sexta-feira, 6 de abril de 2012

Direitos humanos e justiça transicional - parte III

      2. Nuremberg paradigmático: os crimes de lesa humanidade

A definição sobre o que vem a ser os crimes contra a humanidade é crucial no debate sobre justiça transicional, já que sem tal noção, os referidos atos seriam, ao menos em tese, fundamentados no ordenamento jurídico vigente, bem como no poder das autoridades estatais que os ordenaram.

Normalmente a referência paradigmática fundamental é o Tribunal Militar Internacional, estabelecido pelos Aliados vencedores da 2ª Guerra Mundial na cidade alemã de Nürnberg, ou Nuremberg, como é mais conhecida. Contudo, Weichert e Fávero apontam para o anterior Tratado de Sèvres, ainda no final da 1ª Guerra, quando se condenou o até hoje polêmico massacre da minoria armênia na Turquia, na 2ª década do século XX (Weichert & Fávero: 2009, pp. 517-518).

Não obstante a relevante observação dos autores suprarreferidos, não é por mero acaso que o Tribunal de Nuremberg se tornou paradigmático. No famoso julgamento dos criminosos nazistas, em que pesem as críticas ao caráter de tribunal de exceção e do estabelecimento de uma aparente retroatividade da lei penal internacional (em referência aos crimes de lesa humanidade) em desfavor dos réus, não foi um mero julgamento unilateral dos vencedores da guerra contra os vencidos: as regras básicas do contraditório e do devido processo legal foram respeitadas (ainda que a defesa não tenha tido o mesmo tratamento que a acusação), os réus tiveram oportunidade de expor seus argumentos, tendo sido vários deles levados em consideração, bastando analisar o resultado do julgamento. Ao invés do fuzilamento dos líderes vencidos, como era comum nas guerras até então ocorridas, o julgamento diferenciou as responsabilidades de cada um dos 22 líderes nazistas levados ao Tribunal, assim como suas respectivas penas: foram doze condenações à morte, três à prisão perpétua, duas a vinte anos de prisão, uma a 15, outra a 10 e ainda ocorreram três absolvições (Gonçalves: 2001, pp. 343-347).

O mais importante, todavia, para os limites do presente trabalho, foi o legado nuremberguiano acerca do conceito de crimes contra a humanidade. Antes um conceito diluído no direito internacional consuetudinário, recebeu do Estatuto do Tribunal, em seu art. 6º, c, a definição de que tais delitos seriam o homicídio, o extermínio, a escravidão, e outros atos desumanos cometidos contra a população civil antes ou durante a guerra, ou perseguições baseadas em critérios raciais, políticos e religiosos, para a execução de crimes ou em conexão com crimes que sejam da competência do Tribunal, independentemente de terem sido ou não praticados em violação do direito interno do país onde foram perpetrados (Piovesan: 2006, p. 34; Weichert & Fávero: 2009, p. 518; Lopes: 1999, p. 500).

A referida definição foi inspiradora de uma nova posição do indivíduo no âmbito internacional: a possibilidade de estipulação de direitos e deveres aos indivíduos diretamente pelo direito das gentes sem escusas de direito nacional foi gradativamente se sedimentando, sendo reiteradamente reafirmada pela legislação internacional positiva universal e regional, pela Comissão de Direito Internacional e Assembleia Geral da ONU, bem como pelos diversos tribunais internacionais, tanto as Cortes Europeia e Interamericana de Direitos Humanos, como os tribunais penais internacionais ad hoc (Iugoslávia e Ruanda) (Trindade: 2004, pp. 219-225).[1]

O paradigma nuremberguiano também foi reafirmado no texto do art. 7 do Estatuto de Roma que, em 1998, instituiu o Tribunal Penal Internacional de caráter permanente.[2] Para os julgamentos a serem realizados nesta Corte, será considerado o texto abaixo, que, como é frequente no direito internacional, consolida entendimentos reiterados ao longo da segunda metade do século passado sobre os crimes de lesa humanidade. O dispositivo está assim redigido:

1. A los efectos del presente Estatuto, se entenderá por “crimen de lesa humanidad” cualquiera de los actos siguientes cuando se cometa como parte de un ataque generalizado o sistemático contra una población civil y con conocimiento de dicho ataque:
a) Asesinato;
b) Exterminio;
c) Esclavitud;
d) Deportación o traslado forzoso de población;
e) Encarcelación u otra privación grave de la libertad física en violación de normas fundamentales de derecho internacional;
f) Tortura;
g) Violación, esclavitud sexual, prostitución forzada, embarazo forzado, esterilización forzada o cualquier otra forma de violencia sexual de gravedad comparable;
h) Persecución de un grupo o colectividad con identidad propia fundada en motivos políticos, raciales, nacionales, étnicos, culturales, religiosos, de género definido en el párrafo 3, u otros motivos universalmente reconocidos como inaceptables con arreglo al derecho internacional, en conexión con cualquier acto mencionado en el presente párrafo o con cualquier crimen de la competencia de la Corte;

i) Desaparición forzada de personas;
j) El crimen de apartheid;
k) Otros actos inhumanos de carácter similar que causen intencionalmente grandes sufrimientos o atenten gravemente contra la integridad física o la salud mental o física.
2. A los efectos del párrafo 1:
a) Por “ataque contra una población civil” se entenderá una línea de conducta que implique la comisión múltiple de actos mencionados en el párrafo 1 contra una población civil, de conformidad con la política de un Estado o de una organización de cometer ese ataque o para promover esa política;
b) El “exterminio” comprenderá la imposición intencional de condiciones de vida, entre otras, la privación del acceso a alimentos o medicinas, entre otras, encaminadas a causar la destrucción de parte de una población;
c) Por “esclavitud” se entenderá el ejercicio de los atributos del derecho de propiedad sobre una persona, o de algunos de ellos, incluido el ejercicio de esos atributos en el tráfico de personas, en particular mujeres y niños;
d) Por “deportación o traslado forzoso de población” se entenderá el desplazamiento forzoso de las personas afectadas, por expulsión u otros actos coactivos, de la zona en que estén legítimamente presentes, sin motivos autorizados por el derecho internacional;
e) Por “tortura” se entenderá causar intencionalmente dolor o sufrimientos graves, ya sean físicos o mentales, a una persona que el acusado tenga bajo su custodia o control; sin embargo, no se entenderá por tortura el dolor o los sufrimientos que se deriven únicamente de sanciones lícitas o que sean consecuencia normal o fortuita de ellas;
f) Por “embarazo forzado” se entenderá el confinamiento ilícito de una mujer a la que se ha dejado embarazada por la fuerza, con la intención de modificar la composición étnica de una población o de cometer otras violaciones graves del derecho internacional. En modo alguno se entenderá que esta definición afecta a las normas de derecho interno relativas al embarazo;
g) Por “persecución” se entenderá la privación intencional y grave de derechos fundamentales en contravención del derecho internacional en razón de la identidad del grupo o de la colectividad;
h) Por “el crimen de apartheid” se entenderán los actos inhumanos de carácter similar a los mencionados en el párrafo 1 cometidos en el contexto de un régimen institucionalizado de opresión y dominación sistemáticas de un grupo racial sobre uno o más grupos raciales y con la intención de mantener ese régimen;
i) Por “desaparición forzada de personas” se entenderá la aprehensión, la detención o el secuestro de personas por un Estado o una organización política, o con su autorización, apoyo o aquiescencia, seguido de la negativa a admitir tal privación de libertad o dar información sobre la suerte o el paradero de esas personas, con la intención de dejarlas fuera del amparo de la ley por un período prolongado.
3. A los efectos del presente Estatuto se entenderá que el término “género” se refiere a los dos sexos, masculino y femenino, en el contexto de la sociedad. El término “género” no tendrá más acepción que la que antecede.[3]



O texto normativo de certo modo consolida e sintetiza os entendimentos contemporâneos sobre o conteúdo dos crimes de lesa humanidade, atualizando o legado de Nuremberg (Teitel: 2003, p. 23)."

Continua...

[1] Embora o sempre merecidamente citado Hans Kelsen já tenha previsto esta situação de responsabilização individual antes mesmo do julgamento de Nuremberg, mais precisamente em obra publicada em 1944 nos EUA, quando estipula aquilo que Massimo La Torre e Cristina García Pascual vão denominar de “utopia realista”, com várias implicações e antevisões para o direito internacional do Pós-Guerra (Kelsen: 2003, passim).
[2] Em funcionamento desde 2002, a partir da 60ª ratificação. Cf. http://www.un.org/spanish/law/icc.
[3] Versão oficial em espanhol, disponível em http://www.un.org/spanish/law/icc/statute/spanish/rome_statute(s).pdf, acesso em 02/12/2010.

Nenhum comentário: