quinta-feira, 20 de junho de 2013

A vox populi brasileira: dispersa, andrógina, necessária...

Agora à tarde Recife também será palco de manifestações políticas da população, esperando-se que pacíficas e sem maiores transtornos que o necessário. Lamentavelmente não poderei participar, mas fiquei feliz com a iniciativa de vários setores da sociedade civil, inclusive da OAB/PE, cujo Presidente Pedro Henrique Alves, convocou os advogados para estarem de plantão durante o evento, prevenindo eventuais arbitrariedades e zelando pelo Estado democrático de direito em nossa cidade.
 
Há pouco mais de um ano vimos a PM daqui jogando bombas de "efeito moral" contra estudantes que  também protestavam contra aumento de passagem - de forma pacífica e ordeira, recorde-se - bombas estas que chegaram às portas da Faculdade de Direito do Recife, onde estudantes tentavam escapar dos policiais ensandecidos, e que gerou uma indignação ainda maior por parte dos Professores da Casa, cuja Carta Aberta, capitaneada à época por mim e por Alexandre da Maia, clamava pela defesa do direito constitucional de livre manifestação do pensamento e pela rigorosa apuração das violações de direitos fundamentais perpetradas pelas autoridades, apuração esta que continuamos aguardando (cf. http://direitoecultura.blogspot.com.br/2012/01/carta-aberta-dos-professores-da.html).
 
Pois bem. Na semana passada, soube pela internet que o Movimento Passe Livre em São Paulo organizaria um grande protesto naquela cidade contra o indevido aumento das passagens do já caro e ruim transporte público. Esse movimento, em que pese possa-se discordar ou não de suas posições, é capitaneado por setores organizados da sociedade civil, tendo foco e objetivos concretos em sua luta. Seus líderes são claramente identificáveis e suas pautas são politicamente consistentes, embora possam não ter razão em tudo.
 
Confesso que nem dei muita importância a essa notícia, aparentemente mais um daqueles protestos que não daria em nada, mas ao ver a cobertura do Jornal Nacional à noite, mostrando a polícia "acuada" por um "bando de vândalos", fiquei desconfiado. Ora, como é que do nada, um "bando de vândalos" se reúne e resolve atacar as instituições? Há algo mais aí...
 
Logo a seguir, vi o Governador de SP, Geraldo Alckmin (cadê ele agora? Sumiu? Renunciou?), defender com ardor a ação policial contra os "baderneiros", dizendo que a mesma foi "necessária" e "dentro da lei". É claro que à noite, já estava Arnaldo Jabor com sua habitual verborragia esculhambando os "vândalos" da classe média que "não valem 20 centavos" (http://www.youtube.com/watch?v=32zzDOn_E2Q),  e o mais tragicômico de tudo foi ver Datena realizando uma "enquete" com seus telespectadores se eles seriam favoráveis a protestos "com baderna" (http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=7cxOK7SOI2k).

É claro que ninguém de bom senso vai defender violência e depredação e que aproveitadores oportunistas existem em todo e qualquer movimento político, por mais nobres que sejam seus fins. Mas daí a caracterizar todo (ou quase) um agrupamento de pessoas com reivindicações e cobranças legítimas como arruaceiros e bandidos parece no mínimo ignorância e, no mais da vezes, deliberada má-fé com intuito desmoralizador dos pleitos daqueles cidadãos. Isso é razoavelmente frequente em coberturas midiáticas.
 
Mas a grande imprensa ainda subestima a força das redes sociais, mostrando o que hoje qualquer celular consegue gravar: imagens dos abusos policiais contra gente indefesa, apenas uma minoria provocando vandalismos quando a imensa maioria pedia à própria polícia "sem violência" e ainda assim serem espancadas do mesmo jeito, enfim, as distorções midiáticas pegaram muito mal, e Rede Globo, Arnaldo Jabor e congêneres rapidamente mudaram de enfoque, passando a análises mais isentas, talvez por medo de uma fragorosa desmoralização de seus parcialismos.
 
Acredito que já há um saldo profundamente positivo das manifestações: primeiro, o recuo da grande imprensa que, vendo-se acuada, demonstra menor capacidade de distorção e de manipulação dos fatos, como conseguia fazer no passado; segundo, os governantes, temendo repercussões mais negativas, tomarem iniciativas de redução de preços de passagem, mostrando que reagem sim positivamente às reclamações da população; terceiro, a não instrumentalização das manifestações por partidos ou grupos políticos específicos, muito embora eu seja contra certas atitudes hostis contra os mesmos; tentaram emplacar um oportunista "Fora Dilma" que rapidamente perdeu força (quem quiser tirá-la da Presidência, que vote na oposição no próximo pleito, tudo de acordo com o Estado democrático e sem golpismos); quarto, a população brasileira saiu de seu marasmo e, apesar da dispersão e de certa androginia dos protestos, é bom ver que nosso povo pode deixar de ser passivo algumas vezes: as reclamações contra os excessivos gastos para a Copa em detrimento da saúde e da educação foram muito pertinentes ("Queremos escolas e hospitais padrão Fifa", disseram vários cartazes), os protestos por mais ética e menos corrupção na política e as pautas específicas de diversos setores sociais passaram a uma maior visibilidade com a cobertura internacional das manifestações bem em meio à Copa das Confederações.
 
Confesso que me incomoda essa dispersão de protestos contra tudo e contra todos e o que chamo de "androginia manifestante", ou seja, não se sabe ainda ou simplesmente não se tem um foco preciso dos objetivos das grandes manifestações. Há algo de "Eu também vou reclamar" (1976), do genial Raul Seixas nessas manifestações (http://www.youtube.com/watch?v=MqQq_ykY_j0). Parece que cabe de "Fora Dilma" a "por uma sociedade socialista", passando pela "defesa da família e da propriedade", defesa das minorias discriminadas (especialmente os LGBTs contra as invectivas dos Felicianos e Andersons Ferreiras), contrários e favoráveis à redução da maioridade penal, defensores de uma ampla reforma política (também não se sabe exatamente como ela seria) e por aí vai. Pautas não faltam.

Ainda assim, vejo com bons olhos o povo tomar as ruas e autoridades e elites brasileiras se verem não tão intocáveis assim, bem como um início de conquistas democráticas e resultados concretos em decorrência da atuação popular, que pode ser dispersa, andrógina, mas é necessária, muito necessária!

Nenhum comentário: