sexta-feira, 25 de abril de 2014

40 anos da Revolução dos Cravos: a aurora democrática portuguesa

Hoje, 25 de abril de 2014, faz exatos 40 anos que eclodiu em Portugal a Revolução dos Cravos.

Há 7 anos fiz um texto neste mesmo blog que reproduzo abaixo com algumas pequenas modificações em homenagem ao Movimento dos "Capitães de Abril" que derrubou uma ditadura de mais de quatro décadas (salazarismo), implantando o regime democrático em um país que eu adoro, sempre recordando com muito apreço de seu povo e dos queridos amigos que lá fiz.
 
 
 "Sei que estás em festa, pá,
Fico contente,
E enquanto estou ausente,
Guarda um cravo para mim.
Eu queria estar na festa, pá,
Com a tua gente,
E colher pessoalmente,
Uma flor do teu jardim."
(Chico Buarque: Tanto Mar)

Essa é a estrofe da 1ª versão da canção de Chico Buarque que homenageia a Revolução dos Cravos, ocorrida há precisamente 40 anos atrás. A canção "Tanto Mar" foi censurada nos anos 70 pela ditadura militar brasileira que ficara um tanto atordoada com a imagem simpática dos militares portugueses ao lado da população nas ruas, derrubando uma ditadura de mais de 40 anos, o que contrastava com a sisuda imagem dos governantes militares brasileiros.
 
A Revolução dos Cravos é para mim um desses raros momentos mágicos da história em que a lógica fria da economia e da política de bastidores parece ceder diante da emoção outrora reprimida, mas finalmente libertada, em um arroubo de satisfação por todo um povo a cantar e festejar nas ruas a liberdade conquistada. Assim como na queda do Muro de Berlin, uma longa noite escura de trevas autoritárias caiu como um castelo de cartas, diante da manifestação popular nas ruas a apoiar os revolucionários que tomavam o poder em suas mãos.
 
Em verdade, o Movimento das Forças Armadas que derrubou a ditadura salazarista em Portugal já estava sendo gestado há pelo menos um ano. Havia uma profunda insatisfação, principalmente na hierarquia militar intermediária, com a continuação das guerras coloniais para imposição da autoridade portuguesa no Ultramar (parece incrível, mas em plena década de 70 do século XX Portugal ainda mantinha à força um império colonial). Aliado à pobreza crônica e ao anacronismo de termos democracias se solidificando na Europa e contrastando com o regime autoritário português, tudo isso serviu para a consolidação, no dia 25 de abril de 1974, desse movimento que, embora tenha sido proveniente das Forças Armadas, teve um incrível respaldo popular, com a população portuguesa saindo às ruas e apoiando abertamente os soldados revoltosos. Os cravos depositados pelos populares nos fuzis e rifles dos soldados e oficiais de baixa patente (daí o nome "Revolução dos Cravos"), a desobediência da grande maioria deles a parte de seus superiores que permaneciam leais ao governo e o reconhecimento do governo que seu poder político havia se dissipado e não possuía mais sustentação, fez com que o MFA fosse vitorioso de maneira praticamente pacífica (foram apenas 4 mortos em todo o território português, assassinados pela odiosa polícia política salazarista, a PIDE, quando disparou contra um grupo de manifestantes que protestava na porta de sua sede em Lisboa).
 
Embora nem tudo tenha sido "Cravos" nessa revolução, Portugal passa, a partir dela, pelo período democrático mais duradouro de sua longa história. Como consequências imediatas da Revolução, temos a extinção da PIDE e da censura, a libertação dos presos políticos, a legalização dos sindicatos livres e dos partidos, o fim das guerras coloniais e do jugo português em Angola, Guiné, Moçambique e Timor Leste. Em um primeiro momento marcadamente socialista, Portugal adota eleições livres para a Assembleia Constituinte e elabora a Constituição de 1976, carta que contém em seu preâmbulo previsão de transição a uma sociedade socialista. Posteriormente, os liberais ganham espaço político e o constitucionalismo português passa a se caracterizar como uma democracia parlamentarista de tipo ocidental, com maior equilíbrio entre as diversas forças políticas. Em 1986, entra na União Europeia, inaugurando uma era de maior prosperidade e de progresso na evolução das instituições democráticas e no combate à pobreza e às mazelas sociais herdadas do salazarismo.
 
Hoje, Portugal se mostra uma democracia consolidada, com um regime constitucional estável, plenamente integrado à União Europeia e com um nível econômico bem superior ao que possuía trinta ou quarenta anos atrás, embora, é claro, nem tudo sejam "Cravos", sobretudo no atual momento de crise econômica no continente. Mas o 25 de abril de 1974 é um dia que entrou para a história, sendo hoje feriado nacional em Portugal e intitulado "dia da liberdade".
 
Raras vezes se viu na história um movimento revolucionário tão belo e pacífico como essa revolução lusitana. Parabéns aos meus amigos portugueses e a todos os democratas que admiram esse dia.

Comemoremos com muito bacalhau e vinho, pá!

 

Um comentário:

kau Protetora da Terra disse...

Muito obrigada, professor. Seu texto foi elucidativo,a música inspiradora. Veio ao encontro da minha necessidade de compreensão enquanto dou o arremate na minha dissertação.
Grande abraço.

Cláudia Gonzalez,
mestranda da FDA/UFAL.