domingo, 13 de janeiro de 2013

Decálogo, de Kieslowski: I a V

A partir das ideias gerais no post anterior sobre a série "Decálogo", de Krzysztof Kieslowski, vão agora minhas impressões sobre cada um dos filmes, começando pelos cinco primeiros.
 
Cabe uma advertência: Kieslowski não nominou os filmes, apenas os numerou (Decálogo I, Decálogo II etc.), de modo que os nomes foram dados a partir das traduções, inclusive para o português. Ao que parece, não quis aprisioná-los a um único mandamento, optando por uma maior liberdade narrativa, sem, contudo, perder o foco.
 
I: Amarás a Deus sobre todas as coisas
 
Garoto de 10 anos, com a natural curiosidade que a idade lhe traz, gosta de conversar sobre a natureza das coisas com o pai, um professor universitário bastante entusiasmado com a ciência e sua capacidade de dar respostas. Ao mesmo tempo, também gosta de conversar com uma tia bastante religiosa, de fé tradicional católica e com uma visão diferente da do pai. Uma tragédia levará a reflexão sobre a insuficiência de ambas as perspectivas. Aqui Kieslowski parece colocar a angústia existencial com a incapacidade da fé e da ciência de efetivamente darem respostas a determinadas questões. É um dos meus preferidos.
 
II: Não invocarás o Santo Nome de Deus em vão
 
Uma mulher, durante grave doença de seu marido, termina por se envolver com outro homem e engravida do mesmo. Resolve praticar um aborto caso o marido se recupere e procura um experiente médico para aconselhamento. Nas idas e vindas, se vê por vezes injustiçada pela vida (ou seria por Deus?) de se encontrar em uma situação dilemática como esta. Neste segundo filme já surge uma das marcas registradas do Mestre polonês: os encontros "casuais" entre personagens de filmes diversos, pois o professor universitário do Decálogo I aparece no mesmo cenário do médico (e, é claro, ambos residem no mesmo condomínio de edifícios).
 
III: Guardarás sábados/domingos e festas
 
Na véspera do Natal, uma mulher procura o antigo amante para que ele a ajude na busca pelo seu atual esposo, que repentinamente sumira. Ele termina por abandonar a família na referida noite, inventando uma desculpa, para ajudá-la em sua busca. O descumprimento de um "dever" de estar com a família em data tão tradicionalmente associada a isso envolve desde possíveis sentimentos de inveja e egoísmo da ex-amante até a possível culpa e/ou remorso que o homem tenha em relação a ela, a ponto de fazê-lo agir de tal forma.
 
IV: Honrarás pai e mãe
 
Um viúvo e sua filha de 20 anos possuem um relacionamento bastante afetuoso. Contudo, durante uma viagem do primeiro, a descoberta de algumas cartas escritas pela mãe já falecida leva a jovem a saber que ele não é o seu pai biológico, o que a coloca diante de vários dilemas sobre o conhecimento da verdade dos fatos e o amor desenvolvido por alguém que não possuía as relações filiais de sangue, em princípio esperadas por ela em seu confortável "mundinho". Kieslowski parece aqui demonstrar que a ideia de que "pai é quem cria" nem sempre é digerida com tanta facilidade como se espera...
 
V: Não matarás
 
Esse também é um dos meus prediletos e obrigatório para quem estuda ou lida com o direito. Um homicídio brutal e sem aparente razão entrelaça as vidas de um jovem desempregado, um taxista e um advogado idealista. A brutalidade do crime mostra um grau elevado de bestialidade humana, recebendo, entretanto, do Estado polonês (aqui a referência explícita à República Popular da Polônia e suas leis) a reprimenda máxima com a pena de morte, deixando consequentemente uma aura de brutalidade também na conduta estatal. Sem panfletarismos ou maniqueísmos, Kieslowski aqui perturba os pensamentos confortáveis daqueles que defendem ou atacam o uso da violência como resposta à própria violência, mostrando que não há respostas fáceis...
 
O "Não matarás" virou longa metragem, posteriormente, com este nome.
 
Depois comento os outros cinco filmes da série.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo momento pra lembrar Kieslowski, Bruno. Parabéns pelo texto. Seria uma inspiração para organizarmos uma semana cultural na FDR só com filmes do diretor? :)
beijos, Liana