segunda-feira, 11 de julho de 2011

"Meia Noite em Paris": o que tantos gênios disseram a Woody Allen

Há mais de um ano que não fazia algo que adoro: ir ao cinema. Na última terça, voltei em grande estilo: fui ver o novo filme de Woody Allen, "Meia Noite em Paris".

A satisfação foi muito além da encomenda: não é somente mais um filme de Allen, o que já seria em tese muito bom. É um dos melhores, senão o melhor filme que o diretor novaiorquino já fez. Mesmo quem não gosta tanto de seu estilo, possui motivos de sobra para sair do cinema leve, bem humorado e com uma enorme sensação de bem-estar. E quem gosta, tende a admirar ainda mais sua inteligência e principalmente sua imaginação e criatividade que parecem inesgotáveis.

Nesta nova empreitada, Allen se rende ao realismo fantástico, retornando a um enredo a la "Rosa Púrpura do Cairo", só que muito melhorado. Trata-se da estória de Gil Pendler, roteirista norte-americano de filmes que sonha em ser escritor, não obstante ser bem sucedido no que faz no cinema. Está em Paris de férias com a noiva e os pais dela e considera a cidade profundamente inspiradora para a literatura. Nostálgico, sonha como seria viver na Paris dos anos 20 do século passado e lá encontrar grandes escritores como Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e artistas como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Luis Buñuel e Cole Porter. Ao se perder na noite parisiense, seu sonho se realiza com uma inusitada volta a esse passado e a todos esses personagens. Dialoga com os mesmos pedindo suas opiniões sobre o romance que está escrevendo e retorna ao presente durante o dia, convivendo com a noiva e seus amigos e pais que não dão muita importância à sua atividade literária.

O contato intertemporal faz Gil perceber que a "saudade de um tempo que não vivi" também existe em sua belle époque dos anos 20. A sua musa vintenária (aliás, não somente sua), Adriana, também sonha com a belle époque do século XIX, onde juntamente com Gil encontram Gauguin e Degas que, por sua vez, acreditam que a Renascença era a verdadeira idade de ouro. O tempo de outrora que não vivemos parece ter sido sempre melhor que o nosso.

Os diálogos com Dalí e Buñuel são engraçadíssimos e bastante surreais, principalmente quando o primeiro acha normal Gil vir de 2010, após um debate sobre rinocerontes. As conversas com Hemingway e Gertrude Stein também são muito sugestivas e permitem tiradas sarcásticas e mesmo filosóficas que nos faz pensar como seria de fato um diálogo  entre todas essas pessoas geniais e esse gênio do cinema ("o que tantos gênios diriam a Woody Allen", parafraseando o filósofo espanhol Juan Antonio Rivera, autor de "O que Sócrates diria a Woody Allen").

O sarcasmo e a ironia com o pseudointelectualismo esnobe também está no tempo presente quando Gil se irrita com o "palestrante da Sorbonne", amigo de sua noiva (que afinal deseja-a), que é o "especialista em tudo", de vinhos à história da arte. É incrivelmente pitoresca a cena em que ele é desmentido por Gil diante de um quadro de Picasso que, em suas incursões intertemporais noturnas, vira o próprio pintor espanhol explicar as razões e o significado daquele mesmo quadro, mostrando de fato o engodo que o "especialista em tudo" protagonizava.

Ao fim, a paixão pela Cidade Luz é avassaladora e Gil parece se convencer em viver uma nova belle époque parisiense, ainda que imprevisível e com charme distinto das anteriores idades de ouro, pois "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia".

Destaques para o desempenho de Adrien Brody ("O Pianista"), um Salvador Dalí muito original, e principalmente Marion Cotillard ("Piaf"), talvez a melhor atuação do filme, a Adriana inspiradora de Picasso.

Simplesmente maravilhoso. Com bom humor e toques românticos, sem se tornar meloso ou piegas, Woody Allen dá a todos os amantes do cinema e das artes em geral um lúdico presente com essa original e divertida joia cinematográfica.

Magnífico!

2 comentários:

Saulo Calado disse...

O filme é brilhante!! Mais uma vez, por trás do romance e do humor inteligente, ele deixa uma reflexão. Eu mesmo saí da sala pensando: "daqui a uns 70 anos vai ter gente dizendo que queria ter vivido os primeiros anos do segundo milênio... será?". xD

Leonardo Almeida disse...

Um dos melhores filmes recentes de Woody Allen, apesar de eu ser muito suspeito para falar isso. Humor muito refinado, além de imagens belíssimas de Paris. Um filme memorável e que merece os elógios que está recebendo.