terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Estupidez em rede nacional e estímulo ao preconceito contra autistas

 
Salvo nos casos de alguns jogos de futebol interessantes e um ou outro programa eventual, não assisto TV aberta aos domingos. Considero os programas em geral de péssima qualidade, apelativos e popularescos, e incluo entre eles o intragável "Domingão do Faustão".
 
Graças a isso, não tive o desprazer de assistir ao vivo a entrevista com a psicóloga Elizabeth Monteiro no último domingo. Contudo, acabei de assinar uma petição pública da Avaaz (http://www.avaaz.org/po/petition/Que_o_Faustao_e_Elizabeth_Monteiro_se_retratem_frente_aos_pais_de_autistas_confundidoos_com_psicopatas/?fhoNnab&pv=19), repudiando as afirmações completamente ignorantes e desarrazoadas feitas por ela no referido programa televisivo. Explico-me.
 
Esta senhora que diz em seu blog pessoal ser escritora, pedagoga, psicóloga, psicopedagoga, atriz e modelo (http://elizabethmonteiro.com.br/blog/) fez uma comparação completamente esdrúxula entre portadores de síndrome de Asperger (um subtipo de autismo, considerado de alta funcionalidade) e psicopatas. Ora, não sou um profissional especialista, mas o simples fato de ser pai de um garoto com autismo, ainda que não seja considerado Asperger, me fez ler o suficiente sobre tais questões para contestar veementemente qualquer comparação, mesmo que longíqua, entre os distúrbios comportamentais ocorrentes entre autistas - Aspergers ou não - e psicopatas.
 
Segundo Scott O. Lilienfeld e Hal Arkowitz, a psicopatia foi descrita pela primeira vez em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, do Medical College da Geórgia, e consiste em um conjunto de comportamentos e traços de personalidade bem específicos. Os psicopatas são encantadores à primeira vista, causando boa impressão e são tidos como “normais” pelos que os conhecem superficialmente.

No entanto, psicopatas costumam ser egocêntricos, desonestos e indignos de confiança. Com frequência adotam comportamentos irresponsáveis sem razão aparente, exceto pelo fato de se divertirem com o sofrimento alheio. Seu sadismo não lhes permite sentir culpa. Nos relacionamentos amorosos são insensíveis e descompromissados. Muitos psiquiatras os consideram desproporcionalmente racionais em detrimento das emoções naturais ao ser humano. Sua extrema racionalidade lhes permite ter grande inteligência, ao passo que sua pouca ou nenhuma emotividade os faz profundamente insensíveis ao sofrimento humano.
 
Já os autistas têm dificuldades em expressar seus sentimentos, mas são profundamente emocionais. São extremamente sinceros, o que inclusive lhes causa embaraços sociais, pois tendem a dizer a verdade sempre, qualquer que seja ela. Normalmente têm pouca imaginação, o que dificulta ainda mais conseguirem mentir ou premeditar ações malévolas. Seus grandes problemas dizem respeito à comunicação e à sociabilidade, associados algumas vezes com distúrbios de natureza sensorial, o que pode ocasionar comportamentos repetitivos e pouco usuais. Os autistas Aspergers geralmente não tem graves problemas de linguagem e podem mesmo ter inteligência acima da média, mas ainda assim possuem dificuldades de sociabilidade e de imaginação. São demasiadamente concretistas.
 
Todavia, na esmagadora maioria dos casos, autistas - Aspergers ou não -, não são dados a comportamentos violentos. Quando estes ocorrem, são  normalmente decorrentes de reações explosivas a situações de momento, praticamente sem nenhuma premeditação ou planejamento. Posso dizer, com conhecimento de causa, que podem ser muito amorosos e carinhosos, surpreendendo nas tentativas de demonstrar o que sentem. Os pais e familiares de autistas, bem como os profissionais que lidam com eles, que leem essas linhas sabem bem do que falo.
 
Diante disso, é para mim ainda mais repulsiva essa entrevista que passa a falsa imagem de que psicopatas e autistas com Asperger tenham alguma semelhança patológica, o que é uma completa e despropositada inverdade. A sra. Elizabeth Monteiro foi extremamente irresponsável em cogitar tal comparação, ajudando na estigmatização dessas pessoas que tendem a ser vistas com preconceito ainda maior  do que já são, apesar de toda a luta em contrário empreendida pelas associações que defendem seus direitos. E o sr. Fausto Silva, bem como a direção da Globo, mostram-se igualmente irresponsáveis em chamar essa senhora para dar opiniões sobre questões que pelo visto não possui qualquer conhecimento.
 
Como tento ser meticuloso com as coisas, tive a curiosidade de verificar qual era a produção científica e "profundos" estudos acerca desses temas feitos por esta senhora, do alto de sua "enorme sabedoria" e versatilidade (confesso que me senti um medíocre quando vi que ela é "escritora, pedagoga, psicóloga, psicopedagoga, atriz e modelo", enquanto eu mal consigo ser um jurista). Busquei o seu currículo na Plataforma Lattes (parte do site do CNPQ onde obrigatoriamente devem estar relacionados os currículos e produções dos pesquisadores e cientistas brasileiros de todas as áreas do conhecimento) para verificar qual sua contribuição à psicologia ou à pedagogia e tive uma enorme surpresa: ela não possui currículo lattes... Isso mesmo: na principal agência de fomento e de dados da pesquisa científica no Brasil não há qualquer referência a essa senhora ou ao seu "magnífico" trabalho.
 
Isso demonstra o quão irresponsável foi o "Domingão do Faustão" ao chamar alguém tão desqualificada para falar desses assuntos, quando nas universidades e mesmo fora delas, há tanta gente competente que jamais diria os absurdos preconceituosos que essa senhora afirmou.
 
Contra o preconceito e a desinformação, assinemos todos a petição pública da Avaaz e nós, associações de pais e amigos de autistas, comissões de defesa das pessoas com deficiência da OAB, AMPID (promotores de justiça defensores dos direitos da pessoa com deficiência) e todos os que quiserem unir-se a essa luta, vamos pressionar a Rede Globo a uma retratação a nível nacional no mesmo espaço do referido Programa e, caso a emissora não o faça, ingressar judicialmente contra a mesma. Por muito menos que isso, a MTV se retratou quando fez a pseudocomédia "Casa dos Autistas" e deu o mesmo espaço midiático para que associações e especialistas explicassem cientificamente a síndrome.
 
Abaixo o preconceito e sua disseminação irresponsável!!!

Um comentário:

Unknown disse...

Não assisti o programa quando foi passado na tv, mas lembro de ter escutado algo sobre isso e lendo o que você escreveu fiquei extremamente revoltada. Suas palavras foram de todas as mais conscientes, explicativas, sérias e diretas ao que se trata dessa matéria. Tenho uma opinião totalmente repulsiva no quis diz respeito ao "famoso" Fausto Silva e seu entediante programa Domingão do Faustão, acho uma perda de tempo assisti-lo e nada tem a acrescentar, trata-se de um programa e um apresentador totalmente boçais, subservientes e hipócritas. Parabéns pela sua iniciativa estou apoiando-a totalmente, já assinei a petição e já divulguei em meu facebook.