sábado, 12 de janeiro de 2013

Kieslowski e o Decálogo: como se faz mais com menos

*Este post é dedicado à minha amiga Liana Cirne Lins que, como se não bastasse seu imenso talento acadêmico, consegue ir muito além dos que, como eu, são meros cinéfilos. Estou louco para ver “Bárbara”, sua estreia como cineasta. Que São Kieslowski a ilumine nesse caminho, querida.

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 Como afirmei em outro texto aqui no blog, Alfred Hitchcock, cineasta que dispensa apresentações, certa vez afirmou que costumeiramente se irritava com filmes com excessos de diálogos. Para o mestre do suspense, cinema é antes de tudo imagem e os diálogos deveriam se restringir ao estritamente necessário.
Sou um mero cinéfilo, mas não iria ao extremo de Hitchcock. Acho, p. ex., Woody Allen um excepcional cineasta e seus filmes são exacerbadamente dialógicos. Contudo, reconheço que o diálogo excessivo pode ser uma forma de esconder a pouca habilidade na elaboração das imagens que, de fato, deve ser o principal foco na produção de um bom filme.

Bom, se Hitchcock estiver certo, poucos cineastas são tão hitchcockianos, nesse sentido específico, quanto o diretor polonês Krzysztof Kieslowski.

Kieslowski veio da Escola dramatúrgica de Lodz, a mesma de outros dois célebres cineastas da Polônia, Andrzej Wajda ("Katyn" e "Danton") e Roman Polanski ("O Pianista" e "Lua de Fel"). Começou sua carreira como documentarista e diretor de curtas. Com problemas com a censura dos tempos da Polônia comunista, começou a se aproximar da escola francesa, que influenciou decisivamente filmes como "A Dupla Vida de Veronique" e a maravilhosa “Trilogia das Cores” – “A liberdade é azul”, “A igualdade é branca” e “A fraternidade é vermelha”, filmes já comentados noutro post (http://direitoecultura.blogspot.com.br/2010/12/krzysztof-kieslowski-setima-arte-em_09.html).

Contudo, não menos genial que a “Trilogia das Cores”, é a série de filmes de média metragem produzidos em 1989 para a TV polonesa intitulada "Decálogo". É aí que se pode afirmar que seu estilo ficou definitivamente ligado à ideia de poucos diálogos e muita ênfase nas imagens e cores, no que alguns intitularam de "poesia imagética".

Com aproximadamente 50 minutos de duração cada um, os 10 filmes do Decálogo de Kieskowski abordam os mandamentos bíblicos, priorizando um deles em cada filme, não obstante os demais também rondarem as diversas situações que se apresentam. São estórias independentes entre si, tendo, entretanto, numerosos pontos de contato, a começar pelo fato de serem geograficamente localizadas em torno de um condomínio de edifícios na Varsóvia dos anos 80. Mesmo sendo temporal e espacialmente limitadas à então Polônia comunista, suas temáticas e abordagens são profundamente universalistas e as situações vividas pouco tem a ver com o sistema e a ideologia socialmente presentes. São dilemas bem práticos e cotidianos em torno dos mandamentos bíblicos, conduzidos cinematograficamente por Kieslowski de um modo que fica longe de qualquer pregação moralista de filmes religiosos proselitistas, sem, contudo, cair no anticlericalismo pueril de muitos dos denominados filmes “críticos” que, por vezes, fazem um proselitismo “às avessas”. Amor, culpa, medo, amizade, tristeza, moral, ganância, lealdade, fé, todos valores e sentimentos presentes nas questões existenciais exploradas.

O Mestre polonês fez filmes que religiosos e não religiosos podem assistir e pensarem sobre as situações e dilemas lá colocados; sobre as necessidades e dificuldades que cada uma dessas formas éticas de conduta pode ensejar na vida prática em sociedade; sobre a pluralidade de perspectivas e a tolerabilidade moral em relação ao cumprimento e às violações dos mandamentos do “Decálogo” na cultura judaico-cristã, seja na Polônia de Kieslowski, seja em qualquer país cuja base cultural seja aquela.

No “Decálogo”, Kieslowski consegue fazer mais com menos: apesar de não dispor dos recursos hollywoodianos ou da qualidade de produção da Europa ocidental, supera isso com farta criatividade e imaginação, bem como uma incrível competência cinematográfica de aproveitar o melhor de cada ator, produtor e câmera.
Impecável Kieslowski. Imperdível para qualquer grande amante do cinema.

Ps.: depois posto comentários sobre os filmes de modo específico, pois este texto já está ficando grande.

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