sexta-feira, 18 de abril de 2014

O sino da Faculdade de Direito do Recife e a "Sorbonne" da tortura nos tempos de exceção

Uma das coisas de que tomei conhecimento no recente Seminário "50 anos do golpe de Estado de 1964: não esquecer para não repetir" foi a história contada pelas vítimas da tortura daqueles tempos de que onde hoje é localizado o Hospital Geral do Exército, quase ao lado do prédio da Faculdade de Direito do Recife, era sede do DOI-CODI de Pernambuco e um centro de tortura do regime de exceção. Os "subversivos" eram lá levados para sofrerem os horrores da tortura e ficavam dias e semanas isolados, nadificados e humilhados, perdendo a noção de tempo.
 
Mas há uma curiosidade: graças ao sino do relógio da Faculdade de Direito do Recife, eles descobriam onde estavam. À época, o referido sino badalava anunciando os horários "cheios" e com isso, os torturados sabiam que estavam próximos à tradicional Faculdade onde nos últimos dias 14 a 16 de abril tivemos o Seminário e que certamente seus alunos e professores, em sua maioria, ignoravam os crimes brutais que eram cometidos tão geograficamente próximos...
 
Posteriormente, os perseguidos e torturados chamaram o macabro prédio de "Sorbonne" da tortura.

Um dos torturados do período, o jornalista e ex-aluno da Faculdade, Chico de Assis, que proferiu no evento conferência sobre jornalismo e censura na ditadura, compôs um poema intitulado "Badalar sinistro", que, de forma bela e triste, descreve aquele estado de coisas:
 
"BADALAR SINISTRO

Há um relógio tocando
reverberando o tempo.
O toque do relógio
tocava então a carne dos feridos.

E os corpos torturados
fremiam em gritos sumidos.
Em criminosas redes
o horror se implantava entre paredes.

O passar desse tempo
deixa a todos mais próximos.
Mais próximos de quê?
Talvez da História.

Alguém antes dele
fez questão de deixar
um recado numa marca de sangue.
Um pedido de socorro?

Pense bem amigo:
há outros sangrando
diria a voz antiga
escarafunchada nas paredes.

Mas o som é inaudível.
O ar irrespirável.
O falar impossível.
Quando soará o próximo badalo?"


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