sábado, 21 de setembro de 2013

Dos 40 com amor

Ontem assisti “Para Roma, com amor”, mais um maravilhoso filme de Woody Allen. Leve e bem humorado, o filme me inspirou a escrever essa minha mensagem de aniversário a mim mesmo e a todos que me dão o privilégio de fazer parte de suas vidas de algum modo.

Hoje, 21 de setembro de 2013, completo 40 anos de existência em minha passagem por esse nosso pequeno planeta chamado Terra. Dentre agruras, dissabores, sofrimento e dificuldades muitas, chego a essa quarta década de vida com uma sensação de paz e imenso bem-estar, com um forte sentimento de valorização da vida, dessa passagem espiritual e material sobre a qual por vezes deixamos de refletir, ignorando o por quê de nossas ações e sentimentos e o que existe para além de nosso mundinho pessoal.
Chego aqui com imensa felicidade pela dádiva divina de ter vivido essas quatro décadas, de ter feito várias amizades valorosas, verdadeiras e duradouras, de ter propiciado boas coisas a vários de meus semelhantes, de ter retribuído em parte o muito que a vida me deu, com a serenidade de enxergar que, mesmo com tanto sofrimento em nossa volta, o quanto se pode ser feliz ainda assim, quando se busca fazer o bem e criar ciclos virtuosos, alcançando uma alentadora leveza de coração e de espírito. Sinto imensa gratidão por cada um que fez ou faz minha vida mais enriquecedora e interessante.

Nasci em 1973. Com o gosto que tenho por estudar e entender a política, não poderia esquecer que foi precisamente dez dias após um golpe de Estado que derrubou um Presidente democraticamente eleito em nosso vizinho Chile. Com o gosto que tenho pela poesia, não poderia esquecer que nasci dois dias antes da morte de um poeta chileno chamado Pablo Neruda, que, talvez não por acaso, é um de meus prediletos. O Brasil também vivia tempos politicamente difíceis, eram os “anos de chumbo”, do “cale-se” e do “chame o ladrão”. Liberdade como algo ainda a conquistar.
Nesse contexto, eu chegava ao mundo em pleno aniversário de minha mãe que, aos 21 anos, me recebeu com todo o amor que uma mãe pode dedicar a um filho, no caso ao seu primeiro. Ao contrário do que hoje ocorre, com obstetras programando nascimentos cirúrgicos ao sabor de conveniências próprias, nasci nesse dia por conspiração cármica ou providência divina, pois a bolsa de líquido amniótico rompeu precisamente na data. Minha querida vovó Didi, hoje já em outra dimensão, levou minha mãe à maternidade em Caruaru para receber seu também primeiro neto e o parto só foi cesariano por que fiquei com “preguiça” de virar na posição correta ao parto natural.

Como filho e neto (na família materna) primogênito, devo ter sido muito paparicado por tios e avós em uma família bem grande (tinha 5 tios paternos e 9 maternos, fora os avós), embora, por óbvio, nada lembro desse período. As primeiras lembranças remontam aos 4 ou 5 anos, das reuniões familiares na casa de minha avó matriarca à Praça Nova Euterpe, em Caruaru, da vida ainda pacata numa Recife provinciana, na pequena farmácia que meus pais abriam à Estrada do Arraial, tentando ganhar a vida e dar dignidade à família como microempresários.
Dois dias antes de completar 7 anos, nasceu meu irmão Romeu, até hoje grande amigo e parceiro, presente em tantos momentos, bons ou ruins, de alegria ou de sofrimento, mas presente. 20 anos depois, nasceu Vinícius, com nome de poeta e filho do segundo casamento de meu pai, completando a macharada (risos) de irmãos.

Moramos à Rua Sebastião Alves, no Bairro do Parnamirim, onde minha infância foi marcada por muitas amizades, brincadeiras, brigas e tudo o mais que poderia acontecer em uma rua que era repleta de crianças. Brincava de skate ou jogava futebol (no meu caso, muito mal) tanto quanto disputava campeonatos de Atari ou brincava com os bonecos do Falcon. Foi ali também que chorei copiosamente a derrota do Brasil para a Itália na Copa de 1982, não acreditando em minha mente de criança que aquele time mágico de Zico, Sócrates e cia. poderia perder.
Estudei no Instituto Pedro Augusto e depois no Colégio Damas, onde fiz amigos que preservo até hoje. Em minha adolescência, apaixonei-me muitas vezes, a maioria não correspondida, principalmente por minha excessiva timidez. Aprendi a amar música clássica quando assisti o filme “Amadeus”, de Milos Forman. Adorava também várias bandas que se consagraram à época, a exemplo do Iron Maiden, do Queen e dos Scorpions, do Legião Urbana e dos Titãs, bem como de outras mais antigas, como Led Zeppelin e Beatles, e ícones de nossa música, a exemplo dos eternos Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Raul Seixas e outros.

Na política, vibrei com a vitória de Tancredo Neves na eleição indireta e a redemocratização do Brasil, com a saída dos presidentes generais; chorei depois com sua (de Tancredo) morte  ao som de “Coração de estudante”, mágica na voz de Milton Nascimento, se tornando uma trilha sonora daquela comoção nacional. Comemorei muito as primeiras vitórias de um então iniciante piloto de Fórmula 1 chamado Ayrton Senna, que, mesmo nessa condição, mostrava determinação e coragem além do esperado e orgulhava um país com tantas dificuldades quando colocava a bandeira brasileira para fora do carro em suas vitórias, algumas delas espetaculares.
Ingressei no curso de Direito da Universidade Católica de Pernambuco em 1992. No ano em que o Brasil se mobilizou nas ruas para derrubar um Presidente comprovadamente corrupto, estive nas passeatas, pintei a minha cara, participei do movimento estudantil universitário e até candidato a Presidente do Diretório Acadêmico eu fui. A indignação com a situação de injustiça social no Brasil e no mundo e o contato com lideranças estudantis e populares de esquerda me fez comunista por um tempo, acreditando à época que a doutrina de Marx e Engels havia sido mal aplicada na União Soviética e em outros lugares e que seria possível construir o socialismo marxista com democracia.

Do fim de minha graduação em diante mudei minha percepção, vendo que o grande problema está no próprio ser humano e o sistema não é capaz de transformá-lo. Um sistema que busque um “novo homem” pode até piorá-lo, pois a imposição de um modelo ideal de ser humano é tirânica e ignora a maior riqueza que podemos ter como seres sociais que é a nossa diversidade. Revoluções armadas e violentas podem trazer ainda mais dor e sofrimento e criar tiranias ainda piores e mais opressoras que as que visam combater. Deixei de ser comunista, passando a ser um democrata e humanista radical (de raiz e não extremista), defensor intransigente do diálogo e da tolerância e não abrindo mão da democracia política e do Estado de direito por finalidades de justiça social. Essas são fundamentais, mas somente em sociedades abertas se tornam possíveis na prática. Prefiro um Nelson Mandela a um Fidel Castro.
Considero-me politicamente mais próximo hoje da esquerda socialdemocrata keynesiana, defensor do Estado de bem-estar social, bem como próximo de lutas sociais emancipatórias por igualdade de direitos e de oportunidades para segmentos vulneráveis em direitos, a exemplo das mulheres, dos negros, dos homossexuais, das pessoas com deficiência e de todos aqueles que precisem de dignidade e respeito por sua condição, podendo contar comigo como aliado. Sou pacifista, o que não quer dizer passividade. Luto pelo que acredito, hoje principalmente pelos direitos da pessoa com deficiência, usando as “armas da ternura” contra a incompreensão e o preconceito; não deixarei de combater o bom combate.

Voltando à história de vida, terminei a graduação em 1997, e fiquei à época com as dúvidas profissionais que afligiam e afligem a maioria dos jovens recém-formados em direito aos 23/24 anos: seguir na advocacia, fazer concurso para carreiras jurídicas públicas ou ingressar no mundo acadêmico? Ter sido aprovado no Exame de Seleção ao Mestrado da Universidade Federal de Pernambuco naquele mesmo ano dirimiu-as e optei pela vida acadêmica a partir de então, iniciando-me na prática de aulas e nos estudos e pesquisas para a construção de textos, artigos e teses científicas. Mestre em 1999, Doutor e Professor da UFRN em 2004, Professor da UFPB em 2005 e finalmente da UFPE a partir de 2006; esses fatos me ligaram à vida acadêmica até os dias atuais, não podendo deixar de lembrar a maravilhosa experiência de “doutorado sanduíche” na Universidade de Coimbra, em Portugal, marcante na minha formação de jurista e humanista, na profícua convivência com professores e intelectuais de várias partes do mundo. O que não impediu minha recente reaproximação com a advocacia, no Conselho Estadual da OAB/PE, na Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência e em outras questões pertinentes à classe ou à cidadania.
Todas essas experiências, para além do aspecto profissional, têm me proporcionado um grande aprendizado humano, com as tentativas que faço de aplicar em minha vida um pouco daquilo que creio serem máximas de um “bem viver” comigo mesmo e com meus semelhantes. E aí não dá para separar completamente a minha essência, como pessoa, daquilo que procuro ser como profissional.

No campo pessoal, ainda no período da faculdade, conheci em 1995 minha atual companheira e esposa, com a qual sou casado há 11 anos. Incansável guerreira na vida, amorosa e leal, com ela aprendi e aprendo muito todos os dias. Sou-lhe imensamente grato por tudo de maravilhoso que me proporcionou durante todos esses anos e, não obstante estarmos longe de perfeições e os momentos ruins existirem, esses seriam piores sem ela e os bons, sem ela talvez não fossem tanto assim...
Mas nada de mais maravilhoso ela poderia ter me dado do que meus dois filhos, tendo especialmente o primeiro mudado diuturnamente minha percepção da vida e do mundo.

Em 2007, nasceu Heitor, meu amado primogênito. Trouxe e traz muita alegria a essa família. Apesar de seu diagnóstico de autismo aos 2 anos e meio, é uma criança amorosa, afetiva e luta diariamente para superar suas próprias dificuldades. Nem sempre é fácil lidar com ele, é uma rotina extenuante buscar seu melhor desenvolvimento. Mas quanto ele tem me ensinado sobre paciência, fé e esperança... Quanto é valioso um olhar ou um sorriso dele para mim... Quanto é maravilhoso toda vez que ouço alguma palavra sair de sua boca ou o aprendizado de uma nova habilidade por ele... Quantas lições de respeito ao outro, meu príncipe guerreiro troiano tem me dado todos os dias... Acredito que Heitor tem me feito um ser humano melhor a cada dia...
Assim também ocorre com meu pequeno Nicolas. Nasceu em 2009 e hoje é fonte de gargalhadas e divertimento em nosso lar. Sagaz e bem humorado, sua compreensão das dificuldades do irmão é surpreendente para alguém de sua idade. Ouvi-lo dizer que me ama é a melhor coisa dessa vida. É incrível como o amor também pode ser ensinado e o seu cultivo diário traz um retorno em boas dádivas e fraterna convivência, por maiores que sejam as dificuldades materiais e o estresse cotidiano. Nicolas também é o que de melhor pode acontecer na vida de um pai.

A busca de respostas sinceras às muitas angústias existenciais e minha não conformidade com dogmatismos levou-me a uma aproximação com o budismo, religião que busco seguir desde 2010, não obstante ter tido contato com a mesma bem antes, com a prática de meditação zen e de artes marciais, especialmente o kenjutsu dos samurais japoneses e seus subjacentes ensinamentos sobre lealdade, coragem e compaixão. Antes de tudo, trata-se de filosofia de vida que implica permanente tentativa de cumprir os Cinco Preceitos (não matar, não roubar, não mentir, não ter má conduta sexual e não entorpecer a mente) e se afastar dos 3 Venenos da Alma (ganância, ódio e ignorância), o respeito às demais religiões, a convivência pacífica entre elas e a ausência de proselitismo, o que me aproxima ainda mais dela. O budismo tem me ajudado a enxergar com serenidade a impermanência das situações boas ou más da vida e me dado alento espiritual diante de recentes e grandes dificuldades, me nutrindo a esperança e a fé. É claro que isso pode ser alcançado em outras religiões, por isso considero essa busca algo muito pessoal e o mais importante é sermos felizes em nossas escolhas.
Enfim, não obstante muito sofrimento e coisas ruins também terem ocorrido em minha vida, chego aos 40 anos com muito amor e esperança no coração, acreditando na possibilidade de construirmos gradativa e consistentemente um mundo melhor para vivermos, com maior tolerância e compreensão, com mais respeito à diferença e à diversidade, e com a sincera busca da fraternidade e da paz de espírito que todos, em seu íntimo, desejam.

Se posso dar um conselho, ao completar quatro décadas de vida, é este: ame intensamente a vida, seus familiares, pais, mães, filhos, netos, avós, companheiros, companheiras, amigos; faça de todas as suas ações atos de amor ao seu próximo e por mais que possa parecer que não valeu a pena, nunca deixe de amar e nunca se arrependa de ter verdadeiramente amado. Qualquer lugar se ilumina quando se quer amar.

Um comentário:

PETRUS disse...

Parabéns pela pessoa que é com uma combinação rara de intelectualidade e sensibilidade às causas humanas. Parabéns pelo aniversário!