terça-feira, 4 de outubro de 2011

Caso Rafinha Bastos: a censura ao "mau gosto"

Há algum tempo acompanho quando posso o Programa CQC. Acho que eles produzem um programa de boa qualidade que sai do lugar comum que se tornaram os humorísticos brasileiros. Apesar disso, acredito que foram realmente de muito mau gosto e ofensivas as piadas feitas por Rafinha Bastos, um de seus integrantes, a respeito de Daniela Albuquerque, esposa do proprietário da Rede TV e apresentadora do Dr. Hollywood e principalmente da cantora Wanessa Camargo (falavam sobre a sua gravidez e Bastos afirmou que "comeria ela e o bebê"). A última piada foi motivo para afastamento de Bastos do Programa, sendo ele alvo de críticas de Marco Luque, colega do próprio CQC, e os blogs e jornais noticiam fartamente que tal ocorreu por causa da ameaça do corte de patrocínios por influência do marido de Wanessa Camargo e de Ronaldo "Fenômeno", ex-jogador, bem como do próprio Luque.


Diante disso, indago: o mau gosto, pelo simples fato de sê-lo, merece ser punido?


Sinceramente, fico muito preocupado com essas atitudes de censura (para mim, não há outro nome para isso) ainda existentes no país, sob a pecha do discurso "politicamente correto" (ainda que a censura, neste caso, não seja proveniente do governo e sim da própria empresa). O pior é que neste caso, parece que a correção política foi um mero pretexto: Rafinha Bastos não saiu por fazer piadas de mau gosto e sim porque "mexeu com quem não devia". Ou seja, interesses puramente pessoais por parte de uns e econômicos por parte de outros determinaram a censura a Rafinha Bastos, tornando-o indevidamente uma espécie de baluarte da liberdade de expressão.


O mau gosto é algo despejado cotidianamente nos humorísticos, na música e nos programas de rádio e televisão. Escrachos e "pérolas" politicamente incorretas são vistas e ouvidas em "canções" de funk carioca do tipo "só as cachorras", "vai Serginho" ou "tô ficando atoladinha", assim como naquelas bandas de "forró" eletrônico, "hinos" como "vou lhe dar o meu cuelhinho (sic - assim mesmo com 'u')", com uma coreografia em que a dançarina vestida de coelho e com as nádegas à mostra, batia com estas no rosto do dançarino.

Eu acho tudo isso aí de péssimo gosto. Jamais compraria um CD ou um DVD com tais conteúdos. Contudo, não quero que ninguém me diga do que devo ou não gostar e se alguém acha isso bacana ou bonito, que compre e curta, desde que não incomode quem não comunga de seu gosto. Do mesmo jeito que essas pessoas gostam disso, eu gosto do Iron Maiden, do Metallica, do Coldplay e do U2, bem como de Mozart, Bach e Beatles, de Astor Piazzola e de Renato Russo/Legião Urbana. Muita gente pode não gostar, mas a solução é simples: basta não comprar os produtos nem ir aos shows ou assisti-los. Na TV, o controle remoto tem uma imensa utilidade nesse particular.

Nesse ponto, acho que minha visão é bem liberal e quase anárquica: conquistamos a duras penas o direito a se expressar livremente e em princípio ele deve prevalecer. Se Wanessa Camargo e seu esposo se sentiram ofendidos, têm todo o direito de processar o humorista e o Programa por danos morais, o poder judiciário está aí para isso mesmo. Mas a atitude censória da Band de crucificar Bastos e impor-lhe um castigo público é lamentável, tendo por efeito positivo apenas escancarar que o CQC no final das contas não passa de puro business: liberdade de expressão passou longe dali.

É uma pena. Um dos melhores e mais inteligentes programas de humor da atualidade tende a se deteriorar para se adequar ao "politicamente correto", pois ainda que a questão particular esteja por trás, o recado é que a criatividade de seus membros será patrulhada. Certamente ficará chato e sem graça com o tempo, pois os seus integrantes tendem a se sentir "pisando em ovos", sem liberdade para criar o escracho necessário ao riso. Aconteceu com o Casseta e Planeta, outrora um programa muito bom, mas que terminou por ser "domesticado" pela Globo. Só vai nos restar o Pânico na TV e seu humor bem menos inteligente, mas seguramente muito anárquico e suficientemente non sense para pelo menos afastar a monotonia do humor "comportadinho" e "politicamente correto" que está tornando enfadonho ao extremo o humorismo brasileiro.

E falando em humor anárquico, Rafinha Bastos perdeu o lugar no CQC, mas não perdeu a oportunidade de escrachar em sua resposta à polêmica. De forma sarcástica e irônica, não se rendendo ao mau humor, colocou as fotos acima publicadas em seu twitter, se dizendo "muito triste" por não estar naquele momento na bancada do Programa...

Pelo visto, o mau gosto de Rafinha Bastos realmente se restringe às piadas...

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