terça-feira, 10 de setembro de 2013

O fascismo nosso de cada dia (ou de como tentar usar as “armas da ternura” contra a intolerância e o fanatismo)


Para se criticar alguém em virtude de suas posturas autoritárias, o termo “fascista” é muito usual. Em termos históricos, o fascismo está associado principalmente ao movimento nacionalista italiano liderado por Benito Mussolini a partir dos anos 20 do século passado, mas há uma variedade muito grande de fascismos, sendo o italiano apenas um deles. O nazismo alemão pode ser considerado como tal, bem como, em alguma medida, parte das ditaduras latino-americanas das décadas de 60 a 80 passadas, não obstante as grandes diferenças entre elas, notadamente no caráter racista e totalitário do primeiro e na perspectiva ditatorial simplista das últimas, em que pesem os aspectos de cesarismo estarem presentes em algumas delas, a exemplo da chilena, com certo “culto à personalidade” do Gal. Augusto Pinochet. O jurista e cientista político alemão Franz Neumann, em sua obra “Estado democrático e Estado autoritário” trabalha essas diferenciações acerca da natureza dos regimes autoritários, classificados por ele como simples, cesaristas e totalitários. Estes últimos também são trabalhados por grandes nomes da filosofia política do século XX, como Hannah Arendt (“Origens do totalitarismo”) e Karl Popper (“A sociedade aberta e seus inimigos”), que tiveram a sagacidade de perceberem o quanto os extremos “se tocam”: não obstante o discurso ferrenhamente anticomunista do fascismo e o discurso antifascista igualmente extremado do comunismo (basta lembrarmos a antiga Alemanha Oriental e a sua "Barreira de Proteção Antifascista", nome oficial dado por ela ao Muro de Berlin), experiências como o nazismo alemão, o fascismo italiano e o comunismo stalinista soviético possuem muitos pontos em comum. Muito embora os dois primeiros estejam normalmente associados ao espectro político-ideológico dito de direita e o terceiro à esquerda, comungam de práticas de intolerância à diversidade de ideias e pensamentos, de truculência com a qual tratam os seus oponentes e possuem dentre seus entusiastas, defensores fanáticos, prontos às tentativas de aniquilação do inimigo “comunista” ou “burguês-capitalista” e de suas liberdades. Embora o fascismo histórico seja associado à direita, há posturas fascistas em regimes políticos nos dois extremos do espectro ideológico, sendo intelectualmente honesto reconhecer que o fascismo italiano pode ter mais a ver, em termos concretos, com o stalinismo do que com a direita liberal clássica, assim como é possível vislumbrar mais semelhanças em termos de prática autoritária entre o comunismo cubano e o pinochetismo chileno do que entre o primeiro e os governos liderados pela esquerda socialdemocrata e defensora do welfare state.

Em verdade, as atitudes fascistas estão presentes no nosso dia-a-dia, de modo sub-reptício e muito mais do geralmente pensamos. É necessário lembrarmos que um sistema opressivo é feito de homens e mulheres que, de algum modo, por ação ou omissão, aderem a ele. Não se faz fascismo sem fascistas. E esses podem até mesmo terem um discurso de defesa da democracia liberal ou participativa, falarem a favor da família, de Deus ou do proletariado, e ainda assim o serem. Como identificá-los? Talvez não seja tão difícil assim, mas é preciso traçar análises para além do discurso ostensivo (embora esse também possa dizer muito); é necessário observar suas atitudes de maior ou menor tolerância concreta ao pensamento contrário, bem como o grau de respeitabilidade em relação ao outro e às suas ideias. Se a pessoa é destrutiva e truculenta, querendo simplesmente aniquilar ou humilhar aquele que não concorda com suas ideias, se alimenta o discurso do ódio e da intolerância, se afirma que seus contrários são necessariamente idiotas, bandidos, canalhas, vigaristas etc., ou seja, se falta o respeito e a tolerância ao que o outro tem a dizer, estamos claramente diante de um potencial fascista, não importa o seu discurso ideológico liberal, socialista ou conservador, ou se diz defender os trabalhadores, a Igreja ou a família.

Neste fim de semana, pude perceber que há uma quantidade significativa de potenciais fascistas no Brasil. Involuntariamente, protagonizei um episódio no qual me vi repentinamente achincalhado por neofascistas facebookianos: no Grupo de discussões da Faculdade de Direito do Recife, onde tenho a honra de lecionar, um aluno postou um texto e, quando o li, resolvi fazer breves comentários em tom irônico (para alguns, sarcástico, para outros, caricatural) à ideia do texto, exposta por um astrólogo e pseudofilósofo (e falo assim por que considero realmente um filósofo aquele que possui a postura de “amizade" com a "sabedoria” – philos + sophia, e não o filósofo formal diplomado, por mais erudito que possa ser) por considerá-la estapafúrdia. O meu comentário expunha um raciocínio evidentemente absurdo, mas como uma consequência plausível da ideia defendida pelo autor. Apenas a título de facilitar o entendimento dos leitores, é preciso dizer que o referido autor, não obstante ser um sujeito erudito e perspicaz, tornou-se uma espécie de Jair Bolsonaro intelectualizado e assumiu como profissão de fé um discurso ferrenhamente anticomunista, desses que vê um comunista em cada esquina e pratica um patrulhamento do discurso político, jornalístico e filosófico em geral para descobrir “inclinações comunistas” em cada linha escrita pelos não anticomunistas. Para esse autor, a ideia de uma velada megaconspiração comunista mundial parece ter se tornado uma espécie de leito de Procusto: se a realidade não corresponder à ideia, dane-se a realidade. Estique-se ou corte-se para se adequar ao leito da metáfora. Uma paranoia que lembra em alguns momentos certo "Protocolo dos Sábios de Sião"...

Sinceramente, assustei-me como palavras despretensiosas, ditas em tom jocoso, foram entendidas de modo praticamente literal e enfureceram o dito astrólogo e um séquito de pessoas que parece vê-lo como uma espécie de infalível guru, tudo por que o mesmo aluno que postou o texto propôs um debate entre nós, ainda que fartamente desaconselhado por mim, pois já conhecia a fama do autor do texto de ter estilo arrogante e destrutivo. O aluno afirmou que eu teria que “desmascarar” o autor, que era quase uma "obrigação" minha, mas eu disse imediatamente que não o considerava, nem considero, um farsante, apenas arrogante em seu modo de se expressar. Talvez minha resposta ao aluno tenha sido um tanto áspera e excessivamente direta, mas, tirando o fato de que momentaneamente eu deixei de lado o tom mais ameno e ponderado das críticas que normalmente faço, o referido autor afirma em seu próprio site que seus discípulos devem comprar seus livros para espalhar suas ideias e “enfurecer” os “pentelhos, imbecis e puxa-sacos”. Uma afirmação desta traduz algum sinal de humildade? Alguma disposição a uma troca de ideias? Ou configura um visceral autoritarismo do tipo “se não é por mim, é contra mim” ou “se não aceita minhas ideias, é um idiota”? Disse ao aluno que debateria com qualquer pessoa de qualquer coloração ideológica, política, religiosa etc., desde que em termos respeitosos e sem ofensas ou agressões, criticando-se as ideias, mas respeitando-se as pessoas. Entretanto, o aludido autor logo publicou em sua página do Facebook que eu era um imbecil (estendendo tal “crítica” à generalidade dos professores universitários e suas posturas “imbecilizantes”) e um palhaço (não obstante este último eu não considero ofensivo, pois ao menos lembra bom humor, e profissionalmente os mesmos divertem bastante crianças e adultos). Outro admirador confesso do dito mestre dos astros afirmou que eu era desonesto. Sem sequer saber quem eu sou ou me conhecer... Vê-se claramente o quanto realmente gostam do debate e de dialogar.

Mas o seu séquito de fundamentalistas quis ser “mais realista que o rei”. Proliferaram entre os neofascistas tupiniquins, quando comentaram a mensagem de seu guru, calorosos desejos que eu "tome no c.", que meu problema é "falta de r. até encostar no céu da boca", “que eu não valia um pum" (a palavra usada na verdade foi outra, de baixo calão, mas deixa para lá) e é claro que não faltaram nos comentários à mensagem facebookiana do astrólogo adjetivos “carinhosos” a meu respeito, tais como asno, zumbi semianalfabeto, nulidade, escritor de quinta categoria etc. Mas a mais hilária de todas foi essa pérola de bajulação explícita ao "guia genial", merecedora de citação literal: “É só mostrar o seu nome pra ele que ele irá se curvar diante de ti”. Foi quando saí da tristeza em face das agressões e ofensas pessoais e não me aguentei de tanto rir. Virou tragicomédia.

Como os argumentos dos talibãs tropicais, salvo raras exceções, são basicamente mandar “tomar no c.”, ou me agredir e ofender pessoalmente, ou bajular o pseudofilósofo, não respondi, não responderei, não comentarei esse ou qualquer outro texto de alguém tão pequeno como pessoa e com discípulos ainda menores, salvo raríssimas e honrosas exceções. Não adianta o que eu diga, consistente ou não, jamais será aceito por fascistas extremistas desse tipo. Tenho muitas coisas produtivas a fazer para dar importância a quem só quer impor autoritariamente suas opiniões, e já acho que perdi tempo demais escrevendo essas linhas, só o fazendo, no final das contas, para suscitar reflexões sobre o "fascismo nosso de cada dia".
Sobra arrogância, fanatismo e mau humor (curioso como intolerantes e autoritários são mal humorados). Falta amor, humildade, serenidade e bom humor, típico dos verdadeiros filósofos (amigos da sabedoria), independentemente de terem ou não diploma formal. Os neofascistas agridem, ofendem, gritam, mas não aguentam um milímetro de sarcasmo ou crítica.

Nesses dias, fiquei com enorme saudade de meu grande Professor Luis Alberto Warat – hoje já em outra dimensão, e esse sim um verdadeiro gênio, generoso, bem humorado e profundo -, esse grande filósofo e “jurista baiano” (não obstante argentino de nascimento) e suas diatribes de amor contra os filósofos (ou seriam astrólogos?) sentados, quando dizia, com seu vasto conhecimento filosófico, jurídico e psicanalítico, que é preciso usar as “armas da ternura” e da sensibilidade no direito. Também dizia, através das alegorias literárias de Jorge Amado e das categorias do candomblé afro-brasileiro, o quanto o direito e a filosofia precisavam ser “carnavalizados”, serem mais Vadinho e menos Teodoro (tive a honra de fazer-lhe uma singela homenagem quando de sua partida deste mundo em http://direitoecultura.blogspot.com.br/2010/12/warat-quando-genialidade-encontra.html).

Sua docilidade e humanidade, para além da erudição e verdadeira grandeza intelectual, fazem falta, amigo Warat! Muita falta!

Aos meus alunos e amigos, fica a lição de tolerância e respeito a partir de um contramodelo. Aos neofascistas seguidores do pseudofilósofo, apesar de tanto me ofenderem e vociferarem contra mim sem ao menos me conhecerem, não os odeio. Não por magnanimidade, confesso, mas talvez por puro egoísmo, concordando com outro argentino, o célebre escritor Jorge Luis Borges, que afirma em tom conselheiro que “Não odeies o teu inimigo, porque, se o fazes, és de algum modo o seu escravo. O teu ódio nunca será melhor do que a tua paz.”.
Que as armas da ternura vençam a intolerância e o fanatismo!

5 comentários:

Fydel Marcus disse...

Excelente texto, professor!

Fydel Marcus disse...

Excelente texto, professor!

Anônimo disse...

Sensacional!ideias bastante criativas! e atentas a tudo que ta acontecendo! valeu pelo pensamento!

Anônimo disse...

Com todo o respeito, esse texto é de uma imaturidade intelectual impressionante.

Acompanhei a controvérsia e não vejo como o senhor teria o direito de se sentir ofendido com a resposta de Olavo de Carvalho, dada a sua postura inicial. Não se pode começar tirando sarro das ideias de um altor e depois pedir "debate sério" sem que seja feito, no mínimo, um pedido de desculpas. Não precisa nada melodramático, só um "vejo que me excedi injustamente" mesmo.

A reação de Olavo, no caso, foi proporcional. Ele não é obrigado a tratar com polidez quem, no primeiro momento, começa fazendo pouco de suas ideias (pior ainda: atribuindo-lhe ideias que não são suas! Em nenhum momento Olavo diz que qualquer dos militares foi comunista!). O senhor o chamou de astrólogo, paranóico e distorceu as suas opiniões, ele o chamou de palhaço. C'est la vie: quem deu tem que aprender a levar.

E pior: o senhor, em vez de tirar satisfação com Olavo, tira com seus seguidores de Facebook, muitos dos quais não têm um centésimo do embasamento político-filosófico que têm o senhor ou Olavo de Carvalho. É fácil encontrar posts do calibre dos citados, quando literalmente centenas de pessoas comentam na página de Olavo todos os dias.

Não nos enganemos, Olavo xinga, e muito. Vai mandar gente tomar no c. sem nenhuma cerimônia. Pode ser até que ele exagere na reação (mas é muito diferente de Sartre, por exemplo, dizendo que todo anticomunista é um cão, literalmente desumanizando seus inimigos?).

Mas tomar a posição de superioridade moral numa situação como a descrita? Começar desdenhando abertamente da posição do outro, e chamá-lo de intolerante quando este revida alguém que claramente não quer nenhuma discussão séria com ele?

Bruno Galindo disse...

Caro Anônimo (o do 3º comentário)

Para fazer um comentário realmente plausível, seria recomendável prestar atenção em todo o texto, especialmente nessas partes:

"resolvi fazer breves comentários em tom irônico (para alguns, sarcástico, para outros, caricatural) à ideia do texto, exposta por um astrólogo e pseudofilósofo (e falo assim por que considero realmente um filósofo aquele que possui a postura de “amizade" com a "sabedoria” – philos + sophia, e não o filósofo formal diplomado, por mais erudito que possa ser) por considerá-la estapafúrdia. O meu comentário expunha um raciocínio evidentemente absurdo, mas como uma consequência plausível da ideia defendida pelo autor. Apenas a título de facilitar o entendimento dos leitores, é preciso dizer que o referido autor, não obstante ser um sujeito erudito e perspicaz, tornou-se uma espécie de Jair Bolsonaro intelectualizado e assumiu como profissão de fé um discurso ferrenhamente anticomunista, desses que vê um comunista em cada esquina e pratica um patrulhamento do discurso político, jornalístico e filosófico em geral para descobrir “inclinações comunistas” em cada linha escrita pelos não anticomunistas. Para esse autor, a ideia de uma velada megaconspiração comunista mundial parece ter se tornado uma espécie de leito de Procusto: se a realidade não corresponder à ideia, dane-se a realidade. Estique-se ou corte-se para se adequar ao leito da metáfora. Uma paranoia que lembra em alguns momentos certo "Protocolo dos Sábios de Sião"...

Sinceramente, assustei-me como palavras despretensiosas, ditas em tom jocoso, foram entendidas de modo praticamente literal".

Parece que do mesmo modo que ele e seu séquito, você também não entendeu o que eu quis dizer. Vamos ver de novo com um destaque maior para esta parte: "O meu comentário expunha um raciocínio evidentemente absurdo, mas como uma consequência plausível da ideia defendida pelo autor".

Dá para entender agora que quando eu supostamente afirmei que ele atribuíra aos presidentes militares a pecha de comunistas, eu o fiz de forma IRÔNICA e NÃO LITERAL? EU MESMO estou afirmando que o raciocínio é ABSURDO, fiz-me compreender agora?

Em segundo lugar, eu não o chamei de astrólogo, essa é uma de suas formações. E é astrólogo mesmo, não astrônomo.

Outra coisa: não pedi debate algum, meu único erro foi aceitar que o aluno que o propôs, o fizesse. Deveria ter percebido de cara que um sujeito que afirma que seus livros são para "enfurecer os imbecis, pentelhos e puxa-sacos" é alguém que não possui qualquer capacidade de diálogo, tal como os neofascistas em geral e tal como descrito no texto. Discussão séria com ele? Acaso é séria uma discussão em que um almeja somente a destruição do outro, partindo para baixarias e xingamentos? Deve estar de gozação, não?

Nisso é que fico sem entender o que o amigo entende por "imaturidade intelectual". O sr. astrólogo aí então deve ser um exemplo de maturidade, não? Se assim o é, me orgulho de minha imaturidade.

Curioso que esse sr. descreve idiota dessa forma: "Em grego, idios quer dizer 'o mesmo'. Idiotes, de onde veio o nosso termo 'idiota', é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez".

É incrível, parece que estava se olhando no espelho ou lendo seus próprios textos quando veio um breve momento de lucidez.