domingo, 29 de setembro de 2013

Exigência ética e pessoa com deficiência

As palavras de um dos maiores estudiosos da Bioética no mundo refletem exatamente o que penso sobre o tema:
 
"A primeira exigência ética é reconhecer na pessoa com deficiência, seja qual for esta, a plena dignidade de pessoa humana, afinal, se todos os homens são iguais na dignidade e nos direitos, aquele que, por uma circunstância de deficiência, não puder usufruir sozinho a plena expansão da própria personalidade, deverá ser ajudado por toda a sociedade."
 
Elio Sgreccia
(Professor Catedrático de Bioética da Universidade Católica de Milão/Itália, Presidente da Pontifícia Academia para a Vida, Membro do Comitê Italiano de Bioética e Cardeal da Igreja Católica)
 

sábado, 21 de setembro de 2013

Dos 40 com amor

Ontem assisti “Para Roma, com amor”, mais um maravilhoso filme de Woody Allen. Leve e bem humorado, o filme me inspirou a escrever essa minha mensagem de aniversário a mim mesmo e a todos que me dão o privilégio de fazer parte de suas vidas de algum modo.

Hoje, 21 de setembro de 2013, completo 40 anos de existência em minha passagem por esse nosso pequeno planeta chamado Terra. Dentre agruras, dissabores, sofrimento e dificuldades muitas, chego a essa quarta década de vida com uma sensação de paz e imenso bem-estar, com um forte sentimento de valorização da vida, dessa passagem espiritual e material sobre a qual por vezes deixamos de refletir, ignorando o por quê de nossas ações e sentimentos e o que existe para além de nosso mundinho pessoal.
Chego aqui com imensa felicidade pela dádiva divina de ter vivido essas quatro décadas, de ter feito várias amizades valorosas, verdadeiras e duradouras, de ter propiciado boas coisas a vários de meus semelhantes, de ter retribuído em parte o muito que a vida me deu, com a serenidade de enxergar que, mesmo com tanto sofrimento em nossa volta, o quanto se pode ser feliz ainda assim, quando se busca fazer o bem e criar ciclos virtuosos, alcançando uma alentadora leveza de coração e de espírito. Sinto imensa gratidão por cada um que fez ou faz minha vida mais enriquecedora e interessante.

Nasci em 1973. Com o gosto que tenho por estudar e entender a política, não poderia esquecer que foi precisamente dez dias após um golpe de Estado que derrubou um Presidente democraticamente eleito em nosso vizinho Chile. Com o gosto que tenho pela poesia, não poderia esquecer que nasci dois dias antes da morte de um poeta chileno chamado Pablo Neruda, que, talvez não por acaso, é um de meus prediletos. O Brasil também vivia tempos politicamente difíceis, eram os “anos de chumbo”, do “cale-se” e do “chame o ladrão”. Liberdade como algo ainda a conquistar.
Nesse contexto, eu chegava ao mundo em pleno aniversário de minha mãe que, aos 21 anos, me recebeu com todo o amor que uma mãe pode dedicar a um filho, no caso ao seu primeiro. Ao contrário do que hoje ocorre, com obstetras programando nascimentos cirúrgicos ao sabor de conveniências próprias, nasci nesse dia por conspiração cármica ou providência divina, pois a bolsa de líquido amniótico rompeu precisamente na data. Minha querida vovó Didi, hoje já em outra dimensão, levou minha mãe à maternidade em Caruaru para receber seu também primeiro neto e o parto só foi cesariano por que fiquei com “preguiça” de virar na posição correta ao parto natural.

Como filho e neto (na família materna) primogênito, devo ter sido muito paparicado por tios e avós em uma família bem grande (tinha 5 tios paternos e 9 maternos, fora os avós), embora, por óbvio, nada lembro desse período. As primeiras lembranças remontam aos 4 ou 5 anos, das reuniões familiares na casa de minha avó matriarca à Praça Nova Euterpe, em Caruaru, da vida ainda pacata numa Recife provinciana, na pequena farmácia que meus pais abriam à Estrada do Arraial, tentando ganhar a vida e dar dignidade à família como microempresários.
Dois dias antes de completar 7 anos, nasceu meu irmão Romeu, até hoje grande amigo e parceiro, presente em tantos momentos, bons ou ruins, de alegria ou de sofrimento, mas presente. 20 anos depois, nasceu Vinícius, com nome de poeta e filho do segundo casamento de meu pai, completando a macharada (risos) de irmãos.

Moramos à Rua Sebastião Alves, no Bairro do Parnamirim, onde minha infância foi marcada por muitas amizades, brincadeiras, brigas e tudo o mais que poderia acontecer em uma rua que era repleta de crianças. Brincava de skate ou jogava futebol (no meu caso, muito mal) tanto quanto disputava campeonatos de Atari ou brincava com os bonecos do Falcon. Foi ali também que chorei copiosamente a derrota do Brasil para a Itália na Copa de 1982, não acreditando em minha mente de criança que aquele time mágico de Zico, Sócrates e cia. poderia perder.
Estudei no Instituto Pedro Augusto e depois no Colégio Damas, onde fiz amigos que preservo até hoje. Em minha adolescência, apaixonei-me muitas vezes, a maioria não correspondida, principalmente por minha excessiva timidez. Aprendi a amar música clássica quando assisti o filme “Amadeus”, de Milos Forman. Adorava também várias bandas que se consagraram à época, a exemplo do Iron Maiden, do Queen e dos Scorpions, do Legião Urbana e dos Titãs, bem como de outras mais antigas, como Led Zeppelin e Beatles, e ícones de nossa música, a exemplo dos eternos Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Raul Seixas e outros.

Na política, vibrei com a vitória de Tancredo Neves na eleição indireta e a redemocratização do Brasil, com a saída dos presidentes generais; chorei depois com sua (de Tancredo) morte  ao som de “Coração de estudante”, mágica na voz de Milton Nascimento, se tornando uma trilha sonora daquela comoção nacional. Comemorei muito as primeiras vitórias de um então iniciante piloto de Fórmula 1 chamado Ayrton Senna, que, mesmo nessa condição, mostrava determinação e coragem além do esperado e orgulhava um país com tantas dificuldades quando colocava a bandeira brasileira para fora do carro em suas vitórias, algumas delas espetaculares.
Ingressei no curso de Direito da Universidade Católica de Pernambuco em 1992. No ano em que o Brasil se mobilizou nas ruas para derrubar um Presidente comprovadamente corrupto, estive nas passeatas, pintei a minha cara, participei do movimento estudantil universitário e até candidato a Presidente do Diretório Acadêmico eu fui. A indignação com a situação de injustiça social no Brasil e no mundo e o contato com lideranças estudantis e populares de esquerda me fez comunista por um tempo, acreditando à época que a doutrina de Marx e Engels havia sido mal aplicada na União Soviética e em outros lugares e que seria possível construir o socialismo marxista com democracia.

Do fim de minha graduação em diante mudei minha percepção, vendo que o grande problema está no próprio ser humano e o sistema não é capaz de transformá-lo. Um sistema que busque um “novo homem” pode até piorá-lo, pois a imposição de um modelo ideal de ser humano é tirânica e ignora a maior riqueza que podemos ter como seres sociais que é a nossa diversidade. Revoluções armadas e violentas podem trazer ainda mais dor e sofrimento e criar tiranias ainda piores e mais opressoras que as que visam combater. Deixei de ser comunista, passando a ser um democrata e humanista radical (de raiz e não extremista), defensor intransigente do diálogo e da tolerância e não abrindo mão da democracia política e do Estado de direito por finalidades de justiça social. Essas são fundamentais, mas somente em sociedades abertas se tornam possíveis na prática. Prefiro um Nelson Mandela a um Fidel Castro.
Considero-me politicamente mais próximo hoje da esquerda socialdemocrata keynesiana, defensor do Estado de bem-estar social, bem como próximo de lutas sociais emancipatórias por igualdade de direitos e de oportunidades para segmentos vulneráveis em direitos, a exemplo das mulheres, dos negros, dos homossexuais, das pessoas com deficiência e de todos aqueles que precisem de dignidade e respeito por sua condição, podendo contar comigo como aliado. Sou pacifista, o que não quer dizer passividade. Luto pelo que acredito, hoje principalmente pelos direitos da pessoa com deficiência, usando as “armas da ternura” contra a incompreensão e o preconceito; não deixarei de combater o bom combate.

Voltando à história de vida, terminei a graduação em 1997, e fiquei à época com as dúvidas profissionais que afligiam e afligem a maioria dos jovens recém-formados em direito aos 23/24 anos: seguir na advocacia, fazer concurso para carreiras jurídicas públicas ou ingressar no mundo acadêmico? Ter sido aprovado no Exame de Seleção ao Mestrado da Universidade Federal de Pernambuco naquele mesmo ano dirimiu-as e optei pela vida acadêmica a partir de então, iniciando-me na prática de aulas e nos estudos e pesquisas para a construção de textos, artigos e teses científicas. Mestre em 1999, Doutor e Professor da UFRN em 2004, Professor da UFPB em 2005 e finalmente da UFPE a partir de 2006; esses fatos me ligaram à vida acadêmica até os dias atuais, não podendo deixar de lembrar a maravilhosa experiência de “doutorado sanduíche” na Universidade de Coimbra, em Portugal, marcante na minha formação de jurista e humanista, na profícua convivência com professores e intelectuais de várias partes do mundo. O que não impediu minha recente reaproximação com a advocacia, no Conselho Estadual da OAB/PE, na Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência e em outras questões pertinentes à classe ou à cidadania.
Todas essas experiências, para além do aspecto profissional, têm me proporcionado um grande aprendizado humano, com as tentativas que faço de aplicar em minha vida um pouco daquilo que creio serem máximas de um “bem viver” comigo mesmo e com meus semelhantes. E aí não dá para separar completamente a minha essência, como pessoa, daquilo que procuro ser como profissional.

No campo pessoal, ainda no período da faculdade, conheci em 1995 minha atual companheira e esposa, com a qual sou casado há 11 anos. Incansável guerreira na vida, amorosa e leal, com ela aprendi e aprendo muito todos os dias. Sou-lhe imensamente grato por tudo de maravilhoso que me proporcionou durante todos esses anos e, não obstante estarmos longe de perfeições e os momentos ruins existirem, esses seriam piores sem ela e os bons, sem ela talvez não fossem tanto assim...
Mas nada de mais maravilhoso ela poderia ter me dado do que meus dois filhos, tendo especialmente o primeiro mudado diuturnamente minha percepção da vida e do mundo.

Em 2007, nasceu Heitor, meu amado primogênito. Trouxe e traz muita alegria a essa família. Apesar de seu diagnóstico de autismo aos 2 anos e meio, é uma criança amorosa, afetiva e luta diariamente para superar suas próprias dificuldades. Nem sempre é fácil lidar com ele, é uma rotina extenuante buscar seu melhor desenvolvimento. Mas quanto ele tem me ensinado sobre paciência, fé e esperança... Quanto é valioso um olhar ou um sorriso dele para mim... Quanto é maravilhoso toda vez que ouço alguma palavra sair de sua boca ou o aprendizado de uma nova habilidade por ele... Quantas lições de respeito ao outro, meu príncipe guerreiro troiano tem me dado todos os dias... Acredito que Heitor tem me feito um ser humano melhor a cada dia...
Assim também ocorre com meu pequeno Nicolas. Nasceu em 2009 e hoje é fonte de gargalhadas e divertimento em nosso lar. Sagaz e bem humorado, sua compreensão das dificuldades do irmão é surpreendente para alguém de sua idade. Ouvi-lo dizer que me ama é a melhor coisa dessa vida. É incrível como o amor também pode ser ensinado e o seu cultivo diário traz um retorno em boas dádivas e fraterna convivência, por maiores que sejam as dificuldades materiais e o estresse cotidiano. Nicolas também é o que de melhor pode acontecer na vida de um pai.

A busca de respostas sinceras às muitas angústias existenciais e minha não conformidade com dogmatismos levou-me a uma aproximação com o budismo, religião que busco seguir desde 2010, não obstante ter tido contato com a mesma bem antes, com a prática de meditação zen e de artes marciais, especialmente o kenjutsu dos samurais japoneses e seus subjacentes ensinamentos sobre lealdade, coragem e compaixão. Antes de tudo, trata-se de filosofia de vida que implica permanente tentativa de cumprir os Cinco Preceitos (não matar, não roubar, não mentir, não ter má conduta sexual e não entorpecer a mente) e se afastar dos 3 Venenos da Alma (ganância, ódio e ignorância), o respeito às demais religiões, a convivência pacífica entre elas e a ausência de proselitismo, o que me aproxima ainda mais dela. O budismo tem me ajudado a enxergar com serenidade a impermanência das situações boas ou más da vida e me dado alento espiritual diante de recentes e grandes dificuldades, me nutrindo a esperança e a fé. É claro que isso pode ser alcançado em outras religiões, por isso considero essa busca algo muito pessoal e o mais importante é sermos felizes em nossas escolhas.
Enfim, não obstante muito sofrimento e coisas ruins também terem ocorrido em minha vida, chego aos 40 anos com muito amor e esperança no coração, acreditando na possibilidade de construirmos gradativa e consistentemente um mundo melhor para vivermos, com maior tolerância e compreensão, com mais respeito à diferença e à diversidade, e com a sincera busca da fraternidade e da paz de espírito que todos, em seu íntimo, desejam.

Se posso dar um conselho, ao completar quatro décadas de vida, é este: ame intensamente a vida, seus familiares, pais, mães, filhos, netos, avós, companheiros, companheiras, amigos; faça de todas as suas ações atos de amor ao seu próximo e por mais que possa parecer que não valeu a pena, nunca deixe de amar e nunca se arrependa de ter verdadeiramente amado. Qualquer lugar se ilumina quando se quer amar.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O fascismo nosso de cada dia (ou de como tentar usar as “armas da ternura” contra a intolerância e o fanatismo)


Para se criticar alguém em virtude de suas posturas autoritárias, o termo “fascista” é muito usual. Em termos históricos, o fascismo está associado principalmente ao movimento nacionalista italiano liderado por Benito Mussolini a partir dos anos 20 do século passado, mas há uma variedade muito grande de fascismos, sendo o italiano apenas um deles. O nazismo alemão pode ser considerado como tal, bem como, em alguma medida, parte das ditaduras latino-americanas das décadas de 60 a 80 passadas, não obstante as grandes diferenças entre elas, notadamente no caráter racista e totalitário do primeiro e na perspectiva ditatorial simplista das últimas, em que pesem os aspectos de cesarismo estarem presentes em algumas delas, a exemplo da chilena, com certo “culto à personalidade” do Gal. Augusto Pinochet. O jurista e cientista político alemão Franz Neumann, em sua obra “Estado democrático e Estado autoritário” trabalha essas diferenciações acerca da natureza dos regimes autoritários, classificados por ele como simples, cesaristas e totalitários. Estes últimos também são trabalhados por grandes nomes da filosofia política do século XX, como Hannah Arendt (“Origens do totalitarismo”) e Karl Popper (“A sociedade aberta e seus inimigos”), que tiveram a sagacidade de perceberem o quanto os extremos “se tocam”: não obstante o discurso ferrenhamente anticomunista do fascismo e o discurso antifascista igualmente extremado do comunismo (basta lembrarmos a antiga Alemanha Oriental e a sua "Barreira de Proteção Antifascista", nome oficial dado por ela ao Muro de Berlin), experiências como o nazismo alemão, o fascismo italiano e o comunismo stalinista soviético possuem muitos pontos em comum. Muito embora os dois primeiros estejam normalmente associados ao espectro político-ideológico dito de direita e o terceiro à esquerda, comungam de práticas de intolerância à diversidade de ideias e pensamentos, de truculência com a qual tratam os seus oponentes e possuem dentre seus entusiastas, defensores fanáticos, prontos às tentativas de aniquilação do inimigo “comunista” ou “burguês-capitalista” e de suas liberdades. Embora o fascismo histórico seja associado à direita, há posturas fascistas em regimes políticos nos dois extremos do espectro ideológico, sendo intelectualmente honesto reconhecer que o fascismo italiano pode ter mais a ver, em termos concretos, com o stalinismo do que com a direita liberal clássica, assim como é possível vislumbrar mais semelhanças em termos de prática autoritária entre o comunismo cubano e o pinochetismo chileno do que entre o primeiro e os governos liderados pela esquerda socialdemocrata e defensora do welfare state.

Em verdade, as atitudes fascistas estão presentes no nosso dia-a-dia, de modo sub-reptício e muito mais do geralmente pensamos. É necessário lembrarmos que um sistema opressivo é feito de homens e mulheres que, de algum modo, por ação ou omissão, aderem a ele. Não se faz fascismo sem fascistas. E esses podem até mesmo terem um discurso de defesa da democracia liberal ou participativa, falarem a favor da família, de Deus ou do proletariado, e ainda assim o serem. Como identificá-los? Talvez não seja tão difícil assim, mas é preciso traçar análises para além do discurso ostensivo (embora esse também possa dizer muito); é necessário observar suas atitudes de maior ou menor tolerância concreta ao pensamento contrário, bem como o grau de respeitabilidade em relação ao outro e às suas ideias. Se a pessoa é destrutiva e truculenta, querendo simplesmente aniquilar ou humilhar aquele que não concorda com suas ideias, se alimenta o discurso do ódio e da intolerância, se afirma que seus contrários são necessariamente idiotas, bandidos, canalhas, vigaristas etc., ou seja, se falta o respeito e a tolerância ao que o outro tem a dizer, estamos claramente diante de um potencial fascista, não importa o seu discurso ideológico liberal, socialista ou conservador, ou se diz defender os trabalhadores, a Igreja ou a família.

Neste fim de semana, pude perceber que há uma quantidade significativa de potenciais fascistas no Brasil. Involuntariamente, protagonizei um episódio no qual me vi repentinamente achincalhado por neofascistas facebookianos: no Grupo de discussões da Faculdade de Direito do Recife, onde tenho a honra de lecionar, um aluno postou um texto e, quando o li, resolvi fazer breves comentários em tom irônico (para alguns, sarcástico, para outros, caricatural) à ideia do texto, exposta por um astrólogo e pseudofilósofo (e falo assim por que considero realmente um filósofo aquele que possui a postura de “amizade" com a "sabedoria” – philos + sophia, e não o filósofo formal diplomado, por mais erudito que possa ser) por considerá-la estapafúrdia. O meu comentário expunha um raciocínio evidentemente absurdo, mas como uma consequência plausível da ideia defendida pelo autor. Apenas a título de facilitar o entendimento dos leitores, é preciso dizer que o referido autor, não obstante ser um sujeito erudito e perspicaz, tornou-se uma espécie de Jair Bolsonaro intelectualizado e assumiu como profissão de fé um discurso ferrenhamente anticomunista, desses que vê um comunista em cada esquina e pratica um patrulhamento do discurso político, jornalístico e filosófico em geral para descobrir “inclinações comunistas” em cada linha escrita pelos não anticomunistas. Para esse autor, a ideia de uma velada megaconspiração comunista mundial parece ter se tornado uma espécie de leito de Procusto: se a realidade não corresponder à ideia, dane-se a realidade. Estique-se ou corte-se para se adequar ao leito da metáfora. Uma paranoia que lembra em alguns momentos certo "Protocolo dos Sábios de Sião"...

Sinceramente, assustei-me como palavras despretensiosas, ditas em tom jocoso, foram entendidas de modo praticamente literal e enfureceram o dito astrólogo e um séquito de pessoas que parece vê-lo como uma espécie de infalível guru, tudo por que o mesmo aluno que postou o texto propôs um debate entre nós, ainda que fartamente desaconselhado por mim, pois já conhecia a fama do autor do texto de ter estilo arrogante e destrutivo. O aluno afirmou que eu teria que “desmascarar” o autor, que era quase uma "obrigação" minha, mas eu disse imediatamente que não o considerava, nem considero, um farsante, apenas arrogante em seu modo de se expressar. Talvez minha resposta ao aluno tenha sido um tanto áspera e excessivamente direta, mas, tirando o fato de que momentaneamente eu deixei de lado o tom mais ameno e ponderado das críticas que normalmente faço, o referido autor afirma em seu próprio site que seus discípulos devem comprar seus livros para espalhar suas ideias e “enfurecer” os “pentelhos, imbecis e puxa-sacos”. Uma afirmação desta traduz algum sinal de humildade? Alguma disposição a uma troca de ideias? Ou configura um visceral autoritarismo do tipo “se não é por mim, é contra mim” ou “se não aceita minhas ideias, é um idiota”? Disse ao aluno que debateria com qualquer pessoa de qualquer coloração ideológica, política, religiosa etc., desde que em termos respeitosos e sem ofensas ou agressões, criticando-se as ideias, mas respeitando-se as pessoas. Entretanto, o aludido autor logo publicou em sua página do Facebook que eu era um imbecil (estendendo tal “crítica” à generalidade dos professores universitários e suas posturas “imbecilizantes”) e um palhaço (não obstante este último eu não considero ofensivo, pois ao menos lembra bom humor, e profissionalmente os mesmos divertem bastante crianças e adultos). Outro admirador confesso do dito mestre dos astros afirmou que eu era desonesto. Sem sequer saber quem eu sou ou me conhecer... Vê-se claramente o quanto realmente gostam do debate e de dialogar.

Mas o seu séquito de fundamentalistas quis ser “mais realista que o rei”. Proliferaram entre os neofascistas tupiniquins, quando comentaram a mensagem de seu guru, calorosos desejos que eu "tome no c.", que meu problema é "falta de r. até encostar no céu da boca", “que eu não valia um pum" (a palavra usada na verdade foi outra, de baixo calão, mas deixa para lá) e é claro que não faltaram nos comentários à mensagem facebookiana do astrólogo adjetivos “carinhosos” a meu respeito, tais como asno, zumbi semianalfabeto, nulidade, escritor de quinta categoria etc. Mas a mais hilária de todas foi essa pérola de bajulação explícita ao "guia genial", merecedora de citação literal: “É só mostrar o seu nome pra ele que ele irá se curvar diante de ti”. Foi quando saí da tristeza em face das agressões e ofensas pessoais e não me aguentei de tanto rir. Virou tragicomédia.

Como os argumentos dos talibãs tropicais, salvo raras exceções, são basicamente mandar “tomar no c.”, ou me agredir e ofender pessoalmente, ou bajular o pseudofilósofo, não respondi, não responderei, não comentarei esse ou qualquer outro texto de alguém tão pequeno como pessoa e com discípulos ainda menores, salvo raríssimas e honrosas exceções. Não adianta o que eu diga, consistente ou não, jamais será aceito por fascistas extremistas desse tipo. Tenho muitas coisas produtivas a fazer para dar importância a quem só quer impor autoritariamente suas opiniões, e já acho que perdi tempo demais escrevendo essas linhas, só o fazendo, no final das contas, para suscitar reflexões sobre o "fascismo nosso de cada dia".
Sobra arrogância, fanatismo e mau humor (curioso como intolerantes e autoritários são mal humorados). Falta amor, humildade, serenidade e bom humor, típico dos verdadeiros filósofos (amigos da sabedoria), independentemente de terem ou não diploma formal. Os neofascistas agridem, ofendem, gritam, mas não aguentam um milímetro de sarcasmo ou crítica.

Nesses dias, fiquei com enorme saudade de meu grande Professor Luis Alberto Warat – hoje já em outra dimensão, e esse sim um verdadeiro gênio, generoso, bem humorado e profundo -, esse grande filósofo e “jurista baiano” (não obstante argentino de nascimento) e suas diatribes de amor contra os filósofos (ou seriam astrólogos?) sentados, quando dizia, com seu vasto conhecimento filosófico, jurídico e psicanalítico, que é preciso usar as “armas da ternura” e da sensibilidade no direito. Também dizia, através das alegorias literárias de Jorge Amado e das categorias do candomblé afro-brasileiro, o quanto o direito e a filosofia precisavam ser “carnavalizados”, serem mais Vadinho e menos Teodoro (tive a honra de fazer-lhe uma singela homenagem quando de sua partida deste mundo em http://direitoecultura.blogspot.com.br/2010/12/warat-quando-genialidade-encontra.html).

Sua docilidade e humanidade, para além da erudição e verdadeira grandeza intelectual, fazem falta, amigo Warat! Muita falta!

Aos meus alunos e amigos, fica a lição de tolerância e respeito a partir de um contramodelo. Aos neofascistas seguidores do pseudofilósofo, apesar de tanto me ofenderem e vociferarem contra mim sem ao menos me conhecerem, não os odeio. Não por magnanimidade, confesso, mas talvez por puro egoísmo, concordando com outro argentino, o célebre escritor Jorge Luis Borges, que afirma em tom conselheiro que “Não odeies o teu inimigo, porque, se o fazes, és de algum modo o seu escravo. O teu ódio nunca será melhor do que a tua paz.”.
Que as armas da ternura vençam a intolerância e o fanatismo!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Visão budista sobre união homoafetiva

Sempre me chama a atenção o olhar sereno do budismo sobre o ser humano e a natureza. Em vez de querer impor suas concepções de modo proselitista, o budismo em geral respeita profundamente a liberdade humana e a busca pessoal da felicidade. Não prejudicando a outrem, que mal há em que a pessoa busque seus próprios caminhos de realização afetiva e espiritual? Tolerância e respeito aos direitos alheios devem fazer parte da prática das religiões com vistas à fecunda convivência entre elas.

Na Revista Bodisatva nº 25, publicação do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (p.  51), colhi a seguinte nota de reportagem, e concordo em sua integralidade com o que afirma o líder budista português citado:

"POR QUE NÃO?

Em Portugal, a união civil entre pessoas do mesmo sexo é contestada por católicos, muçulmanos, judeus, hindus, evangélicos, menos por budistas, que defendem essa opção se ela 'tornar alguém mais feliz'. Esta é a posição do Presidente da União Budista Nacional, Paulo Borges, que contrasta com a dos diferentes líderes religiosos portugueses. Considerando os princípios do budismo de pretender libertar a mente do sofrimento, 'se o casamento entre pessoas do mesmo sexo contribuir para torná-las mais felizes, então somos a favor', afirma Paulo Borges."