sábado, 23 de novembro de 2013

Carta ao Príncipe do Castelo Azul

Heitor, filho querido, há exatos seis anos chegavas a este mundo. Nascia um filho, nascia também um pai.

Mas não qualquer pai. Pela força das circunstâncias, ser pai nunca foi suficiente. O amor incondicional a ti tem me exigido muito mais. A graça de ter-te comigo faz, contudo, desta vida um aprendizado permanente. Dia após dia, me ensinas a ser alguém melhor, a ter mais paciência, a compreender as fraquezas alheias e próprias, a buscar energias para superar os desafios, a dar valor aos pequenos grandes gestos, atitudes e palavras feitos por amor.
Muitos dizem que só pais especiais podem ter filhos especiais. Não sei se sou merecedor de tamanha honraria, mas já que a providência universal encaminhou-nos para sermos pai e filho, recebi-o há seis anos e o recebo a cada dia como uma verdadeira dádiva, ajudando-te, mas também sendo ajudado por ti, que me fazes enxergar diariamente a verdadeira importância das pessoas e das coisas em nossas vidas.

Neste dia e momento, oro por ti. Para que possas ser a cada dia mais feliz e bem-sucedido. Para que cresças forte e saudável e te desenvolvas em plena saúde física, espiritual e mental. Que a graça divina encha-nos de sabedoria e temperança, que nosso amor por ti (o meu, o de mamãe e o de Nicolas) possa transformar em mel o fel, em alegria a tristeza, em abundância a escassez, em leveza o fardo, em paz interior o sofrimento.
Que todas as bênçãos divinas e dos espíritos de luz do universo sejam derramadas em ti, filho querido.

Feliz aniversário, felicidades hoje e sempre.
Homenagens anteriores a ele:
http://direitoecultura.blogspot.com.br/2013/04/a-mais-linda-homenagem-de-uma-amiga-o.html.
http://direitoecultura.blogspot.com.br/2007/11/o-guerreiro-nasce.html.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Blue Jasmine e a permanente autorreinvenção de Woody Allen

Podem dizer o que quiser sobre Woody Allen, que está fora de forma, que não é mais o mesmo etc., mas eu continuo fã. Não consigo achar um filme do velho Woody ruim e mesmo os mais fracos são melhores do que 90% do que se produz mundo afora. E vou além: com todo o respeito aos saudosistas, para mim, ele nunca esteve em melhor forma do que nos últimos anos. “Match Point”, “Vicky Cristina Barcelona” e principalmente “Meia-noite em Paris” estão entre os melhores filmes que ele já fez. E “Blue Jasmine”, seu mais recente longa, só confirma essa boa fase.
O novo filme do diretor nova-iorquino traz muito do Allen de sempre, mas com a incrível capacidade de se reinventar a cada obra-prima que produz.
 
“Blue Jasmine” conta a estória de Jasmine (Cate Blanchett), mulher que, desejosa de uma vida de luxo e glamour, casa-se com Hal (Alec Baldwin), milionário e bem-sucedido empresário cujo segredo de sucesso, na verdade, são as ações ilegais e falcatruas de suas empresas. Depois de esbanjamentos e cometimento de crimes financeiros, Hal é preso e Jasmine perde todo o dinheiro de que dispunha. Nesse contexto, ela pede socorro à irmã Ginger (Sally Hawkins), à qual nunca teve grande consideração, desprezando-a por sua deselegância e pobreza. Jasmine sonha em voltar a ter o estilo de vida anterior, o que causa ainda maiores atritos com a irmã e seus próximos, de outros níveis sociais.
 
Não se trata exatamente de uma comédia, pois muitas das situações e circunstâncias do filme são bem dramáticas. Porém, também não chega a ser um puro drama, pois o humor está lá nos diálogos e em algumas outras situações. Humor ácido e mordaz, diferente da leveza de um “Meia-noite em Paris”, mas presente. Aproxima-se de uma tragicomédia, o que o torna ainda mais interessante.
 
Especialmente bem conduzida é a exploração dos lugares de San Francisco como cenários e a intercalação do antes e depois de Jasmine, com especial destaque para o trabalho de produção estética da personagem, bastante elegante e bonita nos momentos “ricos” e um tanto depreciada nos momentos “pobres”.
 
Para além da direção de Allen, não dá para não falar da espetacular interpretação da atriz australiana Cate Blanchett. Ela é sensacional, consegue conduzir a personagem com uma naturalidade incrível de um modo que só atrizes de altíssimo nível fazem. A alternância das situações vividas a fazem um personagem complexo daqueles que exigem bastante da atriz, que no caso nem parece se incomodar com isso. Os demais atores também estão muito bem em seus respectivos papéis.
 
Enfim, vale a pena. Mais uma bela obra de arte cinematográfica do eterno mestre, um dos maiores de todos os tempos.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Praga: impressões de viagem

Após quase um ano, volto a escrever um relato de minha viagem do ano passado ao Velho Continente. Após Budapeste, divido com os leitores minhas impressões sobre Praga, a capital da República Tcheca.
muitos anos, ouvia pessoas falarem que Praga é uma das cidades mais espetaculares da Europa, que é linda e encantadora, que é uma espécie de “Paris antiga”, diante da preservação dos aspectos do século XIX, e muitos outros elogios. De fato, Praga faz jus a isso e foi um dos melhores passeios que já fiz.
Ficamos em um hotel no bairro de Malá Strana. Não era tão perto do centro, onde ficam as principais atrações, mas, como de regra nas capitais europeias, o transporte público em Praga é tão bom que chega-se facilmente aos pontos que se deseja visitar na cidade.
Logo no primeiro dia, partimos para a Cidade Velha, centro e coração de Praga, não sem antes nos agasalharmos bastante. Enquanto Budapeste estava oscilando entre temperaturas frias e quentes, em Praga, o frio não deu trégua em nenhum momento. Como tenho especial predileção por temperaturas mais baixas, isso não foi problema para mim. Circulamos nas agradáveis ruelas da Cidade Velha, enquanto verificava que Praga foi definitivamente descoberta pelos turistas, pois estava apinhada deles. Os prédios são realmente bem conservados e autênticos e a cidade é um deleite arquitetônico a cada rua. Passando pelo Portão da Pólvora, fui conhecer o famoso Relógio Astronômico na sede da Prefeitura (foto). Ele é bonito e original, e a cada hora cheia (10, 11, 12 e assim por diante), ele badala e passam na parte superior dele bonecos representando os Apóstolos de Cristo. A Praça fica cheia de gente para vê-los, mas a passagem dos bonecos é muito rápida e um tanto decepcionante para a fama que tem.
Aproveitamos para conhecer a Igreja de São Nicolau e tomar um bom café antes de seguir para o Bairro Judeu, passeio imperdível, pois de cara se conhece a Velha Nova Sinagoga (Staronová), que é a mais antiga da Europa, construída por volta de 1270. Também o Velho Cemitério Judaico, único lugar onde os judeus podiam ser sepultados em Praga durante vários séculos, o que ocasionou sepulturas com camadas de até 12 sepultados e lápides uma em cima da outra (o antissemitismo vem mesmo de longe), assim como a bela Sinagoga Espanhola, muito bonita e bem conservada, contando a história dos judeus tchecos.
 
Ainda na Cidade Velha, não dá para deixar de atravessar algumas vezes a multicentenária Ponte Carlos (Karlov), repleta de estátuas de santos, olhando para o Rio Vltava, no qual no dia seguinte fizemos um passeio de barco, conhecendo também os arredores de Praga, vistos do Rio.
 
Mas o melhor estaria na noite: desde Recife estava na expectativa de conhecer uma Taberna Medieval que vira numa reportagem da TV, localizada em uma ladeira da Praga antiga, Taberna esta existente desde 1375, mantendo em linhas gerais suas características da época. A U krále Brabantského (http://www.krcmabrabant.cz/krcma_en.php) é simplesmente sensacional. É um passeio que não está relacionado nos guias de turismo, nem nos circuitos de atrações, até por que o espaço é bem pequeno e precisa reservar mesa com antecedência. Todos os aspectos de uma rústica taberna daquele tempo estão preservados, desde a madeira bruta das cadeiras às refeições bastante "carregadas", passando pela “delicadeza” dos garçons que cobram a conta com um punhal nas mãos à mostra (claro que é tudo encenação e isso é explicado no menu e no site). Há um show medieval no meio das mesas e clientes com música, dança, duelo de espadas e simulação de torturas e execução, afora engolidores de fogo e faquires em cima de pregos, com os atores devidamente caracterizados. Os clientes participam de tudo e a atmosfera de época é única. Foi o mais original passeio em Praga, imperdível.
 
 
No day after, conhecemos o Castelo de Praga, que é na verdade um complexo de Castelo, Catedral (de São Vito), Basílica (de São Jorge), com o bonito espetáculo da troca da guarda e a habitual multidão de turistas para filmar e fotografar. Mas o melhor do Castelo de Praga é a vista para a cidade que é de fato privilegiada. Não dá também para deixar de conhecer o Edifício Ginger & Fred, de arquitetura bem curiosa, já que foi um dos poucos locais atingidos por bombas durante a 2ª Guerra (Praga foi talvez a cidade mais preservada do conflito) e os seus reconstrutores, aproveitando a estrutura ainda existente, fizeram uma espécie de “prédio dançante” (Dancing House, como também é chamado). À noite, com um frio quase de gradação negativa, fomos beber na Cervejaria U Fleku, que mantém suas atividades há cerca de 500 anos e cuja cerveja é considerada por muitos a melhor da Europa. Não sei se chega a tanto, mas é de fato excelente, e o ambiente muito aconchegante, apesar de lotado. Após isso, na noite fria, uma parada no Café Louvre, frequentado no passado por Albert Einstein e quase um segundo escritório do autor tcheco Franz Kafka.

No último dia, deixei para fazer os passeios temáticos. Praça Wenceslau, palco principal da Revolução de Veludo que marcou o fim do comunismo na então Tchecoslováquia (palco também de manifestações da Primavera de Praga dos anos 60, sufocada pelos tanques soviéticos), e o Museu do Comunismo, com muita coisa do período em que os tchecos estavam sob a Cortina de Ferro, com um curioso paradoxo: ele fica no primeiro andar de um prédio cujo térreo é uma loja do McDonald’s (mais capitalista impossível).

Deixei Praga com destino a Viena, já com saudades dessa encantadora cidade. Espero poder lá voltar e explorar muita coisa que não deu tempo de ver. Quem sabe...