terça-feira, 26 de março de 2013

Livros e filmes indispensáveis - parte IV

Mais livros indispensáveis, desta feita a grande literatura para a vida. Segue abaixo minha lista "Top 5".


- Ariano Suassuna: Romance d'a Pedra do Reino (e o príncipe do sangue do vai-e-volta).

O grande épico de Ariano Suassuna. Publicado pela primeira vez em 1971, esse livro é o mais importante para conhecer os referenciais literários e ideológicos do autor. De modo pouco linear, ele constrói uma narrativa singular, misturando aspectos medievais com sebastianismo português, história e folclore do Nordeste e do Brasil, filosofia e política, empreendendo um sincretismo literário com um resultado maravilhoso. Nunca vi o erudito e o popular estarem lado a lado de modo tão brilhante como nesta obra desse paraibano adotado por Pernambuco. A saga de D. Pedro Dinis Ferreira-Quaderna é uma alucinante e contraditória epopeia, que coloca Suassuna no panteão dos maiores autores brasileiros de todos os tempos.

 
- Gabriel García Marquez: Cem anos de solidão.

Apesar de ser meio lugar-comum, não dá para não colocar esse livro do escritor colombiano entre os melhores da literatura latino-americana e talvez mundial. A imaginária Macondo e seu “realismo fantástico” na saga dos Buendía dizem muito da realidade dos “tristes trópicos” da América ibérica. Ao contrário desta, parece que a estirpe dos “solitários” não terá jamais “uma segunda oportunidade sobre a terra”. Publicado em 1967, alça Marquez à categoria de “o último grande contador de histórias do século XX”. Escreve de fato com uma maestria incomparável, difícil dizer mais: o essencial é lê-lo.

 
- George Orwell: 1984.

Escrito em 1948, é um alerta contra a aniquilação do indivíduo em nome de uma coletividade opressora que se traduz, afinal, no domínio total dos poderosos sobre os mínimos aspectos da vida social e individual. Nada escapa ao olhar onipresente do Grande Irmão, que nem se sabe se existe. A história é falseada pelo Ingsoc e seu Ministério da Verdade (perversa ironia) e Winston é “desmascarado” a partir do momento em que toma consciência das dimensões do horror totalitário. A Oceania de Orwell é o totalitarismo levado às últimas consequências, onde até a esperança deixa de existir. A semelhança com a União Soviética stalinista é aterradora e tristemente inspiradora da STASI alemã oriental. Hoje talvez a Coreia do Norte seja o que há de mais próximo ao pesadelo orwelliano. Romance imprescindível à democracia.

 
- Günther Grass: Meu século.

Certamente o maior romancista alemão da atualidade, esse livro reúne cem pequenos contos, um em cada ano do século XX, em que Grass vê a vida em sociedade na Alemanha, bem como grandes acontecimentos mundiais, através de olhares singelos de pessoas as mais diversas. Seja como trabalhador desempregado, estudante enamorado, mãe operária ou guarda de campo de concentração nazista, o escritor consegue descrever o século XX a partir da simplicidade desses olhares em contraste com os grandiosos tratados de explicação histórica e político-científica. Genial. Li a edição publicada pela Editora Record em 2000.

 
- José Saramago: As intermitências da morte.

Talvez alguns estranhem que quando eu fale do único Nobel de língua portuguesa, prefira este a outros tão bons como “Memorial do Convento”, “Ensaio sobre a Cegueira” ou “O Evangelho segundo Jesus Cristo”. Contudo, acho-o um livro espetacular, pois possui a mesma inventividade e criatividade do “cegueira”, sendo, porém, bem mais leve e até um tanto jocoso. De certo modo, Saramago brinca com a morte e vislumbra como a ausência dela seria trágica para a existência humana. O escritor, convictamente ateu, faz aqui um texto alenta e espiritualmente tranquilizador sobre “Ela”, tão temida quanto inevitável e, no fim das contas, necessária. Creio que é o seu apogeu literário e criativo.

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