sábado, 18 de dezembro de 2010

Warat: quando a genialidade encontra a sensibilidade



Este foi um ano especialmente difícil para mim por razões que por ora não me sinto à vontade para expor. E enquanto fico "na torcida" para que 2010 termine (apesar de admitir que os anos não deixam de ser simbologias, como quase tudo na vida), eis que vem uma notícia que me entristeceu deveras: o grande Prof. Luis Alberto Warat deixou este mundo na última quinta, dia 16.

Há cerca de dois anos, em 14/11/2008, tive oportunidade de aqui mesmo no blog, postar um texto em homenagem ao grande Mestre, de modo que não estou nesta nova homenagem, agora póstuma, fazendo qualquer "necrofilia da arte", como diria Caetano Veloso. Tive a feliz oportundidade de reverenciá-lo ainda em vida.

Contudo, não dá para negar que como jurista, Warat foi um artista. A arte com a qual escreveu seus textos jusfilosóficos e realizou suas conferências deixará muitas saudades desse "jurista baiano", como se autointitulava, apesar de ser brasileiro naturalizado e argentino de nascimento.

Em minha modesta opinião, Warat foi o mais original jurista da América Latina em todo o século XX. Em tempos de "samba de uma nota só" e "mais do mesmo" jurídicos, o "gordo", como carinhosamente chamado pelos amigos, foi um pensador invulgar, ousado, capaz de com sua palavra mordaz e ferina, abalar estruturas ilusoriamente sólidas do mundo do direito. Ao mesmo tempo, não era um simples desconstrutivista: a percepção da ausência da sensibilidade no mundo jurídico o fez dedicar-se às questões humanistas de um modo diferente, trazendo os aspectos psicológicos e psicanalíticos mais amplos para o debate jusfilosófico. A presença do amor, da magia, do surreal, do desejo e até de suas várias "ecologias" seriam impensáveis no direito sem as singulares reflexões de Warat.

No meio jurídico e filosófico há muitos eruditos (alguns nem tanto assim) metidos a gênios, que confundem erudição com genialidade. Eurditos talvez até tenhamos em quantidade razoável. Gênios, contudo, com arroubos criativos verdadeiros, quase nenhum. Quem conheceu Warat, contudo, pode afirmar que conheceu ao menos um dos pouquíssimos e verdadeiros gênios do mundo jusfilosófico.

Apesar dele ter nos deixado, ainda bem que tive a felicidade de conhecê-lo e com ele trocas ideias e impressões pessoais, ainda que não com demasiada frequência.

Conheci Warat em 1999, quando praticamente iniciava minha ainda curta carreira docente. Até então, ele era para mim um ilustre desconhecido, dos que ouvimos falar mas não lemos. Um amigo em comum, Albano Pêpe, o trouxe a Pernambuco para alguns eventos sobre as relações entre mediação e sensibilidade. Não obstante eu ser então um completo neófito, Warat conversou comigo com a mesma atenção e gentileza com que conversou com todas as outras pessoas que estavam nos eventos, sem discriminação titulatória ou de saberes.

Fiquei com vergonha de na época ainda não tê-lo lido e fui às suas obras. Foi uma das melhores coisas que já fiz: descobri que aquele simpático e bonachão Professor havia produzido a obra mais original que um jurista do nosso tempo poderia conceber.

Seus lampejos de genialidade não conseguem aprisioná-lo a rótulos, embora ele dizia ser um "jurista baiano", porque, destarte ser argentino, era o único jurista no mundo que pensava o direito a partir dos paradigmas do candomblé e da ficção literária de Jorge Amado.

Para muitos, Warat era um "gozador", um "porra louca". Para mim, um pensador incomum que aliava profunda erudição com um verdadeiro turbilhão mental criativo, ousando navegar "mares nunca d'antes navegados" no direito e na filosofia. Era um sujeito que trazia ao direito debates impensados pela quase totalidade dos juristas com análises juspsicanalíticas, cognição da sensibilidade, relação do direito e da filosofia com a arte e a literatura, quase em uma "pedagogia jusfilosófica surrealista", como certamente diria o próprio. Não estava preso a amarras ideológicas, e quase como uma "metamorfose ambulante", conseguia agradar e desagradar a todos (direita, esquerda, centristas, liberais, conservadores - principalmente, comunistas, socialistas, social-democratas) com seu pensamento tão único e distinto com permanentes rupturas e retornos a ideias e autores.

Acima de qualquer coisa, incentivava seus discípulos a nunca segui-lo nem a ninguém. "Pensem por si próprios, ninguém é dono de seus pensamentos", foi sua mensagem.

A última feliz oportunidade de encontrá-lo foi no Simpósio realizado em 2008, em João Pessoa, em sua homenagem, quando ele recebeu o título de Doutor Honoris Causae, da Universidade Federal da Paraíba. Fui um dos palestrantes do evento com o tema "O Senso Comum Teórico dos Juristas e a Edificação de Culturas Constitucionais" (prometo aos leitores sistematizá-la e postá-la aqui). Warat ficou muito emocionado com a participação de tantos discípulos exclusivamente para debater suas ideias e pela última vez, sem o saber, pude ouvir as reflexões finais desse Salvador Dalí jurídico em seu inconfundível e carinhoso portunhol, de um brasileiro que nunca aprendeu a falar português e, segundo seus amigos portenhos, desaprendeu a falar espanhol (risos).

Sentirei muita falta dos "estilhaçamentos de utopias", "dos sonhos aposentados", "dessa raridade chamada amor". Como nós juristas nos acostumaremos sem o "direito surreal", sem a "ecologia do desejo", sem "as armas da ternura", sem os "dois maridos" da ciência jurídica?

Ultimamente estava discutindo um assunto que estou interessado em estudar: "saúde mental e direitos humanos". Uma de suas últimas conferências foi "racionalidad, locura y muerte" no IX Congreso de Salud Mental y Derechos Humanos, em Buenos Aires (http://luisalbertowarat.blogspot.com/2010/12/ecos-del-congreso.html). Infelizmente não pude ouvi-lo a respeito.

Por que nos aprontaste esta, querido Warat? Desta vez não teve graça.

Eras daqueles que, de tão grandioso, parecias imortal. Mais uma vez nos pregastes uma peça e com bom humor nos deixaste, uma vez mais, atônitos.

Que teu espírito, onde quer que esteja, possa colher os frutos de toda a sensibilidade e humanismo que plantaste nesse pequeno planeta que hoje já não te abriga.

Obrigado, Luis, tudo de bom pra ti. Saravá e buen viaje.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Em defesa do Parlamento

Já se foram há tempo meus 18, 19 anos, idades em que eu acreditava que poderia com minhas atitudes cidadãs mudar a situação das coisas.

A verdade é que hoje às vezes acho difícil mudar até minha própria vida, que dirá a vida da cidade, do país ou do mundo. Contudo, por pouco que seja, continuo acreditando que não podemos ser omissos. Ao menos aquilo que está ao nosso alcance devemos fazer. E foi com esse intuito que enviei via e-mail a carta abaixo aos parlamentares pernambucanos que aprovaram esse vergonhoso aumento de subsídios em causa própria. Com exceção do Dep. Raul Jungman (que, por sua vez, também não se beneficiará, já que deixará de ser parlamentar), os demais que estavam presentes votaram a favor. São eles: Ana Arraes, Bruno Rodrigues, Carlos Eduardo Cadoca, Eduardo da Fonte, Fernando Coelho Filho, Fernando Ferro, Gonzaga Patriota, José Mendonça Bezerra, Maurício Rands, Pedro Eugênio, Raul Henry e Wolney Queiroz. Os seus e-mails, para quem quiser perturbá-los (ou ao menos suas assessorias) e demonstrar indignação são:

dep.anaarraes@camara.gov.br

dep.brunorodrigues@camra.gov.br

dep.carloseduardocadoca@camara.gov.br

dep.eduardodafonte@camara.gov.br

dep.fernandocoelhofilho@camara.gov.br

dep.fernandoferro@camara.gov.br

dep.gonzagapatriota@camara.gov.br

dep.josemendoncabezerra@camara.gov.br

dep.mauriciorands@camara.gov.br

dep.pedroeugenio@camara.gov.br

dep.raulhenry@camara.gov.br

dep.wolneyqueiroz@camara.gov.br

Segue a carta:

"EM DEFESA DO PARLAMENTO

Prezado Maurício Rands e demais parlamentares federais de Pernambuco

Como seu eleitor desde 2002 (do Dep. Maurício Rands), cidadão brasileiro e pernambucano e Professor Adjunto de Direito Constitucional da Faculdade de Direito do Recife/UFPE, venho por meio deste, externar minha profunda indignação e decepção com a lamentável atitude dos senhores congressistas de aumentarem seus próprios subsídios em mais de dez mil reais, de forma fantasmagórica, sem qualquer debate com a população e com a sociedade civil organizada, e com uma raríssima convergência entre governistas e oposicionistas de caráter marcadamente corporativista no pior sentido possível.

O custo dos parlamentares brasileiros, segundo estudo da ONG Transparência Brasil, é o mais alto do mundo em termos proporcionais, ainda sem o aumento (http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI1719251-EI306,00.html). Mesmo em termos absolutos, o custo do Congresso Nacional brasileiro, dentre doze países pesquisados, somente perde para o Congresso dos EUA. Além de Brasil e EUA, foram pesquisados os custeios dos parlamentos da Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, Espanha, França, Itália, México, Portugal e Reino Unido, ou seja, vários dos países estão entre os mais ricos do mundo.

Como Professor de Direito Constitucional, sempre defendi e defendo o Parlamento como a casa da democracia e do pluralismo social, instituição imprescindível à realização da Constituição e de seus desígnios, bem como o principal organismo de resistência a autoritarismos. Contudo, com a atitude que tomaram, os senhores demonstram uma completa insensibilidade quanto à população que representam e jogam a imagem do Congresso Nacional na lata do lixo. Não é à toa que o Parlamento é a instituição política mais desacreditada da República. A responsabilidade é principalmente, senão exclusivamente, dos senhores.

Como se não bastasse isso, o efeito cascata que isso provocará, com aumentos generalizados em praticamente todas as assembleias legislativas e câmaras de vereadores do Brasil, demonstra um grau elevado de irresponsabilidade política, econômica e social dos senhores para com o erário público. E os senhores têm consciência disso, o que é ainda mais grave.

Enquanto o Ministro da Fazenda estipula que haverá corte de gastos em programas sociais essenciais do governo (os atrasos das obras do PAC que o digam), enquanto se nega um aumento mais significativo do salário mínimo porque "quebraria a previdência", enquanto professores de universidades públicas com doutorado e dedicação exclusiva ganham menos que um motorista da Câmara dos Deputados, os senhores parecem fazer escárnio com a quase totalidade dos brasileiros, quase dobrando seus próprios subsídios, quando nenhuma categoria de trabalhadores do setor público ou privado teve aumento tão acima da inflação quanto a dos senhores.

Em defesa do Parlamento e contra a atitude autofágica dos senhores, tenho o dever de externar o meu profundo repúdio à vossa atitude.

Espero que isso nunca venha a acontecer, mas quando algum neofascista vier com a ideia de fechar o Congresso Nacional e ganhar amplo apoio da população para tal empreitada, lembrem-se que os senhores estão dando significativa contribuição nesse sentido, ao fazerem o Parlamento brasileiro descer ao subterrâneo da desmoralização.

Bruno Galindo - Professor Adjunto da Faculdade de Direito do Recife/UFPE; Doutor em Direito Público pela UFPE"

Já passa da hora de discutirmos aberta e objetivamente este e outros "custos Brasil".

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Krzysztof Kieslowski: sétima arte em estado bruto







Que bom voltar a falar de cinema depois de tanto tempo. E de cinema com "C" maiúsculo.

Certa vez, Alfred Hitchcock, cineasta que dispensa apresentações, afirmou que costumeiramente se irritava com filmes com excessos de diálogos. Para o mestre do suspense, cinema é sobretudo imagem e os diálogos deveriam se restringir ao estritamente necessário.

Sou um mero cinéfilo, mas não iria ao extremo de Hitchcock. Acho, p. ex., Woody Allen um excepcional cineasta e seus filmes são exacerbadamente dialógicos. Contudo, reconheço que o diálogo excessivo pode ser uma forma de esconder a pouca habilidade na elaboração das imagens que, de fato, deve ser o principal foco na produção de um bom filme.

Bom, se Hitchcock estiver certo, poucos cineastas são tão hitchcockianos, nesse sentido específico, quanto o diretor polonês Krzysztof Kieslowski.

Kieslowski veio da Escola dramatúrgica de Lodz, a mesma de outros dois célebres cineastas da Polônia, Andrzej Wajda ("Katyn" e "Danton") e Roman Polanski ("O Pianista" e "Lua de Fel"). Começou sua carreira como documentarista e diretor de curtas. Com problemas com a censura dos tempos da Polônia comunista, começou a se aproximar da escola francesa (a partir de "A Dupla Vida de Veronique"), não sem antes produzir uma série de filmes para a TV polonesa, intitulada "Decálogo": dez filmes de cerca de uma hora cada, abordando cada um dos dez mandamentos bíblicos. Foi aí que seu estilo ficou definitivamente ligado à ideia de poucos diálogos e muita ênfase nas imagens e cores, no que alguns intitularam de "poesia imagética".

Recentemente, assisti novamente a sua "Trilogia das Cores". Esse magnífico "3 em 1" cinematográfico consiste em três longas, cada um deles abordando uma das cores da bandeira francesa e um dos lemas da Revolução de 1789: "A Liberdade é Azul", "A Igualdade é Branca" e "A Fraternidade é Vermelha". Produzidos entre 1993 e 1994, os três filmes são independentes e, paradoxalmente, interdependentes entre si. Em meio ao início da vigência do Tratado de Maastricht e da visão otimista de uma Europa unida nos anos 90, Kieslowski aborda essas questões, não com filmes grandiloquentes e épicos, mas com estórias do cotidiano, de gente comum, com suas virtudes e defeitos concretos, cheias de ambiguidades e distantes de heroísmos ou perversão exasperada. E as imagens, como Kieslowski as constrói, são o ponto forte de toda a Trilogia.

A LIBERDADE É AZUL (Trois Couleurs: Bleu)

É o primeiro filme da Trilogia e o que eu gosto menos, confesso. Mas, como diz meu amigo Alexandre da Maia, um filme "ruim" (que não é o caso) de diretores como Kieslowski é melhor do que 95% das produções lançadas no mercado cinematográfico. Se você não viu, não deixe de começar por ele, é imprescindível.

A estória se passa na França, às vésperas da celebração do Tratado de Maastricht (União Europeia) e do consequente estreitamento dos laços intereuropeus. Começa com uma incomensurável tragédia familiar: Julie (Juliette Binoche) perde o marido, famoso compositor de música clássica, e a filha de 5 anos em um acidente de carro. Ela sobrevive, mas se sente aprisionada ao passado e à tragédia. Para se libertar, busca se livrar de tudo o que a remete ao passado, de objetos pessoais até posses e heranças. Mas o passado está lá, nas lembranças, na música do marido (que compusera um concerto para Maastricht, não concluído até sua morte) e até mesmo em outro músico (Benoit Régent), amigo do marido, que termina por se tornar o novo companheiro de Julie.

O estilo de Kieslowski está claramente delineado já na primeira cena. Não há diálogos até o momento do acidente, somente imagens mostrando desde o vazamento no carro, provavelmente do óleo de freio, ao susto que acomete o jovem que estava próximo ao local do ocorrido. A presença da música praticamente idêntica ao concerto do marido tocada por um flautista de rua, o lustre azul no novo apartamento de Julie, lembrança de um passado que insiste em persegui-la, até mesmo a descoberta de uma advogada que era amante de seu marido, cenas recheadas de acasos e coincidências bem kieslowskianas.

E a liberdade, tema central, no caso libertação do passado, das lembranças, das situações indesejáveis, está na tela em antagonismo ao amor. É como se para amar, ela precisasse renunciar à sua própria liberdade.

O filme é um tanto melancólico, por vezes sombrio, mas não vale a pena ver os demais sem antes assisti-lo. Destaque para a fotografia do filme: as cenas produzidas em tons propositadamente azulados, remetendo à primeira cor da bandeira francesa, não deixa de ser um sensacional jogo de imagens.

A IGUALDADE É BRANCA (Trois Couleurs: Blanc)

Normalmente as trilogias cinematográficas e os filmes sequenciados pioram a cada número. O que ocorre na maioria dos casos é que o primeiro, que seria inicialmente o único, faz sucesso e os produtores, ávidos por lucro fácil e garantido, resolvem fazer o 2, 3, 4 e o que mais puderem (vide o caso da trilogia Matrix, com um excelente primeiro filme e dois filmes posteriores sofríveis).

Em cineastas como Kieslowski essa regra é quebrada. No caso da "Trilogia das Cores", a sequência é invertida: o filme posterior é melhor que o anterior. E é o que ocorre com "A Igualdade é Branca".

A estória se passa entre a França e a Polônia. Karol (Zbigniew Zamachowski), polonês, é casado com Dominique (Julie Delpy), francesa. Moram em Paris e estão em processo de divórcio, pois Karol está sexualmente impotente e Dominique se irrita com isso. Ela fica com tudo o que possuíam e o deixa em situação de mendicância na capital francesa. Após encontrar um compatriota na estação do metrô, este o convence a voltar a Varsóvia de um modo inusual. Chegando na capital polonesa, após curiosas reviravoltas um tanto tragicômicas, Karol consegue enriquecer na Polônia pós-comunista. Apesar de ainda apaixonado por Dominique, Karol planeja uma inusitada vingança contra a ex-esposa.

Sem perder a essência, aqui Kieslowski joga com uma narrativa um tanto diversa da do primeiro filme. A coincidência de Julie no tribunal onde Karol e Dominique discutem o divórcio nos transporta ao universo casualista do diretor. A cena inicial da mala na esteira rolante do aeroporto, incompreensível naquele momento, faz uma conexão com o desdobramento do filme. O encontro fortuito dos dois poloneses no metrô através da música que Karol "tocava" com o pente enquanto pedia esmolas e o jogo com a moeda de dois francos que parece não querer abandonar são outras cenas que chamam bastante a atenção na narrativa "imagética".

A igualdade como tema central já aparece como problema no próprio tribunal onde Dominique parece ter a preponderância na preferência do juiz, a princípio pela questão nacional, já que estava litigando contra um polonês. Karol, por sua vez, se queixa da discriminação sofrida, o que não deixa de ser um contraste entre uma utopia da Europa unida e a desigualdade fática nas relações do cotidiano europeu.

Mais uma vez, a fotografia remete à cor em questão: os tons brancos, com especial destaque para a cena dos dois poloneses "brincando" na neve em Varsóvia, diz muito do que Kieslowski busca com esse segundo filme da Trilogia.

A FRATERNIDADE É VERMELHA (Trois Couleurs: Rouge)

Em minha opinião, é o melhor filme da Trilogia e a fecha com chave de ouro.

Dessa vez, a estória se passa em Genebra, na Suíça. Valentine (Irène Jacob) é uma jovem modelo suíça que trabalha nas passarelas e em comerciais, tendo um cotidiano bem movimentado. Acidentalmente atropela uma cadela e, preocupada, vai em busca do seu dono. Ao encontrá-lo, começa, por mais uma das típicas casualidades kieslowskianas, a desenvolver com ele uma relação ambígua, de certo "amor e ódio", sem chegar a extremos, contudo. O homem é um juiz aposentado, interpretado por Jean-Louis Trintignant, que, solitário e amargurado, passa os dias a realizar escutas telefônicas das chamadas de seus vizinhos. Ao descobrir isso, Valentine, que é dessas pessoas bastante éticas e "certinhas", acha repugnante o comportamento do mesmo e pensa em denunciá-lo aos vizinhos. Chega a casa de um deles, mas ao descobrir a relação familiar existente (em verdade, era um homem que vivia um caso homossexual, embora fosse casado e pai de uma filha), fica amendrontada com a perspectiva de prejudicar tal família e desiste. Entretanto, o próprio juiz termina se denunciando aos vizinhos, pois passa a ter certo drama de consciência após as recriminações de Valentine.

Em paralelo, corre a estória de um vizinho da modelo. Auguste (Jean-Pierre Loirit), ainda jovem advogado, estuda para se tornar juiz e termina por alcançar seu objetivo. No filme, funciona como uma espécie de alter ego do velho juiz bisbilhoteiro, na medida em que as histórias pessoais de ambos se repetem em boa medida, principalmente no contexto da profissão e do relacionamento amoroso, uma chave para a explicação da amargura pessoal demonstrada pelo magistrado aposentado.

As histórias de Valentine e Auguste se encontrarão em uma tragédia, o naufrágio do navio em que viajavam pelo Canal da Mancha em mais uma casualidade kieslowskiana que, brilhantemente reúne os principais personagens de toda a Trilogia como sobreviventes da tragédia naval, em um inusitado e improvável desfecho.

A incompreensão mútua é muito explorada no filme e somente a fraternidade entre as pessoas parece ser capaz de redimi-las, criando novas possibilidades de recomeços em cima dos destroços das fatalidades humanas. Isso é especialmente relevante na última meia hora da película, sem que se deixe desapercebido a variedade de nacionalidades (francesa, polonesa, suíça, inglesa) dos sobreviventes do naufrágio, talvez uma alusão à Europa reerguida da devastação em sua rica e, quem sabe, fraterna diversidade.

Chamam-me a atenção em especial duas cenas: a inicial, do itinerário da comunicação telefônica (coisa de cineasta do impensável) e a coincidência (mais uma) da foto do comercial de Valentine com a imagem televisiva paralisada em sua feição na TV após o resgate do naufrágio. Destaque, mais uma vez, para a fotografia em tons propositadamente avermelhados, bem como para o talento de Irène Jacob, excelente atriz suíça revelada por Kieslowski em "A Dupla Vida de Veronique" e que em "A Fraternidade é Vermelha", como se não bastasse a competência, está no auge de sua singela e cândida beleza, um verdadeiro colírio para os apreciadores da beleza feminina, entre os quais eu me incluo.

Após a Trilogia, Kieslowski disse que se aposentara, mas estava trabalhando em um roteiro baseado na "Divina Comédia" de Dante Alighieri, também pensada como trilogia (inferno, purgatório e paraíso). Infelizmente, em 1996, a morte levou o velho Krzysztof, sem que pudéssemos desfrutar de mais uma obra-prima sua.

Fica a "Trilogia das Cores" e em especial "A Fraternidade é Vermelha" como o mais maravilhoso e redentor gran finale de um cineasta de brilhantismo invulgar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Entre metrópoles, espaços vazios e mapas mentais




Texto de Zygmunt Bauman sobre a percepção dos espaços nas grandes metrópoles (e olhe que ele fala da Europa). Vale a reflexão.

"Numa de minhas viagens de conferências (a uma cidade populosa, grande e viva do sul da Europa), fui recebido no aeroporto por uma jovem professora, filha de um casal de profissionais ricos e de alta escolaridade. Ela se desculpou porque a ida para o hotel não seria fácil, e tomaria muito tempo, pois não havia como evitar as movimentadas avenidas para o centro da cidade, constantemente engarrafadas pelo tráfego pesado. De fato, levamos quase duas horas para chegar ao lugar. Minha guia ofereceu-se para conduzir-me ao aeroporto no dia da partida. Sabendo quão cansativo era dirigir na cidade, agradeci sua gentileza e boa vontade, mas disse que tomaria um táxi. O que fiz. Dessa vez, a ida ao aeroporto tomou menos de dez minutos. Mas o motorista foi por fileiras de barracos pobres, decadentes e esquecidos, cheios de pessoas rudes e evidentemente desocupadas e crianças sujas vestindo farrapos. A ênfase de minha guia em que não havia como evitar o tráfego do centro da cidade não era mentira. Era sincera e adequada a seu mapa mental da cidade em que tinha nascido e onde sempre vivera. Esse mapa não registrava as ruas dos feios "distritos perigosos" pelas quais o táxi me levou. No mapa mental de minha guia, no lugar em que essas ruas deveriam ter sido projetadas havia, pura e simplesmente, um espaço vazio.

A cidade, como outras cidades, tem muitos habitantes, cada um com um mapa da cidade em sua cabeça. Cada mapa tem seus espaços vazios, ainda que em mapas diferentes eles se localizem em lugares diferentes. Os mapas que orientam os movimentos das várias categorias de habitantes não se superpõem, mas, para que qualquer mapa "faça sentido", algumas áreas da cidade devem permanecer sem sentido. Excluir tais lugares permite que o resto brilhe e se encha de significado.

O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são so lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos."