sábado, 29 de junho de 2013

Estudantes da Faculdade de Direito do Recife também em repúdio a ações policialescas em Pernambuco

Tenho realmente me preocupado com essa situação de Estado policial em Pernambuco. Urgem explicações convincentes das autoridades, pois as condutas descritas por várias pessoas diferentes são atentatórias ao Estado democrático de direito.
 
Não posso, contudo, deixar de me orgulhar dos alunos que fazem o Movimento Estudantil na Faculdade de Direito do Recife/UFPE, independentemente de grupos, pela postura combativa e corajosa que têm tido quanto aos fatos ocorridos.
 
Não aceitaremos Polícia Militar em nossa quase bicentenária Faculdade sem que tenhamos solicitado, seja a que pretexto for. Cobremos e insistamos junto às autoridades que se expliquem. E divulguemos amplamente os absurdos presentes, para que todo o Brasil saiba.
 
Segue a nota do Diretório Acadêmico Demócrito de Souza Filho:
 

“Eu não espero pelo dia
Em que todos
Os homens concordem
Apenas sei de diversas
Harmonias bonitas
Possíveis sem juízo final…” 
(Caetano Veloso – Fora de Ordem)

Caetano nos permita trazer essa canção como início do relato, pois Recife, ontem, viveu o seu dia de juízo final. Não à toa, voltamos para casa após a manifestação de ontem ouvindo exatamente essa música. E seguindo todos os trâmites do apocalipse, as ruas foram pintadas de repressão e violência gratuita.
 
A falta de diálogo com os movimentos sociais e o movimento estudantil foi a marca do dia 26 de junho de 2013. Infelizmente, os atos atentatórios muitas vezes caem no esquecimento da população e assim prossegue o nosso Estado. Contudo, fique claro, não haverá mais esquecimento ou resignação.
 
Ontem, dia 26 de junho de 2013, a princípio, seria mais um dia de luta por um transporte público digno e democrático, bem como por melhorias na mobilidade urbana da nossa cidade. Saímos da Faculdade de Direito do Recife às 15 horas e 30 minutos, conjuntamente com o Movimento Zoada e mais alguns alunos da Casa, para ir ao encontro do grupo que se dirigia ao Centro de Convenções. Já no caminho, além das prisões arbitrárias de alguns integrantes, algo nos chamou muita atenção: o assustador efetivo policial e a truculência como marca das intervenções, contrastando com um caminhar pacífico de todo o movimento. Em relação ao efetivo policial, é preciso ressaltar que, se quiséssemos fazer uma quadrilha junina entre manifestantes e policiais, sobraria policial sem par.
 
Chegando ao Centro Latinoamericano Derecho Constitucional de Convenções, nos deparamos com uma barricada (gigante) da PM e com uma Tropa de Choque ainda maior. Após a ilusão propagada por representantes do Governo de que um grupo de 15 pessoas seria ouvido, tomamos mais um “choque” de realidade, trocadilhos à parte. Fomos cercados por todos os lados, estávamos ilhados (entre todos os momentos relatados, leiam-se bombas, prisões e balas de borracha que nos acompanharam). A Polícia Militar utilizou um verdadeiro exército para obstar todas as saídas. Após as armas serem apontadas, foi aberta, caridosamente, uma passagem de saída para quem quisesse seguir pelo Tacaruna, em clara tentativa de desmobilização do movimento.
 
Pois bem. Seguimos pela Cruz Cabugá, veladamente acompanhados pela cavalaria e blindados. Mais bombas, gás lacrimogênio, balas de borracha e prisões. Muitas prisões. Ao entender que o cenário era mais do que hostil, nos dirigimos ao nosso refúgio, a Faculdade de Direito do Recife, afinal, lá a polícia não entraria por não ter competência para tal. Ao chegar na Faculdade, mais uma “grata surpresa”: 4 soldados da Polícia Militar, cientes de que ali não poderiam estar, encontravam-se dentro da Faculdade de Direito. Imediatamente, nos dirigimos aos policiais pedindo a saída deles. Só após muita insistência, eles se retiraram do espaço. Não sem deboche e ironia, claro.
 
Mas entendemos também a reação deles, é tudo muito cômodo. Se há esse tipo de ação, é claro que há o respaldo superior. E é mais claro ainda que o que pode vir a ser uma representação na Corregedoria da PM, também pode tomar o tradicional caminho dos diversos processos administrativos que sequer são apreciados. Dessa forma, as nossas petições, assim como os nossos sonhos, viram nada mais que mero papel de rascunho. Afinal, qual foi a apuração que se deu por parte da Corregedoria da Polícia Militar em relação ao episódio já ocorrido na Faculdade de Direito do Recife, onde a tropa de choque lançou bombas e disparou balas de borracha no protesto contra o aumento das passagens? Nenhuma. Absolutamente, nenhuma.
 
Não bastasse o absurdo, é importante ressaltar que, infelizmente, no que tange à entrada de policiais militares na Faculdade de Direito do Recife, o assunto está virando rotina. Na última sexta-feira, registramos ocorrência e oficiamos a Direção após recebermos a denúncia por parte de alguns alunos da casa de que policiais militares estavam circulando pela Faculdade, tirando fotos, inclusive.
 
Diante desses novos fatos, mais uma vez, representaremos contra os “garantidores da ordem” do Governo, acreditando (desacreditados) que a pressão popular ainda cravará uma faca nesse estado policialesco e corporativista. A Casa de Tobias não se calará JAMAIS. A sociedade também não mais permanecerá silente. Martin Luther King dizia: “o que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”. E mesmo tomados pela tristeza momentânea de presenciar tamanho absurdo, acreditamos, cegamente, que os gritos de libertação só tendem a aumentar.
 
É digno de registro que o aparato repressor prosseguiu pela noite e pela madrugada, orquestrado, então, pela Delegacia de Santo Amaro. Militantes foram presos sem nenhuma materialidade que justificasse a reprimenda, ficando demonstrado o caráter político das detenções. Fianças foram arbitradas sem nenhuma razoabilidade e, pasmem, antes da ouvida de cada estudante detido. E a cereja do bolo não poderia faltar: uma das testemunhas, ao entrar de forma voluntária na delegacia, foi TAMBÉM DETIDA, NÃO PÔDE TESTEMUNHAR E SOMENTE FOI LIBERADA APÓS ASSINAR TCO POR OBSTRUÇÃO DA JUSTIÇA. Inclusive, nem a presença do Presidente da OAB/PE foi suficiente para que as arbitrariedades estancassem. Contudo, sua presença, de toda forma, foi importantíssima. É a hora da seccional pernambucana exercer o seu papel primordial de proteção aos direitos mais básicos de cada cidadão. Pois, inegavelmente, há algo de muito podre nisso tudo.
 
Para finalizar, em relação a todo o movimento de ontem, dormimos com a felicidade de quem viu que em nada adianta o Governo nos sitiar fisicamente, posto que os sonhos não se aprisionam, mas se encontram preservados em nossos corações. E não há balas, bombas ou cavalaria que ofusquem os sentimentos. A repressão, em verdade, atua como um combustível jogado na fogueira e o fogo vira a sua herança do Governo. Continuemos na luta, pois o momento é de avançar. O movimento apenas começou e o seu prosseguimento independe do cerimonial de recepção que nos será dispensado. À luta!
 
DADSF 2013 – Gestão [RE]pense – Grupo Contestação 25 anos de luta!"


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