quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Imortal Renato Russo, 15 anos depois

Não sou muito afeito a saudosismos do tipo "no meu tempo tudo era melhor", até por que acredito que os grandes talentos surgem em todo e qualquer tempo e em todas as gerações teremos música e poesia de melhor e de pior qualidade. Contudo, em um ponto concordo com os saudosistas de minha geração, aqueles que estão se aproximando dos 40 anos: Renato Russo faz falta, e muita.

Como se estivesse fazendo uma "crônica de uma morte anunciada", no caso a sua própria, afirmou, cantando, que "os bons morrem jovens". De fato, a AIDS não deixou Renato envelhecer: no dia 11 de outubro de 1996, o poeta brasiliense nos deixava aos 36 anos de idade. Apesar disso, sua música e poesia parecem imortais e até mesmo as novas gerações curtem-nas quase como se fossem meus contemporâneos (já cansei de ver alunos meus, jovens com 19, 20 anos, com camisas do Legião Urbana).

Meu primeiro contato com a música do Legião Urbana e do seu líder foi ainda garoto ouvindo "Eduardo e Mônica". Canção aparentemente boba, eu gostava de utilizá-la para brincar com um amigo que se chamava Eduardo (na canção, Eduardo é um bobão e Mônica é bem esperta). Ainda que possa ser considerada tola diante de uma série de outras músicas dele(s), há uma frase que ecoa nos corações e mentes que já ouviram esta canção: "quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração, e quem irá dizer que não existe razão".

Algum tempo depois, comprei o disco (na época ainda vinil) "Dois" e fiquei encantado, mesmo ainda no início de minha adolescência. "Tempo perdido", "Fábrica", "Baader-Meinhof Blues", "Quase sem querer", "Índios" se tornaram verdadeiros hinos. Depois veio "Que país é este?" (disco e música) e até hoje a letra desta canção é atual. "Faroeste Caboclo", uma das maiores letras já feitas em termos quantitativos (se não a maior) está virando filme. 

Contudo, o álbum que mais me encantou de Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos foi "As quatro estações", lançado em 1992. Esse é o melhor de todos, em minha opinião. Suas canções se tornaram hinos poéticos e Renato aí estava no seu auge. "Há tempos", "Pais e filhos", "Monte castelo", "Meninos e meninas", "Se fiquei esperando o meu amor passar", "Quando o sol bater na janela do teu quarto" fazem parte desse maravilhoso álbum.

Paralelas às atividades do Legião Urbana, Renato Russo também incursionou pela carreira solo, gravando, dentre outros, dois belíssimos álbuns de canções de outrem, "The stone wall celebration concert" e "Equilibrio distante", cantando em outros idiomas (inglês e italiano, respectivamente).

Não teve tempo para muitas outras coisas. Retraído, tímido, introvertido, suas canções eram retrato de seus momentos bons e maus. A bela melancolia de suas últimas joias poéticas prenunciaram que algo não ia bem e "há tempos", precisamente 15 anos, Renato Russo nos deixava fisicamente, surpreendendo a todos, pois não falava publicamente de sua doença, como fez, p. ex., Cazuza, alguns anos antes.

Foi, mas deixou sua poesia. Sem usar palavras rebuscadas ou erudição distante, não obstante ser intelectualizado e politizado, utilizava palavras simples e compreensíveis por qualquer um para fazer e divulgar reflexões de grande profundidade. É um poeta único, o maior de nossa geração e um dos maiores do Brasil de todos os tempos.

Abaixo duas de suas tantas obras-primas. Obrigado, Renato, pelo legado que nos deixou.

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã,
Porque se você parar pra pensar, na verdade não há!"

Parece cocaína mas é só tristeza, talvez tua cidade
Muitos temores nascem do cansaço e da solidão
E o descompasso e o desperdício herdeiros são
Agora da virtude que perdemos.

Há tempos tive um sonho
Não me lembro não me lembro

Tua tristeza é tão exata
E hoje em dia é tão bonito
Já estamos acostumados
A não termos mais nem isso.
Os sonhos vêm
E os sonhos vão
O resto é imperfeito.

Disseste que se tua voz tivesse força igual
À imensa dor que sentes
Teu grito acordaria
Não só a tua casa
Mas a vizinhança inteira.

E há tempos nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só o acaso estende os braços
A quem procura abrigo e proteção.

Meu amor, disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem
E ela disse:
- Lá em casa têm um poço mas a água é muito limpa. 

Estatuas e cofres e paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender

Dorme agora
É só o vento lá fora
Quero colo, Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo, tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três

Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito

É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há

Me diz porque o céu é azul
Explica a grande fúria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com os meus pais

É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há

Sou a gota d'água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não entendem
Mas você não entende seus pais

Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?

3 comentários:

Anônimo disse...

Meu irmão, muito bom! Suas análises foram dignas dos melhores críticos/comentaristas musicais. Nelson Mota que se cuide, hein?!
Mas, falando sério, dei uma boa viajada agora, relembrando meus primeiros acordes de violão, onde me debruçava nas músicas do Legião por serem simples de ser tocadas, e ao mesmo tempo geniais, complexas e fantásticas nas suas mensagens... Assim como o velho Raul, continua impressionante o número de vezes que estamos num local e escutamos alguém gritando: "toca Legião!!!"
Abraços
Romeu Galindo

cctv karachi disse...

I like the design of your blog very much. It looks like a page from fairy tale. I’m really impressed!

Valéria França disse...

Muito bom!!!