sábado, 1 de fevereiro de 2014

“Amor à vida” e as rupturas paradigmáticas: que viva o humano em cada um de nós


Não gosto de novelas. Acho-as muito enfadonhas, demoradas e em geral pouco verossímeis. Não lembro da última novela que acompanhei a estória, acho que é coisa de duas décadas, pelo menos.

Apesar disso, o anúncio da presença de uma personagem com autismo na novela “Amor à vida” me fez abrir exceção em relação a ela, pai que sou de um menino com a síndrome. Ao acompanhá-la, terminei por seguir a trama dos outros personagens, especialmente o Félix, magistralmente interpretado pelo ator Mateus Solano, que roubou mesmo a cena nos meses em que a novela esteve no ar.

Embora eu ainda tenha certa impaciência com enredos do tipo, reconheço que gostei do resultado no enfrentamento de dois temas sensíveis. Um deles, o próprio autismo. O outro, a homossexualidade. Em tempos de propagação da intolerância e do desrespeito, é bom ver que, apesar disso, a sociedade brasileira avança no sentido oposto.

No caso do autismo, apesar de alguns problemas de abordagem temática, foi muito positivo perceber, a partir da novela, um significativo aumento da curiosidade e da difusão da informação sobre a síndrome.
É verdade que Linda, a adolescente com autismo é personagem um tanto romantizado demais e a novela abordou com muita superficialidade a questão dos múltiplos tratamentos e especialmente as dificuldades escolares, praticamente esquecidas, o que merecia especial atenção diante da gravidade que é esse problema na vida das famílias. Para mim, foi um ponto falho.
Por outro lado, a simples presença e a atenção que o personagem teve neste horário tão assistido, por si só já foi algo extraordinário. Algumas outras questões também merecem elogios: o lado esperançoso em ver a menina acima de seu próprio diagnóstico, não escondendo suas limitações, mas valorizando seus pontos fortes e suas potencialidades (até mesmo a de se apaixonar por alguém, algo um tanto difícil, mas possível sim, ao contrário do que muitos dizem sobre uma suposta frieza ou distância do autista - ele tem problemas de relacionamento social e de comunicação, mas não deixa de ter sentimentos e emoções, como todos). A singularidade também foi focada, especialmente na conversa entre a mãe e a avó da menina (interpretada por Nathália Timberg), tendo a mesma demonstrado grande sabedoria e sensibilidade em uma cena na qual literalmente derramei lágrimas e me emocionei bastante. E a interpretação da Bruna Linzmeyer foi sensível e muito competente, pois é um papel extremamente árduo que ela conseguiu desempenhar com muita qualidade. E a Linda não só se relacionou amorosamente, mas conseguiu até mesmo descobrir e desenvolver uma capacidade artística com pintura, superando suas limitações de uma forma que sua mãe jamais acreditara. E isso acontece com muitos deles quando se consegue acertar com os estímulos corretos ao seu potencial.

Enfim, acredito que mesmo com os problemas, o saldo é bastante positivo. Hoje quase todos têm ao menos noção do que é autismo. Acho que não vão mais perguntar se é um tipo de câncer ou se é contagioso.

O outro tema sensível foi a homossexualidade. Enquanto Felicianos da vida propõem “cura gay” e a bancada parlamentar que se autointitula evangélica boicota a igualdade de direitos entre heterossexuais e homossexuais, a novela explorou com sensibilidade e sem caricaturização as várias facetas da homossexualidade, desde a homofobia propriamente dita, o “armário” forçado e os problemas psicológicos daí decorrentes, o companheirismo existente, as questões familiares, isso tudo com um destaque contundente para o excelente ator Mateus Solano, o Félix, que realmente “abalou” fazendo a “bicha má” que se tornou bonzinho no final.

Faltava o “beijo gay”. Já corrente no cinema e anteriormente ocorrido entre duas mulheres em outra novela, só que não da Globo (acho que era Luciana Vendramini com Gisele Tigre, se não estou enganado), o primeiro beijo na boca entre dois homens numa novela terminou virando grande atração e, apesar de episódicas manifestações de intolerância, uma grande parte das pessoas apoiou e houve até comemorações e aplausos em bares, e não somente de homossexuais. Foi uma grande ode à diversidade, à tolerância e ao respeito ao próximo e por isso, também fiquei feliz com o mesmo e o belo final com pai e filho reconciliados e dizendo-se um ao outro que se amavam. Foi emocionante, lindo mesmo.

E mais bacana ainda ter sido feito por dois atores heterossexuais, o que rompe mais um tabu. Ora, atores assumidamente homossexuais como Luiz Fernando Guimarães e Marco Nanini fazem papéis de heterossexuais, beijam mulheres e tudo o mais, e nem por isso deixam de serem gays. Acaso atores heterossexuais deixariam de sê-lo apenas por terem se dedicado às exigências do papel? Penso que não. Mateus Solano e Tiago Fragoso merecem grande respeito também por isso, profissionalismo, competência e sensibilidade.

Enfim, como disse um amigo facebookiano, é muito melhor ver seres humanos se beijando do que se matando, sejam eles hetero, homo, pan, poli ou o que mais vier.

Vivas ao amor, à liberdade, à tolerância e ao respeito à diversidade. Que esse avanço na compreensão social desses temas possa fazer brotar em nós o que há de mais profundamente humano.

Um comentário:

Vinicius Pinon disse...

Parabéns filho por esse comentário tão perfeito e de grande respeito à diversidade que hoje explode no mundo e que a nossa sociedade tem que aceitar gradativamente pois, é um mundo em evolução social,cultural e sexual!