domingo, 28 de abril de 2013

Sabedoria milenar do outro lado do mundo

São figuras como o monge vietnamita Thich Nhat Hanh que me inspiram a adotar o budismo como filosofia de vida. Até que ponto não é cegueira e arrogância termos tantas "certezas absolutas" sobre a vida?
 
Segue abaixo uma das passagens de grande sabedoria de seu livro "A arte do poder":

“O Buda contou a história de um comerciante viúvo que partiu em uma viagem de negócios e deixou o filho pequeno em casa. Enquanto estava longe, bandidos queimaram toda a aldeia. Quando o comerciante voltou, encontrou um monte de cinzas no lugar da casa e, nas proximidades, o cadáver queimado de uma criança. O homem se jogou no chão e chorou, desesperado, por um longo tempo. Bateu no peito e arrancou o cabelo.

No dia seguinte, o comerciante mandou cremar o corpo do filho. Como o seu amado filho era a única razão de sua existência, ele costurou uma pequena bolsa de veludo onde colocou as cinzas. Aonde quer que fosse, o comerciante levava consigo o saquinho. Ele sempre o tinha ao seu lado quando comia, dormia e trabalhava. Entretanto, na verdade, o seu filho havia sido raptado pelos bandidos; três meses depois, o menino escapou e voltou para casa. Chegou à aldeia às duas horas da manhã e bateu na porta da nova casa que o pai havia construído. O pobre homem estava deitado na cama, chorando, segurando o saquinho com as cinzas e perguntou: “Quem está aí?” “Sou eu, papai, o seu filho”. O pai respondeu: “Não é possível. O meu filho morreu. Cremei o seu corpo e carrego comigo as suas cinzas. Você deve ser algum menino travesso que está tentando me enganar. Vá embora e pare de me incomodar!”. O comerciante recusou-se a abrir a porta. Como não conseguiu entrar em casa, o menino teve que ir embora e o pai perdeu o filho para sempre.

Depois de contar essa história, o Buda disse: “Se, em algum momento de sua vida, você aceitar uma ideia ou percepção como sendo a verdade absoluta, fechará a porta da sua mente. Este é o fim da busca da verdade, porque você não apenas para de procurar a verdade, mas mesmo que ela apareça em pessoa e bata à sua porta, você se recusará a abri-la. O apego às opiniões, às ideias e às percepções é o maior obstáculo à verdade.”

É como quando subimos uma escada. Ao chegarmos ao quarto degrau, podemos achar que alcançamos o topo da escada e não podemos subir mais, de modo que nos agarramos a esse degrau. Mas, na verdade, existe um quinto degrau; se quisermos alcançá-lo, teremos que estar dispostos a abandonar o quarto. As ideias e as percepções devem ser abandonadas o tempo todo para dar lugar às ideias melhores e percepções mais verdadeiras. É por esse motivo que devemos sempre perguntar a nós mesmos: “Temos certeza?””.

sábado, 27 de abril de 2013

Livros e filmes indispensáveis - parte VIII

Encerrando minhas  atuais listas de livros e filmes indispensáveis, aí vai a última com aqueles que denomino intimistas e pessoais. Aqui são filmes sem nenhuma razão especial de estarem em uma lista top 5, a não ser o meu gosto pessoal. Podem muitas vezes dizerem pouco a outrem, mas a mim dizem muito. Por razões diferentes, me marcaram profundamente. Seguem:
 
INTIMISTAS E PESSOAIS
 
 
- Amadeus
A vida do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart é revisitada aqui através do olhar de seu mais ferrenho adversário, o compositor italiano Antonio Salieri, invejoso, mas no fundo o maior dos fãs do primeiro. Como parte de uma suposta confissão de Salieri a um padre católico, o filme mostra um Mozart arrogante, vaidoso, debochado, perdulário, beberrão e mulherengo, algo que os seus biógrafos em geral rechaçam. Em um ponto, entretanto, todos concordam: Mozart era um gênio musical, talvez o maior da história, a ponto de sequer fazer cópias de suas perfeitas composições, quase como se elas lhes fossem “ditadas por Deus”. O filme é rico em belas imagens, musicalmente impecável com a trilha sonora de Mozart (salvo umas poucas de outros) e possui cenas antológicas, como a que Mozart ouve uma música uma única vez e a reproduz, corrigindo os erros do Imperador que a tocara e ainda criando variações na mesma (no que se torna depois as “Bodas de Fígaro”) e a composição do Réquiem na cama. F. Murray Abraham e Tom Hulce estão extraordinários em seus papéis e o roteiro é um dos melhores da história do cinema. Dirigido pelo diretor tcheco Milos Forman, foi filmado na bela Praga da então Tchecoslováquia, em 1984, em razão do cenário preservado da capital tcheca ser mais autêntico e original que o da própria Viena. Assisti “Amadeus” ainda criança no cinema e posso dizer que ele foi responsável por, desde então, eu amar música clássica.
 
- Cinema Paradiso
O diretor italiano Giuseppe Tornatore dá um presente aos amantes da arte e do cinema com essa obra-prima. As peripécias do pequeno Totó, que se torna depois o grande cineasta Salvatore di Vitto, dão início a um relacionamento de amizade entre ele e o projetista Alfredo, a partir de quem, em sua pequena cidade no interior da Itália, aprende a amar o cinema. A infância, juventude e maturidade de Vitto são abordadas a partir das referências cinematográficas, com imagens muito bonitas e expressivas. Amor, tristeza, alegria, paixão, saudades, tudo isso visto de forma única, em um filme profundamente sentimental, sem descambar para o sentimentalismo piegas ou meloso. Emocionante, engraçado e triste, “Cinema Paradiso” é a maior das homenagens ao próprio cinema e a tudo o que ele pode expressar a cinéfilos e não cinéfilos. Produção italiana de 1989, com destaque especial para a linda trilha sonora composta por Ennio Morricone.
 
- Meia noite em Paris
Escrevi post específico sobre esse filme magnífico de Woody Allen – segue o link: http://direitoecultura.blogspot.com.br/2011/07/meia-noite-em-paris-o-que-tantos-genios.html.
 
- Meu filho, meu mundo
O título original é “Son-rise, a miracle of love”. Filme da década de 80, está longe de ser uma obra-prima cinematográfica. Entretanto, o profundo significado pessoal, não só para mim, mas para qualquer pai, mãe, familiar ou amigo de uma pessoa com autismo faz dele um libelo contra a desesperança. Trata-se da história real de Raun Kaufmann, diagnosticado com autismo profundo e grave aos 1 ano e meio de idade na década de 70. Seus pais, Barry e Samarah, após desesperançados por quase todos os especialistas da época, que afirmavam que Raun jamais falaria e que infelizmente seria assim durante toda a vida, decidiram utilizar a intuição e a observação, aliados à dedicação e amor pelo filho, trabalhando brincadeiras e atividades com ele durante muitas horas diárias e praticamente todos os dias da semana. De autista grave, Raun, por volta dos 7 anos, já frequentava escola regular e não possuía qualquer traço de comportamento autístico. Hoje, com mais de 40 anos, é biomédico e um dos diretores do Autism Treatment Center, nos EUA, que baseado na experiência dos Kaufmann e em muitas outras posteriores, fazem um trabalho espetacular de melhoria no mais das vezes significativa das pessoas e crianças com autismo. Raun dá palestras sobre o tema no mundo inteiro atualmente, sendo uma prova viva de que nada nessa vida é definitivo. O filme é belo e emocionante.
 
- O último samurai
Esse filme é uma bela surpresa. Quando se observa a sinopse e o fato de ser protagonizado por Tom Cruise, parece até algo do hollywoodianismo clicherizado. Entretanto, assisti-lo revela exatamente o oposto. Trata-se de um mergulho profundo no Japão da Era Meiji (século XIX) e nos últimos momentos de força da classe samurai como instituição política e militar. Mais que isso, o filme retrata a filosofia de vida dos samurais e o seu código de honra, o bushido (Caminho do Guerreiro), com seus aspectos materiais e espirituais, por vezes paradoxais para nossos olhares ocidentais. É a estória de Nathan Algren, Capitão do Exército dos EUA interpretado por Cruise, que, atormentado pelas lembranças dos massacres dos índios daquele país, vai ao Japão, contratado para treinar os novos soldados do Exército Imperial para combater um exército de samurais rebeldes. Em batalha contra estes, termina se tornando prisioneiro deles e conhece o seu líder, Katsumoto Moritsugu, interpretado pelo excelente ator japonês Ken Watanabe. Termina por se tornar amigo deste e se une aos seus rebeldes, assimilando em grande medida a filosofia samurai e o bushido. As cenas de batalhas são memoráveis, mostrando em detalhes as estratégias militares e as lutas com base nas artes marciais japonesas. O final, historicamente incorreto, estraga um pouco, mas o enredo ao longo do filme é tão bom que torna perdoável essa opção. É obra de ficção e o Capitão norte-americano não existiu, mas Katsumoto é baseado em Takamori Saigo, General que de fato se rebelou contra as forças imperiais e liderou um último exército de samurais que pretendiam defender a sua honra guerreira até a morte, com suas espadas em punho. Provavelmente o melhor filme sobre samurais já realizado.

 

domingo, 21 de abril de 2013

Carandiru: condenação de PMs é um golpe nas heranças da ditadura

O texto abaixo é de Leonardo Sakamoto, extraído do Blog do Sakamoto: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/04/21/carandiru-condenacao-de-pms-e-um-golpe-nas-herancas-da-ditadura/. Reflete em linhas gerais o que penso. E a imagem chocante é o retrato nu e cru de um massacre que parte da sociedade brasileira em sua "desumanidade básica" se sente "aliviada". 111 mortos de um lado, nenhum do outro... Só por esses números já se responde por que este é um dos casos mais escandalosos de violência policial no mundo, agravado por ter-se que esperar mais de 20 anos para que os seus perpetradores sejam julgados em primeira instância (ainda cabem vários recursos, portanto).

"O júri condenou, na madrugada deste domingo (21), 23 dos 26 policiais militares acusados pela morte de 13 detentos (eram 15, mas o Ministério Público retirou dois casos), durante  o Massacre do Carandiru, em outubro de 1992. As penas são de 156 anos em regime fechado. Outros 53 policiais ainda devem ser julgados até o final do ano.
 
É uma decisão de primeira instância e, a ela, cabe recurso. Mas a turminha da escola de samba “Unidos da Lei de Talião”, que canta o lema “olho por olho, dente por dente”, desde que o mundo é mundo, vai ter que engolir o recado: funcionários públicos não possuem o direito de executar sumariamente alguém e ignorar que a pena de morte inexiste no Brasil. Pelo menos, não em tese.
 
E, se assim fizerem, serão condenados por isso. Pelo menor, por agora. Carandiru não é Raccon City e o Coronel Ubiratan Guimarães (que a terra lhe seja leve) não é Mila Jovovich. Não importa quem, não importa onde, não importa que o Datena diga que não, todos têm direitos. De um julgamento justo, de poderem cumprir sua pena, de serem reintegrados à sociedade sem o risco de um massacre no meio do caminho.
 
Contudo, estamos falando do estranho sistema judicial paulista, que mantém perigosas senhoras presas por conta do roubo de um xampu, e, por isso, tudo pode acontecer daqui para frente. Vale lembrar que o povo de São Paulo, em 2001, condenou Ubiratan, o comandante da operação no Carandiru, a 632 de prisão. Mas nosso amado Tribunal de Justiça aceitou um recurso, cinco anos mais tarde, e o absolveu. A defesa de Ubiratan afirmou que ele estaria agindo no “estrito cumprimento do dever” quando ordenou a invasão do Pavilhão 9 da Casa de Detenção – a mesma justificativa dos réus de agora. Seu chefe, Luiz Antônio Fleury Filho, então governador do Estado de São Paulo, não foi envolvido como réu no caso. Pelo contrario, acabou arrolado como testemunha de defesa. Fascinante.
 
A justificativa dada após a sentença pela advogada de defesa Ieda Ribeiro de Souza é de uma sinceridade contundente: “Não é essa a vontade da sociedade brasileira”. E não é mesmo. A massa, não raro, opta pela saída mais fácil, é manipulável, tem medo de tudo. O indivíduo, ele sim, é mais racional. Mas se Justiça fosse pesquisa de opinião, era só acionar o Datafolha e o Ibope e deixar a massa se manifestar antes do martelinho do juiz gongar a mesa.
 
Como já disse antes, o que ocorreu naquele 2 de outubro de 1992 foi um servicinho sujo que parte de nós, paulistas, desejava (e ainda deseja) em seus sonhos mais íntimos: que bandido esteja morto. A sociedade demorou para julgar esse caso porque não suportava um espelho no banco dos réus. Muitos dos presos perderam a vida por conta de uma irracionalidade coletiva pois, para muita gente, essas limpezas sumárias são lindas, sejam feitam pelas mãos da população, sejam pelas do próprio Estado, ao caçar traficantes em morros cariocas ou na periferia da capital paulista. Se com o devido processo legal, inocentes amargam anos de cadeia devido a erros, imagine sem ele.
 
Momentos como o julgamento que se encerrou nesta madrugada são importantes para que a sociedade consiga saldar as contas com seu passado, revelando-o, discutindo-o, entendendo-o. Para evitar que ele aconteça de novo.
 
Mais do que um país sem memória e com pouca Justiça, temos diante de nós um Brasil conivente com a violência como principal instrumento de ação policial. E uma coisa está diretamente relacionada a outra. Durante os anos de chumbo, o regime dos verde-oliva cometeram crimes contra a humanidade – que a esvaziada Comissão da Verdade, criada pelo governo Dilma, está agora remexendo para tentar restabelecer o que realmente ocorreu naquele tempo. Vai ter algum efeito, mas não conseguirá ir a fundo, como deveria. E não foi organizada para punir e sim para resgatar os fatos. Punições que seriam didáticas para o país.
 
Não estou esquecendo que existe uma Lei da Anistia, que está em vigor, e que o Supremo Tribunal Federal (infelizmente) decidiu por mantê-la quando questionado pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos. A discussão aqui não é legal, ou seja, não é um debate sobre a mudança da lei e sim sobre a percepção coletiva sobre a impunidade de um Estado que serve a si mesmo e a grupos sociais que o controlam.
 
Ao contrário de outros países, como a Argentina (eles têm Messi, eles têm o papa, eles quitam melhor as contas com o passado…), o Brasil não conseguiu tratar suas feridas para que cicatrizassem. Apenas as tapou com a cordialidade que nos é peculiar, o bom e velho, deixa-pra-lá, em nome de um suposto equilíbrio e da governabilidade. Dessa forma, o Estado não deixou claro aos seus quadros que usar da violência, torturar e matar não são coisas aceitáveis. E com a anuência da Justiça que, através do seu silêncio, manteve aqueles crimes impunes. E, ei, para o pessoal que só aciona o seu Tico-e-Teco bissextamente: estou falando de violência de quem deve zelar pela integridade da população.
 
Enquanto não acertarmos as contas com o nosso passado, não teremos capacidade de entender qual foi a herança deixada por ele – na qual estamos afundados até o pescoço e nos define. Foram-se as garrafas, ficaram-se os rótulos. A ditadura se foi, sua influência permanece. Não somos um país que respeita os direitos humanos e não há perspectivas para que isso passe a acontecer pois, acima de tudo, falta entendimento e, consequentemente, apoio, da própria população.
 
O impacto desse não-apoio se faz sentir no dia-a-dia dos distritos policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes cidades, nos grotões da zona rural, em presídios, com o Estado aterrorizando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). A ponto de ser banalizada em filmes como Tropa de Elite, em que parte de nós torceu para os mocinhos que usavam o mesmo tipo de método dos bandidos no afã de arrancar a “verdade”.
 
A justificativa é a mesma usada nos anos de chumbo brasileiros ou nas prisões no Iraque e em Guantánamo, em Cuba: estamos em guerra. Guerra contra a violência, guerra contra as drogas, guerra contra inimigos externos. Ninguém explicou, contudo que essa guerra é contra os valores que nos fazem humanos e que, a cada batalha, vamos deixando um pouco para trás.
 
Não é de estranhar que boa parte da sociedade que grita que “bandido bom é bandido morto” também esteja entre os 93% de paulistanos que concorda com a redução da maioridade penal para os 16 anos e fique radiante com as ações truculentas da polícia militar na Cracolândia do Centro de São Paulo. São as mesmas pessoas que, no fundo, pensam “Bem feito!” ao lembrar dos 19 sem-terra mortos na Chacina de Eldorado dos Carajás, no Pará, que completou 17 anos no ultimo dia 17.
 
Não querem discutir (atenção, discutir, não empurrar goela abaixo) propostas para garantir direitos pela mesma razão que não se importam se alguma pessoa foi tratada de forma injusta por forças de segurança do Estado. São seguidores da doutrina: “se você apanhou da polícia é porque alguma culpa tem”. E se não se importam com inocentes, imagine então com quem é culpado. Para eles, é pena de morte e depois derrubar a casa e salgar o terreno onde a pessoa nasceu, além de esterilizar a mãe para que não gere outro meliante.
 
Enfim, não estou falando de qualquer espelho que deveria estar no banco dos réus. A verdade é que não queremos olhar para um retrovisor por ele mostrar nossa cara hoje, mas também por nos lembrar que , apesar de um longo caminho percorrido, temos a mesma cara do passado que, só em tese, deixamos para trás."

Livros e filmes indispensáveis - parte VII

Mais uma lista, esta de filmes que considero que todos precisam ver antes de morrer. Não há necessidade de justificativas para ver tais obras-primas.


NÃO SE PODE MORRER SEM VÊ-LOS

- A queda (as últimas horas de Hitler).

Um filme duro e incômodo sobre o nazismo, com o olhar focado nos últimos dias e horas do seu líder maior, Adolf Hitler. É crítico, mas de uma maneira completamente diferente da esmagadora maioria. Enquanto boa parte dos filmes sobre nazismo mostram uma luta do bem absoluto contra o mal absoluto, retratando Hitler como uma simples “besta fera”, este mostra o genocida nazista como alguém assustadoramente normal e humano. É fácil imaginar que ele seria a encarnação do diabo, mas é difícil vê-lo como um de nós. Não obstante sua perversidade insana, é capaz de cativar e seduzir pessoas e convencê-las de seu ideário, sendo doce e cortês quando necessário. Um fato terrível como o Holocausto é algo mais do que a simplista luta bem x mal e é isso o que há de mais perturbador nesse grande filme alemão de 2004, dirigido por Oliver Hirschbiegel, com soberba interpretação do ator suíço Bruno Ganz como Hitler.

 - Adeus Lênin.

Diferentemente da “Queda”, esse filme, também alemão, é lúdico, singelo e divertido, embora faça eventuais concessões à melancolia. Mostra as desventuras de Alex, jovem alemão oriental de Berlin, entre os meses que antecedem à outra queda, a do Muro que dividia a cidade, o país e o mundo, e o imediato pós-queda, início dos anos 90. Ocorre que a mãe dele, uma socialista convicta e leal à República Democrática Alemã teve um ataque cardíaco dois meses antes do novembro de 1989 e acordou do coma meses depois, sem saber da queda do Muro e sem poder sentir emoções fortes, pois não resistiria a um segundo infarto. Desesperado com a situação, mas com uma aguçadíssima criatividade, o imenso amor de Alex pela mãe o faz recriar a Alemanha Oriental em seu minúsculo apartamento, contando, como diz o slogan, “a melhor mentira da história”. A parte da Coca-Cola como criação do Estado socialista é simplesmente genial. Um dos melhores filmes da década passada (2003), com carismática interpretação do protagonista por Daniel Brühl e muito bem dirigido por Wolfgang Becker.

- Decálogo (os 10 médias-metragem).
Sobre ele(s) escrevi posts específicos. Seguem os links: http://direitoecultura.blogspot.com.br/2013/01/kieslowski-e-o-decalogo-como-se-faz.html; http://direitoecultura.blogspot.com.br/2013/01/decalogo-de-kieslowski-i-v.html; http://direitoecultura.blogspot.com.br/2013/01/decalogo-de-kieslowski-vi-x.html.

 
- Doutor Jivago


 - O poderoso chefão (os 3)

A saga da Família Corleone, desde a fuga do velho Don, ainda criança no início do século XX, da Itália aos EUA, até os meandros da sucessão papal e ápice financeiro do conglomerado mafioso, no final dos anos 70, trata-se de 3 filmes magníficos que mostram muito sobre o século passado em muitas variáveis. O primeiro e o segundo filmes da trilogia são extraordinários e praticamente se equiparam em termos de qualidade. Sinceramente não consigo me decidir em relação a qual dos dois é o melhor: o primeiro, de 1972, com a antológica interpretação de Marlon Brando e a estreia de Al Pacino para o grande público, todo ambientado no apogeu e sucessão do velho Don; ou o segundo, de 1974, com duas estórias paralelas, a do Don criança e jovem, na imigração italiana e estabelecimento de seu poder inicial nos EUA, e a da continuidade da Família sob a autoridade de Michael Corleone e sua escalada implacável ao poder quase sem limites. O terceiro é também um grande filme, mas quando comparado com os anteriores, de fato, é inferior. Feito em 1990, muitos anos após os primeiros, parece ter “esfriado”, mas ainda assim é excelente, explorando as ligações mafiosas com o mundo empresarial e até mesmo com a Santa Sé. Com esses 3 imperdíveis filmes, Francis Ford Coppola escreveu definitivamente seu nome no altar dos melhores diretores de cinema de todos os tempos.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Livros e filmes indispensáveis - parte VI

Dando continuidade às minhas listas top 5 de livros e filmes, segue a dos filmes que denomino de "não jurídicos para o direito". São os que, embora não tenham a temática jurídica como o centro das atenções, perpassam-na de algum modo através do enredo, bem como as reflexões políticas, sociais e filosóficas presentes são normalmente imprescindíveis aos juristas e aos que desejam uma compreensão mais ampla do direito.

 
NÃO JURÍDICOS PARA O DIREITO 
 

- Danton, o processo da revolução.

Bastante fidedigno historicamente, esse brilhante filme do polonês Andrzej Wajda, feito em 1983, explora as grandes contradições da Revolução Francesa, no período do Terror, 4 anos após sua eclosão. Através de dois dos seus principais protagonistas, Danton e Robespierre, os acontecimentos do período são retratados de forma bem menos glamourosa do que se espera de ideais como a tríade liberdade/igualdade/fraternidade. A cena da recitação dos artigos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão pelo irmão da governanta de Robespierre é antológica e genial, logo após a execução de companheiros revolucionários condenados por tribunal de exceção. O grande ator francês Gérard Depardieu interpreta um Danton arrogante e narcisista, que se perde completamente em sua autoconfiança. Wojciech Pszoniak faz um Robespierre vacilante e contraditório como a Revolução. Os dois atores são excelentes, tais como a película.

 
- Laranja mecânica.

Bombástico, alucinante, violento e arrebatador, para dizer o mínimo. Esse filme é um tapa na cara das nossas “zonas de conforto”. Adaptado do livro de Anthony Burgess, mas bem superior a ele, é a estória do jovem delinquente Alex, em assustadoramente competente interpretação de Malcolm McDowell, que se divertia com o cometimento de delitos e a prática de estupros e ultraviolência, além de ouvir Beethoven. Uma vez condenado, passa por um processo de “reeducação” para ser um “cidadão de bem”, ocasião em que é submetido a um tratamento de choque com alta tecnologia. Os desdobramentos são surpreendentes e o filme permite o debate de temas como a delinquência juvenil, o ímpeto para o comportamento criminoso e sociopata, a autonomia individual, e, o mais importante, o caráter potencialmente totalitário de políticas estatais de controle das massas e de criminalização da política. Tudo isso no grande filme de Stanley Kubrick que, não obstante ser de 1971, ainda consegue chocar com suas imagens e percepções.

 
- Mar adentro.

Esse belo filme espanhol de 2004 põe em discussão um direito fundamental e os dramas pertinentes: o direito à vida significa também o direito de morrer? Ramón Sampedro, numa grande interpretação de Javier Bardem, torna-se tetraplégico após um acidente e mais de 20 anos depois deste, luta nos tribunais pelo direito de por fim à própria vida. Lúcido e consciente, as discussões inteligentes e eivadas de paixão humana puxadas por ele incomodam também sua família e a Igreja, bem como a sociedade espanhola em geral. Um debate fundamental sobre eutanásia, dignidade e direitos humanos. Excelente direção de Alejandro Amenábar e muito melhor que “Menina de Ouro”, que aborda a mesma temática.

 
- Os miseráveis.

O fantástico conto de Victor Hugo nunca foi tão bem retratado quanto neste filme de Bille August, rodado em 1998. Há várias versões do clássico, mas essa é a melhor de todas em minha opinião. Liam Neeson como Jean Valjean e Geoffrey Rush como o Inspetor Javert fazem interpretações intensas e memoráveis. Valjean é um dos muitos ladrões-vítimas de condições sociais adversas de um liberal-capitalismo economicamente excludente que trata a fome como caso de polícia. Sua transformação ao conhecer a piedade, a generosidade e o perdão em sua vida o faz um homem mais humano, construindo uma vida nova, ameaçada, contudo, pelo insano legalismo de Javert, para quem alguém condenado sempre será um criminoso. Persegue implacavelmente Valjean em uma França acometida por ventos revolucionários no século XIX. Um drama humano e social explorado com magníficas imagens e interpretações.

 
- Sunshine – o despertar de um século.

O mestre húngaro Isztván Szabo filma aqui a saga de uma família judia de seu país natal em três momentos cruciais da história deste: o Império Austro-Húngaro, o regime antissemita simpático ao nazismo e o comunismo pós-2ª Guerra. É o melhor trabalho de Ralph Fiennes, que interpreta pai, filho e neto em cada uma das fases do enredo: é Ignatz, um juiz probo e íntegro durante o Império Austro-Húngaro que, por sua grande admiração pelo Imperador, entra em conflito com o irmão Gustav, médico e revolucionário comunista; na fase seguinte, é Adam, um esgrimista campeão olímpico que, mesmo sendo um "herói nacional", não consegue escapar dos horrores do Holocausto na Hungria, tal como sua família, amplamente atingida; na terceira e última, é Ivan, sobrevivente do Holocausto e membro da polícia política comunista que, posteriormente, também passa de algoz a vítima do autoritarismo do regime que defende, causando uma reviravolta em seu pensamento e ação. Um maravilhoso épico sobre antissemitismo e autoritarismo que ainda conta com a participação de Rachel Weisz e William Hurt no elenco de estrelas. A trilha sonora é maravilhosa e as belas imagens de Budapeste me dão vontade de voltar a essa inesquecível cidade.

sábado, 13 de abril de 2013

Livros e filmes indispensáveis - parte V

Passadas as emoções da Semana Internacional do Autismo e das eleições para a Coordenação de Curso da Faculdade de Direito do Recife, na qual a comunidade acadêmica me honrou com a eleição para Vice-Coordenador, volto à tona com os livros e filmes indispensáveis, agora com os filmes que aqui classifico como "jurídicos". Tal classificação significa apenas e tão somente que nesses filmes a temática do direito ocupa atenção central no enredo da história/estória contada. Central, mas não exclusiva. Aí vai minha lista top 5.
 
JURÍDICOS
- Advogado do diabo
Apesar de ambientado no mundo jurídico, o filme possui um espectro bem mais amplo, pois o que ele aborda pode ocorrer em qualquer campo profissional. A desenfreada ganância, a vaidade exacerbada e a sede de dinheiro e poder guiam um competente advogado a caminhos éticos duvidosos e causadores de derrotas morais e pessoais insuportáveis, apesar do grande sucesso social, financeiro e profissional diante do “grande público”. Uma estória bem articulada expondo os enormes custos do sucesso a qualquer preço, custos estes que muitas vezes não aparecem para a sociedade em geral, que só enxerga o glamour e a aparência. Filme de 1997 com um elenco de primeira grandeza: Al Pacino, Keanu Reeves, Charlize Theron, dentre outros.
- Em nome do pai
Baseado na história real de Gerry Conlon, irlandês condenado por atentado terrorista cometido por outrem na Inglaterra dos anos 70, o filme tem por pano de fundo a questão nacional da Irlanda do Norte e termina por adentrar os meandros do sistema jurídico criminal britânico em um dos mais escandalosos casos da história judiciária daquele País, mostrando como a manutenção do poder e a sanha de dar "respostas" à "opinião pública" pode levar ao cometimento deliberado de graves injustiças. O magnífico Daniel Day Lewis, aqui ainda jovem, faz um Gerry Conlon convincente e intenso, e a igualmente soberba Emma Thompson interpreta Gareth Peirce, advogada exemplar no seu ofício, dessas que orgulha todo e qualquer causídico digno de sua profissão. O filme é de 1993 e dirigido por Jim Sheridan.
- Glória feita de sangue.
Sobre este grande filme de meu Diretor predileto (Stanley Kubrick), fiz um post específico e publiquei aqui mesmo no blog em 2008. Link: http://direitoecultura.blogspot.com.br/2008/06/stanley-kubrick-vi-glria-feita-de.html.
 - Julgamento em Nuremberg.
Não confundir com “O Julgamento de Nuremberg”, de 2000, estrelado por Alec Baldwin e Brian Cox. Este é de 1961, em preto e branco, e muito melhor do que o mais novo. A própria história é diferente, pois trata não do grande julgamento que envolveu os 22 principais líderes nazistas, mas de um julgamento em 1948 na Alemanha ocupada, que envolveu agentes do médio escalão nazista, incluindo um juiz, Ernst Janning, jurista respeitado antes do advento do nazismo e que circunstancialmente emprestou sua respeitabilidade à legalização de atrocidades do regime. Os dilemas da justiça de transição da época, as pressões por uma distensão, as situações paradoxais de cumprimento da lei e de ordens, contrastando com os aspectos desumanos do regime, tudo isso é abordado de forma equilibrada e sem maniqueísmos, o que torna o filme uma fonte muito rica de discussões. Dirigido por Stanley Kramer, tem no elenco estrelas como Burt Lancaster, Spencer Tracy, Marlene Dietrich e o então jovem Maximilian Schell.
- O povo contra Larry Flynt.
Acho esse filme sensacional sobre a vida do indefectível, polêmico, heterodoxo e desconstrutivo Larry Flynt, dono da Revista Hustler, a principal concorrente da Playboy. Flynt vive envolvido em contendas judiciais em razão de seus trabalhos, acionado o tempo todo por promotores moralistas e religiosos fundamentalistas, escandalizados com seus comportamentos pouco ortodoxos. É um permanente desafiador do hipócrita moralismo norte-americano e se torna involuntariamente um baluarte da liberdade de expressão. Interpretado magistralmente por Woody Harrelson, Flynt (o verdadeiro) até faz uma ponta no filme, como o primeiro juiz que o condena a uma pena de crassa desproporcionalidade. O elenco ainda tem Courtney Love e Edward Norton, nessa produção de 1996, assinada pelo grande diretor tcheco Milos Forman.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A mais linda homenagem de uma amiga - "O castelo azul do Heitor"


Minha querida amiga Larissa Leal, que, além de grande Professora de Direito Civil e Advogada, é um ser humano extraordinário, mostra sua ímpar sensibilidade e habilidade com as palavras, me dedicando e à minha família essa linda homenagem abaixo, justamente na Semana Mundial de Conscientização do Autismo.
 
Não preciso dizer que derramo lágrimas de emoção todas as vezes que releio essas palavras tão lindas, exatamente como ocorre agora.
 
Obrigado, querida. Um grande beijo azul de todos nós.
 
“O CASTELO AZUL DO HEITOR
- Por que o céu é azul?
- Eita, essa é difícil: é porque o sol tem tanta luz que nele cabem todas as cores. Elas estão sempre correndo em linha reta, tentando pintar o céu. Mas o azul é a cor mais rápida, faz um caminho mais comprido. Então, chega antes e pinta o céu inteiro.
- E o vermelho e o laranja?
- Essas são cores mais lentas. Demoram! Mas de tardinha, quando chegam, o azul as deixa pintarem um pouquinho o céu.
- E por que o mar é azul se a á...gua é transparente?
- Agora essa ficou fácil. Lembra das cores que correm? Elas também correm dentro do mar até o fundo...de novo, o azul é mais forte e rápido. É o primeiro e às vezes o único que vai até o fundo; quando chega lá, pinta a areia de azul. Às vezes fica meio verde (antes que me pergunte isso), mas é quase sempre azul. Pronto chegamos!
- Nossa, é um castelo?
- Não...quer dizer, é um palácio...então, é quase como se fosse um castelo.
- Por que esse castelo é azul?
- Porque nesse castelo habita um casal, pais de dois lindos príncipes: o Heitor e o Nicolas. Hoje é um dia especial porque é um dia dedicado ao Heitor.
- Por que?
Nesse momento, grita, de longe um tolo, enquanto passava perto:
- Que nada! Isso aqui não é um castelo, ninguém mora aí e essas paredes são beges. O que você vê é apenas uma luz azul virada para a parede!
- É verdade? É apenas uma luz azul virada para a parede?
- Sim, é verdade. Mas essa luz virada para a parede é a mesma que corre e pinta o céu e o mar de azul.
- Ninguém mora nesse Palácio?
- Morar, não mora. Mas é a casa de muitas pessoas.
E antes que o choro decepcionado encerasse a conversa, me apressei:
- Há pessoas que não conseguem ver magia em nada. Vivem num mundo sem aventura, nem sonho, nem cor. Mas eu espero que você faça diferente. Essa luz azul está aí, de verdade, para nos lembrar que precisamos conhecer melhor todas as pessoas. E quanto ao Príncipe Heitor, em dias azuis, como hoje, ele sai para passear com seu pai. Venha cá, preste atenção: daqui a pouco, você verá....veja, são os dois, a cavalo, em um dia azul!”

Heitor tem autismo e hoje uma bela luz azul foi colocada na fachada do prédio da Faculdade de Direito do Recife, onde seu pai,
Bruno Galindo trabalha. Também hoje, tenho quase certeza, tive esse diálogo improvável diante de um prédio cor de areia pintada de azul.
Para nós, que habitamos nessa casa, bastou uma única lâmpada azul para reunir a todos, feito mágica, em uma causa que, se é de Heitor, se é de Bruno, também é nossa. Quando eu estava saindo, ouvi um "potoc, potoc, potoc"...acho que eram cavalos...

Para Heitor, Nicolas, Ana e Bruno, com amor."