sábado, 27 de abril de 2013

Livros e filmes indispensáveis - parte VIII

Encerrando minhas  atuais listas de livros e filmes indispensáveis, aí vai a última com aqueles que denomino intimistas e pessoais. Aqui são filmes sem nenhuma razão especial de estarem em uma lista top 5, a não ser o meu gosto pessoal. Podem muitas vezes dizerem pouco a outrem, mas a mim dizem muito. Por razões diferentes, me marcaram profundamente. Seguem:
 
INTIMISTAS E PESSOAIS
 
 
- Amadeus
A vida do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart é revisitada aqui através do olhar de seu mais ferrenho adversário, o compositor italiano Antonio Salieri, invejoso, mas no fundo o maior dos fãs do primeiro. Como parte de uma suposta confissão de Salieri a um padre católico, o filme mostra um Mozart arrogante, vaidoso, debochado, perdulário, beberrão e mulherengo, algo que os seus biógrafos em geral rechaçam. Em um ponto, entretanto, todos concordam: Mozart era um gênio musical, talvez o maior da história, a ponto de sequer fazer cópias de suas perfeitas composições, quase como se elas lhes fossem “ditadas por Deus”. O filme é rico em belas imagens, musicalmente impecável com a trilha sonora de Mozart (salvo umas poucas de outros) e possui cenas antológicas, como a que Mozart ouve uma música uma única vez e a reproduz, corrigindo os erros do Imperador que a tocara e ainda criando variações na mesma (no que se torna depois as “Bodas de Fígaro”) e a composição do Réquiem na cama. F. Murray Abraham e Tom Hulce estão extraordinários em seus papéis e o roteiro é um dos melhores da história do cinema. Dirigido pelo diretor tcheco Milos Forman, foi filmado na bela Praga da então Tchecoslováquia, em 1984, em razão do cenário preservado da capital tcheca ser mais autêntico e original que o da própria Viena. Assisti “Amadeus” ainda criança no cinema e posso dizer que ele foi responsável por, desde então, eu amar música clássica.
 
- Cinema Paradiso
O diretor italiano Giuseppe Tornatore dá um presente aos amantes da arte e do cinema com essa obra-prima. As peripécias do pequeno Totó, que se torna depois o grande cineasta Salvatore di Vitto, dão início a um relacionamento de amizade entre ele e o projetista Alfredo, a partir de quem, em sua pequena cidade no interior da Itália, aprende a amar o cinema. A infância, juventude e maturidade de Vitto são abordadas a partir das referências cinematográficas, com imagens muito bonitas e expressivas. Amor, tristeza, alegria, paixão, saudades, tudo isso visto de forma única, em um filme profundamente sentimental, sem descambar para o sentimentalismo piegas ou meloso. Emocionante, engraçado e triste, “Cinema Paradiso” é a maior das homenagens ao próprio cinema e a tudo o que ele pode expressar a cinéfilos e não cinéfilos. Produção italiana de 1989, com destaque especial para a linda trilha sonora composta por Ennio Morricone.
 
- Meia noite em Paris
Escrevi post específico sobre esse filme magnífico de Woody Allen – segue o link: http://direitoecultura.blogspot.com.br/2011/07/meia-noite-em-paris-o-que-tantos-genios.html.
 
- Meu filho, meu mundo
O título original é “Son-rise, a miracle of love”. Filme da década de 80, está longe de ser uma obra-prima cinematográfica. Entretanto, o profundo significado pessoal, não só para mim, mas para qualquer pai, mãe, familiar ou amigo de uma pessoa com autismo faz dele um libelo contra a desesperança. Trata-se da história real de Raun Kaufmann, diagnosticado com autismo profundo e grave aos 1 ano e meio de idade na década de 70. Seus pais, Barry e Samarah, após desesperançados por quase todos os especialistas da época, que afirmavam que Raun jamais falaria e que infelizmente seria assim durante toda a vida, decidiram utilizar a intuição e a observação, aliados à dedicação e amor pelo filho, trabalhando brincadeiras e atividades com ele durante muitas horas diárias e praticamente todos os dias da semana. De autista grave, Raun, por volta dos 7 anos, já frequentava escola regular e não possuía qualquer traço de comportamento autístico. Hoje, com mais de 40 anos, é biomédico e um dos diretores do Autism Treatment Center, nos EUA, que baseado na experiência dos Kaufmann e em muitas outras posteriores, fazem um trabalho espetacular de melhoria no mais das vezes significativa das pessoas e crianças com autismo. Raun dá palestras sobre o tema no mundo inteiro atualmente, sendo uma prova viva de que nada nessa vida é definitivo. O filme é belo e emocionante.
 
- O último samurai
Esse filme é uma bela surpresa. Quando se observa a sinopse e o fato de ser protagonizado por Tom Cruise, parece até algo do hollywoodianismo clicherizado. Entretanto, assisti-lo revela exatamente o oposto. Trata-se de um mergulho profundo no Japão da Era Meiji (século XIX) e nos últimos momentos de força da classe samurai como instituição política e militar. Mais que isso, o filme retrata a filosofia de vida dos samurais e o seu código de honra, o bushido (Caminho do Guerreiro), com seus aspectos materiais e espirituais, por vezes paradoxais para nossos olhares ocidentais. É a estória de Nathan Algren, Capitão do Exército dos EUA interpretado por Cruise, que, atormentado pelas lembranças dos massacres dos índios daquele país, vai ao Japão, contratado para treinar os novos soldados do Exército Imperial para combater um exército de samurais rebeldes. Em batalha contra estes, termina se tornando prisioneiro deles e conhece o seu líder, Katsumoto Moritsugu, interpretado pelo excelente ator japonês Ken Watanabe. Termina por se tornar amigo deste e se une aos seus rebeldes, assimilando em grande medida a filosofia samurai e o bushido. As cenas de batalhas são memoráveis, mostrando em detalhes as estratégias militares e as lutas com base nas artes marciais japonesas. O final, historicamente incorreto, estraga um pouco, mas o enredo ao longo do filme é tão bom que torna perdoável essa opção. É obra de ficção e o Capitão norte-americano não existiu, mas Katsumoto é baseado em Takamori Saigo, General que de fato se rebelou contra as forças imperiais e liderou um último exército de samurais que pretendiam defender a sua honra guerreira até a morte, com suas espadas em punho. Provavelmente o melhor filme sobre samurais já realizado.

 

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