sábado, 23 de março de 2013

Livros e filmes indispensáveis - parte III

Mais uma lista Top 5, agora de livros não jurídicos indispensáveis para juristas.


NÃO JURÍDICOS PARA O DIREITO


- Hannah Arendt: Origens do Totalitarismo.

Para mim, a mulher intelectual mais genial da história. Sem perder o rigor filosófico e analítico, mas parecendo acoplar a ele a peculiar sensibilidade feminina, tão rara em escritos de sua época, Arendt desvela as razões políticas e filosóficas da construção de ideários tão lesivos à humanidade, como foram e são o antissemitismo, o imperialismo e o totalitarismo. Uma abrangente análise da desumanidade dessas visões de mundo e de vida e um grande libelo teórico contra a intolerância e a favor de uma cultura democrática e de respeito aos direitos humanos. Li a edição publicada em 2000 pela Companhia das Letras.

- Jeremy Rifkin: O Sonho Europeu.

O Professor da Universidade da Pensilvania é um entusiasmado europeísta, mais do que muitos europeus. Publicado em 2004, este livro traça uma original comparação entre as culturas e o modus vivendi norte-americano e europeu, enxergando grandes vantagens neste último a partir de sua rica diversidade cultural e da valorização da cooperação e do consenso em detrimento a arroubos militaristas e unilateralismos de superpotências. Em tempos de crise europeia, é uma leitura valiosa para enxergarmos o legado cultural edificado em décadas de paz continental pós-2ª Guerra e essencial para pensarmos a civilização do futuro, menos fundamentada em crescimento do PIB e mais nos índices de desenvolvimento humano (IDH) e na felicidade interna bruta, como dizem os butaneses. A edição que li é em espanhol, publicada pela Paidós de Buenos Aires, em 2004.

- Karl Popper: A Sociedade Aberta e seus Inimigos.

Polêmico e passional, sem perder o caráter analítico, Popper escreve este libelo contra o totalitarismo ainda na década de 40 e antes do fim da 2ª Guerra. É um livro bombástico contra as tendências filosóficas unitaristas, defendendo com ardor o pluralismo e a tolerância como essências do que chamou de “sociedade aberta”. Platão e Hegel são virulentamente atacados, Aristóteles e Marx também, embora em menor escala. Afirma virtudes das reflexões deste último, especialmente sua honestidade intelectual, mas desfere profundas críticas quanto ao desdobramento totalitário e desumano da generosa teoria marxista. Execrado por boa parte da esquerda mundial, chamado de “reacionário”, “direitista”, “revisionista”, Popper, ao contrário de tudo isso, tornou-se um baluarte teórico da democracia e do pluralismo, sem concessões autoritárias à direita ou à esquerda. Li a edição de 1987 (os 2 volumes), publicada pela Itatiaia Editora.

- Norberto Bobbio: O Futuro da Democracia.

Bobbio é um gigante como jurista e como teórico político. Dentre tantos livros muito bem escritos, gosto especialmente deste. Publicado pela primeira vez em 1984, o Professor italiano faz aqui uma percuciente e equilibrada análise da democracia política, atentando para a fundamental importância de seu aspecto procedimental, exposto já a partir de seu subtítulo (“uma defesa das regras do jogo”). O respeito às normas e às instituições democráticas é o primeiro e mais fundamental passo para uma renovação progressiva da sociedade e para tal é preciso enfrentar as “promessas não cumpridas” e os problemas e incoerências da “democracia real”. Trata-se de um ataque/defesa à democracia do tipo que só Bobbio consegue: atacá-la para melhorá-la na prática.

- Tina Rosenberg: Terra Assombrada.

Um relato jornalístico de rara qualidade investigativa e analítica sobre o pós-comunismo em três países do Leste Europeu. A jornalista norte-americana percorreu a Polônia, a então Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental, já não existente e incorporada à República Federal (Ocidental), nos primeiros anos após a queda da Cortina de Ferro. O relato sobre o difícil processo de redemocratização do Estado e da sociedade, com entrevistas com ex-chefes de Estado, ex-autoridades e cidadãos que sofreram e foram cúmplices das atrocidades dos regimes, dão aos relatos muita humanidade e paixão. A parte referente à Alemanha Oriental é fantástica, analisando a polícia secreta (a STASI) a partir de diversos olhares, bem como os julgamentos da justiça de transição alemã dos anos 90. A melhor leitura que já fiz sobre o pós-totalitarismo nessas sociedades. Publicado pela Editora Record em 1999.

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