho



Tenho por hábito, mesmo em debates político-eleitorais acirrados, não demonizar governos. Tratar, como muitos fazem, um lado da disputa como o bem absoluto e o outro como o mal absoluto não permite qualquer discussão realmente séria. Meu compromisso com a verdade, com o debate civilizado, com a pré-condição de se respeitar as pessoas e praticar a máxima da tolerância (por mais que alguns já tenham me chamado de desonesto ou vigarista por isso – pasmem, é verdade! – já que existem os fundamentalistas que acham que ou você está incondicionalmente com eles ou é um crápula) me coloca de antemão no polo oposto do discurso do ódio, do binarismo bem x mal e do falseamento de informações para beneficiar candidaturas ou pontos de vista. Isso venham de onde vierem, seja das candidaturas que eu defendo ou das outras. Em razão disso, nunca me abstive de criticar publicamente governos, mesmo aqueles os quais votei e apoiei. Neste mesmo blog há inúmeros posts com críticas abertas aos governos do PT, mesmo tendo votado neles.

Acredito que os governos FHC, Lula e Dilma têm seus méritos e deméritos, como todos, e que o fato de fazermos uma opção deve ser basicamente no sopesamento daqueles e não em acreditar que um seja o mal absoluto e o outro o bem absoluto. Em meu caso, nunca deixei de reconhecer os méritos do governo tucano no que diz respeito à estabilidade monetária, controle da inflação e maior responsabilidade com as contas públicas comparativamente aos seus antecessores. Contudo, as opções políticas do que fazer em termos de projetos para o país me pareceram profundamente equivocadas em sua maioria. E no tratamento com a Universidade Federal, isso se mostrou de modo claro e latente.

Acho curioso como muitos dos atuais alunos da FDR que apoiam entusiasticamente qualquer alternativa antipetista (na base do "vale tudo para tirar o PT do poder") parecem desconhecer por completo o que foram os anos tucanos para a mesma. É compreensível, pois os mais velhos em geral estão na faixa dos 22/23 anos, se formando, considerando-se, portanto, que nasceram por volta de 1992 e eram crianças durante o governo FHC. Os mais novos nasceram por volta de 1996/1997 e possuem somente a realidade recente para análise. Especialmente a eles, trago este testemunho.

Apesar de alguns méritos gerais, eu não tenho dúvidas em afirmar que o governo FHC foi no que diz respeito ao tratamento com a Universidade Federal, o pior do que todos os governos pós-ditadura. Fui aluno e professor substituto nos anos tucanos na Faculdade de Direito do Recife e o que vi foi: professores se aposentando em massa (os que podiam fazê-lo) para escapar das novas regras previdenciárias com ameaças de retroatividade; mais da metade das disciplinas da tradicional Faculdade entregue a professores substitutos (temporários) em razão da ausência quase total de contratação de novos docentes permanentes para substituir os aposentados; salas de aula precárias, sem ar condicionado ou ventilador, rebocos caindo, a ponto do poder judiciário ter determinado a interdição de várias salas de aula pelo risco de vida que as quedas de reboco poderiam provocar aos alunos, docentes e funcionários; até giz (isso, ainda era quadro de giz) nós professores tínhamos que comprar com nosso dinheiro (que, diga-se de passagem, estava com o menor poder de compra em quase 40 anos, pior nesse caso até mesmo do que na ditadura); os vídeo-cassetes, DVDs e TVs estavam quebrados e não havia verba para seu conserto (lembro que não poucas vezes tive que levar meu vídeo e minha TV para mostrar filmes temáticos aos alunos); os professores e funcionários estavam há anos sem aumento, nem mesmo reposição inflacionária houve; e o investimento em pesquisa foi cortado drasticamente, com a contínua diminuição de bolsas e financiamentos de projetos importantes sendo a regra. E isso era em todo o país e em todos os cursos, incluindo nossa UFPE. 

E o que temos hoje? 

Quase todos os professores são efetivos (eu próprio ingressei por concurso público em 2006), os salários melhoraram (embora não tanto quanto eu ache que deveria), há plano de cargos e carreiras (com defeitos, mas há), as salas de aula possuem ar condicionado, estrutura de som e data show, não precisamos mais comprar do próprio bolso material básico de trabalho; o espaço físico foi completamente reformado, das salas de aula aos auditórios, para não falar da recuperação do Salão Nobre e do Espaço Memória; hoje temos bolsas e financiamentos de projetos científicos em muito maior número. Ademais, a autonomia das universidades é maior e a interferência do governo, menor.  De uma Universidade baixo astral e decrépita no início da década passada, temos hoje uma Instituição pulsante, vibrante, com produção científica em ascensão e com cada vez maior interlocução com a sociedade.Isso sem falar nas políticas inclusivas que tornaram a Universidade Federal mais aberta aos estudantes pobres e negros, sendo hoje uma Instituição mais miscigenada e interclassista, consequentemente mais democrática.

É lamentável dizer isso, mas o governo do Presidente-Professor, intelectual brilhante com formação na Sorbonne e grande pensador das questões sociais brasileiras, foi paradoxalmente o pior da história democrática recente para a Universidade Federal, ao passo que o governo do "Presidente analfabeto" que nunca sentou num banco de universidade para estudar foi disparadamente o melhor. Dilma não foi tão boa como Lula, fizemos inclusive greve contra ela em 2012. Mas ainda assim, incomparavelmente melhor do que os tucanos que tentaram destruir a Universidade Federal por inanição, em minha pobre opinião. 

A posição dos reitores das Federais não é à toa. Até esperava que Aécio prometesse algo diferente para a Universidade, fizesse talvez uma mea culpa do que os tucanos fizeram entre 1995 e 2002, mas nem uma única palavra... E com o guru econômico Armínio Fraga, um homem que parou nos anos 90 em termos de pensamento econômico e acredita que o salário mínimo é "alto demais", vejo que as ideias tucanas sobre a Universidade pública infelizmente parece não terem mudado. 

Diante disso, não tenho alternativa senão votar em Dilma, mesmo não estando satisfeito com o governo dela, principalmente do ponto de vista da gestão. Há outros motivos também, mas como o post é específico sobre a Universidade me limitei a isso.