sexta-feira, 19 de abril de 2013

Livros e filmes indispensáveis - parte VI

Dando continuidade às minhas listas top 5 de livros e filmes, segue a dos filmes que denomino de "não jurídicos para o direito". São os que, embora não tenham a temática jurídica como o centro das atenções, perpassam-na de algum modo através do enredo, bem como as reflexões políticas, sociais e filosóficas presentes são normalmente imprescindíveis aos juristas e aos que desejam uma compreensão mais ampla do direito.

 
NÃO JURÍDICOS PARA O DIREITO 
 

- Danton, o processo da revolução.

Bastante fidedigno historicamente, esse brilhante filme do polonês Andrzej Wajda, feito em 1983, explora as grandes contradições da Revolução Francesa, no período do Terror, 4 anos após sua eclosão. Através de dois dos seus principais protagonistas, Danton e Robespierre, os acontecimentos do período são retratados de forma bem menos glamourosa do que se espera de ideais como a tríade liberdade/igualdade/fraternidade. A cena da recitação dos artigos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão pelo irmão da governanta de Robespierre é antológica e genial, logo após a execução de companheiros revolucionários condenados por tribunal de exceção. O grande ator francês Gérard Depardieu interpreta um Danton arrogante e narcisista, que se perde completamente em sua autoconfiança. Wojciech Pszoniak faz um Robespierre vacilante e contraditório como a Revolução. Os dois atores são excelentes, tais como a película.

 
- Laranja mecânica.

Bombástico, alucinante, violento e arrebatador, para dizer o mínimo. Esse filme é um tapa na cara das nossas “zonas de conforto”. Adaptado do livro de Anthony Burgess, mas bem superior a ele, é a estória do jovem delinquente Alex, em assustadoramente competente interpretação de Malcolm McDowell, que se divertia com o cometimento de delitos e a prática de estupros e ultraviolência, além de ouvir Beethoven. Uma vez condenado, passa por um processo de “reeducação” para ser um “cidadão de bem”, ocasião em que é submetido a um tratamento de choque com alta tecnologia. Os desdobramentos são surpreendentes e o filme permite o debate de temas como a delinquência juvenil, o ímpeto para o comportamento criminoso e sociopata, a autonomia individual, e, o mais importante, o caráter potencialmente totalitário de políticas estatais de controle das massas e de criminalização da política. Tudo isso no grande filme de Stanley Kubrick que, não obstante ser de 1971, ainda consegue chocar com suas imagens e percepções.

 
- Mar adentro.

Esse belo filme espanhol de 2004 põe em discussão um direito fundamental e os dramas pertinentes: o direito à vida significa também o direito de morrer? Ramón Sampedro, numa grande interpretação de Javier Bardem, torna-se tetraplégico após um acidente e mais de 20 anos depois deste, luta nos tribunais pelo direito de por fim à própria vida. Lúcido e consciente, as discussões inteligentes e eivadas de paixão humana puxadas por ele incomodam também sua família e a Igreja, bem como a sociedade espanhola em geral. Um debate fundamental sobre eutanásia, dignidade e direitos humanos. Excelente direção de Alejandro Amenábar e muito melhor que “Menina de Ouro”, que aborda a mesma temática.

 
- Os miseráveis.

O fantástico conto de Victor Hugo nunca foi tão bem retratado quanto neste filme de Bille August, rodado em 1998. Há várias versões do clássico, mas essa é a melhor de todas em minha opinião. Liam Neeson como Jean Valjean e Geoffrey Rush como o Inspetor Javert fazem interpretações intensas e memoráveis. Valjean é um dos muitos ladrões-vítimas de condições sociais adversas de um liberal-capitalismo economicamente excludente que trata a fome como caso de polícia. Sua transformação ao conhecer a piedade, a generosidade e o perdão em sua vida o faz um homem mais humano, construindo uma vida nova, ameaçada, contudo, pelo insano legalismo de Javert, para quem alguém condenado sempre será um criminoso. Persegue implacavelmente Valjean em uma França acometida por ventos revolucionários no século XIX. Um drama humano e social explorado com magníficas imagens e interpretações.

 
- Sunshine – o despertar de um século.

O mestre húngaro Isztván Szabo filma aqui a saga de uma família judia de seu país natal em três momentos cruciais da história deste: o Império Austro-Húngaro, o regime antissemita simpático ao nazismo e o comunismo pós-2ª Guerra. É o melhor trabalho de Ralph Fiennes, que interpreta pai, filho e neto em cada uma das fases do enredo: é Ignatz, um juiz probo e íntegro durante o Império Austro-Húngaro que, por sua grande admiração pelo Imperador, entra em conflito com o irmão Gustav, médico e revolucionário comunista; na fase seguinte, é Adam, um esgrimista campeão olímpico que, mesmo sendo um "herói nacional", não consegue escapar dos horrores do Holocausto na Hungria, tal como sua família, amplamente atingida; na terceira e última, é Ivan, sobrevivente do Holocausto e membro da polícia política comunista que, posteriormente, também passa de algoz a vítima do autoritarismo do regime que defende, causando uma reviravolta em seu pensamento e ação. Um maravilhoso épico sobre antissemitismo e autoritarismo que ainda conta com a participação de Rachel Weisz e William Hurt no elenco de estrelas. A trilha sonora é maravilhosa e as belas imagens de Budapeste me dão vontade de voltar a essa inesquecível cidade.

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