domingo, 25 de dezembro de 2011

A seletividade ideológica: entre cegueira e cinismo

"19 de dezembro de 2011
Estimado camarada Kim Jong Un
Estimados camaradas do Comitê Central do Partido do Trabalho da Coréia

Recebemos com profundo pesar a notícia do falecimento do camarada Kim Jong Il, secretário-geral do Partido do Trabalho da Coreia, presidente do Comitê de Defesa Nacional da República Popular Democrática da Coreia e comandante supremo do Exército Popular da Coreia.

Durante toda a sua vida de destacado revolucionário, o camarada Kim Jong Il manteve bem altas as bandeiras da independência da República Popular Democrática da Coreia, da luta anti-imperialista, da construção de um Estado e de uma economia prósperos e socialistas, e baseados nos interesses e necessidades das massas populares.

O camarada Kim Jong Il deu continuidade ao desenvolvimento da revolução coreana, inicialmente liderada pelo camarada Kim Il Sung, defendendo com dignidade as conquistas do socialismo em sua pátria. Patriota e internacionalista promoveu as causas da reunificação coreana, da paz e da amizade e da solidariedade entre os povos.

Em nome dos militantes e do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) expressamos nossas sentidas condolências e nossa homenagem à memória do camarada Kim Jong Il.

Temos a confiança de que o povo coreano e o Partido do Trabalho da Coreia irão superar este momento de dor e seguirão unidos para continuar a defender a independência da nação coreana frente às ameaças e ataques covardes do imperialismo, e ao mesmo tempo seguir impulsionando as inovações necessárias para avançar na construção socialista e na melhoria da vida do povo coreano.

Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB e Ricaro Abreu Alemão secretário de Relações Internacionais do PCdoB"

A nota oficial acima, proveniente de um dos mais tradicionais partidos brasileiros (aliás, um dos poucos que podem ser considerados ideológicos e programáticos, longe do mero oportunismo eleitoreiro), demonstra aquilo que costumo denominar de seletividade ideológica. Explico-me: o fanatismo e o extremismo ligado a muitos dos ideólogos faz com que em nome da ideologia defendida se faça uma curiosa acepção de fatos e interpretações dos mesmos. Apenas para ficar em exemplos mais clássicos, se o sujeito é "de direita", afirma que o comunismo é um regime criminoso que levou milhões de pessoas à morte, bem como torturou e perseguiu outras tantas. Contudo, ignora, minimiza ou até justifica ações autoritárias de governos fascistas e/ou de direita mundo afora. O oposto também ocorre. Se o cidadão é "de esquerda", as atrocidades dos governos militares da América Latina, p. ex., são abomináveis, mas aquelas cometidas por Cuba, União Soviética ou pelos antigos regimes comunistas do leste europeu são ou "fruto da conspiração da mídia capitalista e imperialista" ou justificáveis pela finalidade de construção de um regime socialmente mais justo, seja lá o que isso signifique.

A nota do PC do B reflete isso. Muitos militantes desse partido foram vítimas de algumas das maiores atrocidades da ditadura militar brasileira, como no caso da Guerrilha do Araguaia, recentemente objeto de condenação do Estado brasileiro na Corte Interamericana de Direitos Humanos. O PC do B reclama, e com razão, os mortos e desaparecidos desse episódio, bem como condena os atos arbitrários, as torturas e as execuções perpetradas pelos militares brasileiros da época e seus colaboradores. É um partido que historicamente sempre foi perseguido e vítima do autoritarismo no Brasil.

Contudo, é acometido da seletividade ideológica da qual falamos. Condena os atos da ditadura brasileira, do regime de Pinochet no Chile, dos franquistas na Espanha e do salazarismo em Portugal, bem como dos nazistas e fascistas em geral. Mas fecha os olhos ou minimiza as gigantescas atrocidades cometidas por "camaradas" da mesma ideologia como Stalin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro ou, como na nota transcrita, os "camaradas" Kim Il Sung, Kim Jong Il e agora Kim Jong Un da estranha e bizarra dinastia comunista (algo profundamente antitético e contraditório) da Coreia do Norte.

Esse país dispensa maiores comentários. Além de ser um dos mais (se não o mais) fechados países do mundo, avesso a debater seus problemas e a admitir os erros de sua classe governante, possui todos os ingredientes das clássicas ditaduras totalitárias (a partir das reflexões de pensadores como Hannah Arendt, Karl Popper e Franz Neumann): culto à personalidade do líder (a foto deste post é bem sintomática a respeito), partido único, inexistência de oposição organizada e legalizada, terror e espionagem generalizados contra seus próprios cidadãos, polícia política, doutrinação marxista-leninista com a interpretação dos líderes norte-coreanos com exclusão de qualquer outra teoria ou doutrina. O stalinismo continua vivo no totalitarismo norte-coreano onde os "crimes políticos" podem ser objeto até de condenação à morte. Relatos dos poucos fugitivos que conseguem êxito do regime demonstram a existência de campos de concentração, denominados ironicamente de "campos de trabalho" ou "de reeducação" (lembremos do Arbeit macht frei de Auschwitz), não obstante o país inteiro ser, de certo modo, um grande campo desse tipo.

Jamais diria que o imperialismo norte-americano não existe ou que tudo o que os EUA defendem seria em nome da liberdade. Todavia, acredito ser inaceitável que, pelo fato de se ser anti-EUA, se possa defender um regime tão autoritário como o da Coreia do Norte, chegando a chamar de "economia próspera" um país que mata milhares de seus cidadãos de fome para aparelhar suas forças armadas e sua classe dominante (a cúpula do Partido).

Não obstante o profundo respeito que nutro por vários dos militantes do PC do B que conheço e admiro (muitos são pessoas sérias e honestas muito acima da média da política nacional) vejo a nota desse Partido como algo tragicômico. É do tipo "se a realidade contraria minha doutrina, dane-se a realidade", demonstrando uma extrema cegueira ideológica da maioria de seus militantes (se realmente a nota reflete o pensamento majoritário da referida agremiação partidária) ou, o que seria ainda pior, um  oportunista cinismo (no sentido pejorativo mesmo e não no sentido grego antigo) por meras conveniências político-ideológicas.

Os leitores desse blog sabem que, destarte o fato de me considerar um sujeito de esquerda, sou avesso a ditaduras e regimes autoritários, seja de que coloração ideológica forem (sou democrata antes de ser de esquerda). O extremismo autoritário só conduz à opressão e à aniquilação das liberdades e, se estas são suprimidas, de nada adiantam os demais direitos. Com a falta de liberdade, sequer saberíamos se esses realmente são respeitados, como infelizmente foi e é comum nos regimes comunistas.

Sinceramente não festejo nem lamento a morte de Kim Jong Il. Não festejo por que não tenho por hábito festejar mortes de quem quer que seja, ainda mais em um caso destes em que aparentemente não trará mudanças relevantes para o povo da Coreia do Norte. E não lamento por que acho que o mundo não perde nada com a morte de um governante autoritário como ele.

Feliz Natal a todos.

2 comentários:

LUIZ CARLOS disse...

GOSTEI DO QUE LÍ. MUITO BEM ARTICULAD!O. PARABÉNS

Leonardo Almeida disse...

Concordo com isso, e já escrevi em algum lugar sobre o conceito de "seletividade estratégica institucional", ou seja, a forma como certos discursos, em um contexto social, adquirem peso e circulação mais favorável em detrimento de outros. Em um nível geral, no entanto, garante-se a pluralidade ideológica e livre-discussão.

Não creio que seja possível eliminar completamente qualquer resquício dessa seletividade. Até porque, bem, não precisamos falar tanto dos totalitarismos assim para observamos a quantidade de desgraças realizadas, ao nível internacional, por potências econômicas. Basta mencionar que, sob o julgo colonial, mais de 3 milhões morreram de fome em Bengala, na Índia, e esses detalhes hoje são apenas algumas vírgulas na longa história do século vinte.

Gostei muito do seu texto, professor.