sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Budapeste: impressões de viagem

Após muitos anos na "província", em outubro deste ano de 2012 tive a feliz oportunidade de voltar à Europa. Rever Lisboa e Viena e conhecer Praga e Budapeste foi gratificante e prazeroso, afinal, viajar é preciso, e ao Velho Continente ainda mais.
Não estava inicialmente planejando visitar a capital da Hungria, mas uma mudança de planos conduziu-me até lá. Não me arrependi. A cidade é muito interessante e o povo húngaro extremamente simpático e prestativo, não obstante sua língua ser realmente algo de outro mundo (lembrei logo do romance de Chico Buarque - "Budapeste" - e da referência à língua húngara como a única que o diabo respeita). Só fixei mesmo três expressões: köszönöm (se pronuncia corsonorm ou algo assim) - obrigado; kérem (pronúncia: keirrem) - por favor; e jó napot (iou nopot, creio eu) - bom dia/olá. Mas de um modo geral eles se esforçam muito para falar inglês, o que torna desnecessário se aventurar demais em seu idioma.
 
A Váci utca, rua onde ficamos, é bem central e permite acesso a muita coisa interessante de Budapeste a pé. Fica no lado de Peste (e é interessante esse aspecto, Budapeste é a junção de duas cidades, Buda e Peste, cada uma de um lado do Rio Danúbio) e com isso foi possível chegar rapidamente à Ponte das Correntes e, no outro lado, pegar o funicular até o chamado Castelo de Buda, que é, na verdade, um complexo de palácios, prédios antigos e museus, onde fica também a sede da Presidência da República. Rapidamente se conhece o chamado Bastião dos Pescadores. A vista é muito bacana, apesar de, no dia em que estava lá, chover bastante e a neblina não permitir aproveitar melhor a visão, o que terminou por prejudicar também o passeio ao monumento aos heróis fundadores da nação, cheio de estátuas grandiosas e épicas, bem como de relíquias de guerras passadas. Ainda assim, não deixamos de ir no referido monumento.
 
Com a chuva e o frio, foi inevitável tomar um bom café com sobremesa no famoso Café Gerbeaud, bem próximo à Rua Váci.
 
No dia seguinte, fez sol e um pouco de calor, mesmo sendo outono, o que me lembrou ligeiramente Recife. Foi possível ir até o Parlamento húngaro, com seu estilo neogótico, um rival do Westminster britânico, embora um pouco menos grandioso. Foi um tanto decepcionante, pois estava em obras e foi difícil tirar boas fotos ou conhecer qualquer coisa, já que também a entrada estava limitada. Paciência.
 
Conhecer a Andrássy utca e suas peculiaridades foi o programa seguinte. Essa rua é conhecida como a "Champs-Élysées" de Budapeste e, de fato, possui algumas semelhanças, principalmente no aspecto comercial. Andar por ela permite nos depararmos com fatos pitorescos que só a experiência de viajar assim, simplesmente andando à toa pelas ruas, permite. Deparamo-nos com um casamento celebrado com pompa e circunstância numa das principais esquinas da Andrássy (a celebração foi no meio da calçada mesmo, com convidados, padre e buffet, incrível) e, no momento da celebração, passou na rua um meio de transporte no mínimo curioso, o Bikebeer. Este consiste em um carro-bicicleta com 10 lugares em que os pinguços de plantão vão pedalando e bebendo cerveja, além de apreciar a cidade. Fiquei me perguntando como a Lei Seca lidaria com essa invenção aqui no Brasil...
 
Todavia, o que mais me chamou a atenção foi a chamada Casa do Terror (foto), um museu do horror praticado nos tenebrosos anos de autoritarismo pelas polícias secretas nazifascista e, posteriormente, comunista. O museu é muito interessante, mas é preciso ter estômago, não é para fracos.
 
Primeiramente, é curioso que sendo tão sombrio, seja localizado nessa avenida tão glamourosa e comercial. O Museu é paradoxal em tudo, a começar pela macabra ideia dos comunistas húngaros de fazerem do mesmo prédio onde a polícia secreta do período anterior praticava suas torturas e execuções a sede de suas ações perversas. Parece até que queriam aproveitar o expertise nazifascista em fazer o mal aos seus próprios cidadãos. Ele conta toda a história dos dois períodos e de ambas as polícias secretas, mostrando em detalhes, e com conservação de muitos dos objetos e aspectos originais, as salas de interrogatório e tortura, os locais de execução - um deles com uma forca -, as apertadas celas (uma delas, a solitária, onde o prisioneiro ficava em pé e não podia sentar, tortura assustadoramente sofisticada). Vídeos com imagens de época e depoimentos, bem como fotos das vítimas e dos torturadores, também são expostos nas paredes do Museu. Memória e verdade para valer sobre os períodos autoritários húngaros, de fazer vergonha ao anonimato e proteção que o Brasil, incluindo o seu Supremo Tribunal Federal, fornecem aos criminosos de Estado de nossa experiência autoritária recente.
 
Lembrei-me a todo momento do filme "Sunshine - o despertar de um século", do grande Diretor húngaro Isztván Szabó (com estrelas no elenco, tais como Ralph Fiennes e Rachel Weisz), totalmente ambientado em Budapeste e arredores, em 3 períodos de sua história, Império Austro-Húngaro e as ditaduras fascista e comunista.
 
À noite, um imperdível passeio pelo Danúbio, terminando com um jantar em um restaurante-barco com vistas para o rio, a Ponte das Correntes e o Castelo de Buda iluminados, foi uma experiência imperdível. É nesse e noutros momentos que aproveitei para conhecer um pouco mais da culinária local, normalmente bem condimentada e com muita páprica, tendo o goulash como carro-chefe.
 
Depois comento as outras. Um feliz ano novo a todos.


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