quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Doutor Jivago: sofrimento enquanto arte

Muitos não suportam ver um filme pela segunda vez por que sempre querem aquele "elemento surpresa" por não saberem o final. Como assumido cinéfilo, penso diferente. Para mim, um bom filme é como uma boa canção: quanto mais você ouve, mais você aprecia e nela descobre mais coisas. Ver um filme mais de uma vez traz essa vantagem de descobrir no mesmo sutilezas e percepções que dificilmente viriam com uma única exibição.

Assisti recentemente - acho que pela quarta vez - "Doutor Jivago", o grande épico e obra-prima de David Lean. É um exemplo de filme que para mim fica melhor a cada vez que o revejo.
 
Baseado no livro homônimo de Boris Pasternak (para alguns seria bastante autobiográfico), trata-se da estória de Iuri Jivago (Omar Shariff), médico russo que vive intensamente as intempéries da Rússia de seu tempo. A estória passa-se entre o período imediatamente anterior à eclosão da Revolução bolchevique de 1917 e a era stalinista imediatamente anterior à 2ª Guerra Mundial e, tal como aqueles anos, é eivada de dramas, paixões e sofrimento, mas também de singeleza e beleza, bem como a exaltação de valores humanistas e de solidariedade, e principalmente do amor.

Jivago perde seus pais muito cedo e é criado pelos tios, sendo um quase irmão de sua prima Tonya (Geraldine Chaplin), que se torna posteriormente sua esposa. Forma-se em medicina e decide fazer clínica geral, entendendo que a atividade médica assim desenvolvida abrangeria mais pessoas, demonstrando desde cedo uma visão bem humanista do ofício médico. Era também poeta e escrevia bastante, expressando em palavras sua bondade e sentimentos nobres. É um homem essencialmente bom.

Paralelamente à sua estória, desenvolve-se outra de alguém que irá encontrá-lo posteriormente e marcará sua vida para sempre: Larissa Antipova (Julie Christie), jovem estudante que, diante da sofrida trajetória de vida de sua família, se vê obrigada a um envolvimento com um homem muito mais velho que ela, Victor Komarovsky (Rod Steiger) e termina por se casar com um amigo revolucionário bolchevique, Pasha (Tom Courtenay), sem qualquer sentimento de amor por este, e apenas para se ver livre de Komarovsky.

Os caminhos de Lara e Iuri se cruzam quando, ambos casados, ficam forçadamente distantes de suas famílias e, ele como médico e ela como enfermeira, servem no front entre várias situações bélicas da 1ª Guerra e da Revolução de 1917. Apaixonam-se completamente um pelo outro e terminam por viver um tórrido romance em meio à guerra civil entre brancos e vermelhos. O romance é sofrido e tem muitos momentos dramáticos e dilemáticos, vivenciando Iuri Jivago a notícia da deportação de sua família (Tonya e seus filhos) e o apego a Lara como uma tábua de salvação humana e emocional para si. O desfecho é igualmente dramático, mas não vou contá-lo, pois se o leitor ainda não assistiu , estragaria a surpresa (esta de fato é essencial para a primeira vez que o vemos).

Dentre as coisas que acho profundamente interessantes no filme é a situação dilemática que Iuri Jivago vive em relação às "suas" duas mulheres: diferentemente do que feministas apressadas possam pensar, ele não é um cafajeste, nem mesmo um mulherengo; apenas se viu circunstancialmente envolvido em uma situação de mistura de sentimentos que fugia e foge das padronizações que tentamos dar a eles a partir da criação de modelos ideais de relações humanas e amorosas. Ele é profundamente devotado e dedicado à esposa Tonya e aos filhos, nutrindo amizade, respeito e consideração por ela. Preocupa-se genuinamente com ela e com seus sentimentos. Não obstante isso, as situações de distância prolongada forçada o fazem descobrir outra mulher apaixonante e virtuosa, que arrebata passional e avassaladoramente seu coração. Embora atencioso e dedicado a Tonya, Lara é de fato o grande amor de sua vida e ele não consegue escapar disso. Até tenta, mas não consegue.

A produção do filme é extraordinária para a época (1965) e as imagens são lindas, ainda mais com a igualmente belíssima música de Maurice Jarré, com destaque para o "Tema de Lara", com sons de balalaika e tudo o mais. As interpretações no filme são intensas, como intenso é o filme, como intenso é o sofrimento nele. Omar Shariff e Julie Christie (esta talvez a mulher mais bonita da história do cinema) estão esplêndidos, mas não dá para ignorar Rod Steiger, igualmente magnífico como Victor Komarovsky, bem como Alec Guiness que interpreta Yevgraf Jivago, o meio-irmão do protagonista. Foi rodado entre a Espanha e a Finlândia, pois a então União Soviética não permitia que um filme com o teor crítico ao regime que ele continha fosse lá produzido.
 
Interessante que "Doutor Jivago" venceu 5 Oscars (roteiro adaptado, fotografia, direção de arte, trilha sonora original, figurino), mas não levou o de melhor filme, perdendo para - pasmem - "A Noviça Rebelde". Muitos dizem que a Academia ainda estava bastante macarthista e, naqueles tempos de Guerra Fria, o simples fato de se tratar da Rússia como um país interessante, de se mostrar russos bons, humanos e poetas, seria suficiente para impedir sua vitória no Oscar. Lamentável e talvez uma das maiores injustiças da história das premiações no topo máximo da cinematografia.

"Doutor Jivago" é um clássico, mas é muito mais do que isso. É um épico humano, profundo, sofrido e belo. Como a arte. Como a vida.

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