segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Decálogo, de Kieslowski: VI a X

Mais pequenas impressões sobre o Decálogo, agora acerca dos 5 últimos filmes.

VI: Não cometerás adultério

Um jovem espia através de sua janela a rotina de uma mulher mais velha que ele, parecendo desejá-la, interessado que é nos encontros amorosos dela em seu apartamento. Apesar de seu voyeurismo, ele é inocente e tímido, vivendo uma espécie de adolescência tardia quando se aproxima mais dela. A relação, embora com um tom platônico, torna-se real e a diferença de maturidade emocional entre o rapaz e a mulher mais experiente gera conflitos psicológicos e situações inesperadas de culpa, amor e compaixão.
 
VII: Não furtarás
 
Uma adolescente engravida aos 17 anos e para esconder a "vergonha", a mãe dela assume a criança como filha e ela se passa a partir daí por irmã da filha. Muitos anos depois, ela se arrepende e decide fugir com a própria filha, buscando reencontrar o pai da criança, um antigo professor de sua escola. Aqui Kieslowski aborda com maestria os tabus geradores de discriminação social e suas consequências. Os estereótipos de "famílias perfeitas" decorrentes do moralismo social e as tênues fronteiras entre o certo e o errado fazem-no um filme especialmente interessante. Gosto bastante dele, embora não seja um dos meus preferidos.
 
VIII: Não levantarás falso testemunho
 
Uma pesquisadora judia polonesa radicada nos EUA chega a Varsóvia e vai a uma aula de uma experiente professora universitária de Filosofia. Tal reencontro não é casual: esta última negara ajuda à primeira durante a 2ª Guerra Mundial, pois, pelo fato de ser católica fervorosa, não poderia cometer falso testemunho. As lembranças que tal reencontro propicia às duas dá ao filme um contexto de exploração dos limites e das possibilidades das ações tidas por moralmente boas ou más diante das circunstâncias e o que a excepcionalidade destas pode provocar em pessoas "normais". É também um dos meus prediletos, ao lado do I e do V.
 
IX: Não desejarás a mulher do próximo
 
Um médico descobre que está sexualmente impotente. Aparentemente tem uma reação bastante "liberal" em relação à esposa, admitindo que ela, uma mulher ainda jovem, possa ter relações fora do âmbito matrimonial. Entretanto, ao se deparar com a realidade concreta de um amante na vida da mesma, o homem se vê diante de sentimentos possessivos e de ciúmes, descobrindo-se afinal machista, apesar de sua consciência e razão ser diversa. Kieslowski serve-se de um drama bastante prosaico para mostrar as dificuldades entre defender ideias e praticá-las a partir dos conflitos entre razão e emoção e todo o substrato cultural que trazemos inevitavelmente em nossas condutas.
 
X: Não cobiçarás coisas alheias
 
Um homem falece deixando uma coleção de selos como herança para dois filhos. Estes, de certo modo revoltados com tão pequeno legado, decidem vender os selos para ao menos obterem algum dinheiro. Contudo, se precipitam e o fazem sem saberem o real valor pecuniário dos selos principais que, na verdade, valiam uma fortuna. Enganados por trapaceiros, se veem naquela situação de que a ganância os fez perderem uma grande oportunidade, muito embora a estória não se resuma a isso. A cobiça como atitude é explorada com maestria por Kieslowski, mais uma vez utilizando-se do prosaico e do trivial para tratar de uma questão tão universal.
 
Embora os meus preferidos sejam o I, o V e o IX, todos os dez filmes média metragem do Decálogo de Kieslowski valem ser vistos. É incrível como alguém com tão parcos recursos financeiros e de produção consegue criar obras primas de tal monta, o que prova que a criatividade e a competência podem superar em significativa proporção essas dificuldades.
 
Kieslowski é um ícone para cineastas de talento que enfrentam as intempéries do reduzido apoio às suas produções. Ele provou que vale a pena ir em frente.

Um comentário:

Gustavo disse...

Vi que gosta de Kielowski. Grande diretor, gosto muito da trilogia das cores, em especial o filme BLEU. Outro filme dele sobre o qual quero escrever com muito cuidado é AMADOR. Excelente.