sexta-feira, 17 de maio de 2013

A vida fácil dos heróis da Revista Veja

A Revista Veja (com a licença da má palavra) parece escolher muito mal seus "heróis". Há alguns anos elegia Demóstenes Torres como "paladino da moralidade", "reserva moral do Parlamento brasileiro" e deu no que deu. Descobriu-se que o ex-Senador é corrupto até a alma e um dos maiores hipócritas que já passaram pelo Congresso Nacional.
 
De modo diverso no que tange à corrupção, pois esse não me parece nem de longe um "atributo" de Joaquim Barbosa ou de qualquer outro dos Ministros do STF (ao menos até onde eu sei, mesmo de bastidores), o atual Presidente daquela Corte tem se notabilizado por posições políticas autoritárias e arrogantes, bem como por uma extrema falta de civilidade e de educação no trato público com as pessoas e os profissionais que convivem com a Suprema Corte. Primeiro chamou os juízes federais de levianos e sorrateiros quanto à questão dos novos Tribunais Regionais e mandou o representante da categoria se calar por que protestara contra essa invectiva. Agora sua artilharia se direcionou aos advogados, chamando-os de preguiçosos, já que acordam às 11h, segundo ele, em uma "piada" completamente sem graça e desrespeitosa para com a classe, além de demonstrar um completo desconhecimento da realidade dos advogados, pois a esmagadora maioria, dos iniciantes aos mais bem sucedidos, trabalham não raro 3 expedientes, além de sacrificarem não poucas vezes seus finais de semana para cumprirem prazos e estratégias processuais.
 
Sempre desconfio desses maniqueísmos "vejianos" de eleger "heróis" e "vilões", sendo os primeiros aqueles alinhados com a posição da Revista e os últimos os contrários a ela. Creio ser uma falta de respeito, além de péssimo jornalismo. Achincalharam o Min. Ricardo Lewandowski como o vilão do ano, e colocaram Joaquim Barbosa em um pedestal, o "justiceiro supremo". Agora o Brasil começa a ver que maniqueísmo de qualquer tipo é sempre um péssimo conselheiro. Talvez Barbosa não seja tão herói assim...
 
Para não me alongar mais, transcrevo a ótima crônica de meu colega e amigo Gustavo Ferreira Santos, Professor da UFPE, Procurador do Município de Recife e Advogado, que, assim como eu, também não acorda às 11h. Também transcrevi dois comentários que achei pertinentes, um deles meu.
 
"VIDA FÁCIL
 
O advogado rolou na cama, abriu o olho e viu, no relógio da cabeceira, que ainda não passava da 10h da madrugada. Virou e adormeceu.


 Às 11h, pontualmente, como todo santo dia, levantou e foi para o batente. Corpo banhado, dentes escovados, foi fazer seu merecido brunc diário. Leu dois jornais locais e um nacional. Enquanto vestia a roupa para ir à academia, postou no facebook uma saudação aos outros colegas de profissão.
 
Na academia, sem perder tempo, aproveitou a esteira para ver, no seu iPhone, os saldos de suas varias contas bancárias. Como passou meia hora na esteira, deu tempo de conferir tudo. Enquanto malhava as pernas, conversou com outro advogado, que malhava ao seu lado, sobre dicas de hotéis em Paris. Reclamava que era difícil acertar. Já fizera centenas de viagens à Cidade Luz, mas odiava todos os hotéis que conhecia.
 
Já fardado com seu terno Armani, comprado em Milão na semana anterior, foi ao fórum, pressionar alguns juízes. Aproveitou para passar nos gabinetes de dois juízes amigos, a quem pediu umas providências em uns processos e ajuda para influenciar um estranho juiz que teimava em não fazer o que ele pedia.
 
De lá, partiu para um merecido happy hour. Quando sorvia o primeiro gole de vinho, tudo ficou estranho. O mundo, de repente, estava esmaecendo. Estranhamente, homens de preto estavam sentados, ouvindo bobagens ditas por um advogado, que falava em pé, também de preto.
 
Tudo, enfim, ficou claro. Aquilo não passara de um sonho de um ministro do STF que, diante daquela desnecessária participação de advogados no plenário, não resistira e adormecera. Enquanto, discretamente, enxugava a baba que escorria no canto da boca, fez cara de quem está atento. Vai que alguém o viu dormir. Ele precisava fazer algo para que tudo parecesse meramente um fechar de olhos para apreciar mais atentamente os argumentos."


Meu comentário: "É, o grande herói da Revista Veja deu mais um show de arrogância, autoritarismo e falta de civilidade e educação, destratando agora os advogados, não bastasse o que já fizera com os juízes federais. Também sou advogado e acordei hoje às 6h, Sr. Min., e certamente não dormirei antes de meia-noite. Sr. Min., o Sr. está aí? ZZZZZZZZ. Ah, ainda não são nem 10h da madrugada, ainda está dormindo..."
 
Comentário de Cláudio Ricardo: "Tudo se explica pela etimologia das palavras. Acórdão: é quando os ministros ou desembargadores acordam e votam com o relator."

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