terça-feira, 13 de julho de 2010

¡Y viva España! - pelo bem do futebol




Com Brasil e Portugal fora das semifinais da Copa do Mundo, não posso negar que toda minha torcida foi para el país de mis ancestrales: virei Espanha desde criancinha, embora nada tenha contra holandeses, alemães ou mesmo argentinos.

A razão de minha torcida pela Fúria, porém, tem outras motivações para além da mera questão sentimental. Apesar de não ser uma das melhores seleções campeãs que vi jogar, a Espanha apresentou de longe o melhor futebol desta Copa. E mais ainda: apesar da falta de bons atacantes e de boa pontaria, mostrou ser um time que busca o resultado, que vai para cima dos adversários, que quer jogar de verdade e não só marcar. Possui um toque de bola refinado, joga muito bem em conjunto e envolve os adversários, ditando o ritmo do jogo. Com a exceção do Brasil de 2002, as demais seleções campeãs desde 1990 sempre fizeram o oposto: muita marcação, não deixar o adversário jogar e, se der, vai lá na frente de vez em quando e faz um ou dois golzinhos, no máximo. Não importa jogar bem, tem é que vencer - essa virou a filosofia básica dos treinadores das últimas décadas.

Lembro sempre, embora eu fosse muito criança na época, da maravilhosa seleção brasileira de 1982, que encantou o mundo, mas não foi campeã, esbarrando no ferrolho burocrático italiano e no oportunismo de Paolo Rossi. Na minha mente de criança com apenas 8 anos, via o time de Zico, Sócrates e Falcão como tão extraordinário que seria impossível derrotá-lo. Ainda hoje, quando assisto as cenas daqueles jogos, vejo o Brasil de 1982 como a nossa melhor seleção de todos os tempos, apesar do resultado adverso naquele fatídico Brasil x Itália.

Depois da "laranja mecânica" (o "Carrossel" holandês) de 1974 e a Canarinha de 1982 terem encantado o mundo, sem serem campeãs, passou a prevalecer a "eficiência" em vez do bom jogo. Dos clubes às seleções, a preocupação exacerbada com a defesa e com o "futebol de resultados", fez com que o futebol se enchesse de gente que não gosta de futebol, gosta apenas de vencer! A vitória a qualquer custo, isso é que vale, jogar bom futebol se tornou totalmente desnecessário.

O interessante é que várias dessas seleções, o Brasil de Lazaroni (1990) e de Dunga (2010), a Holanda vice-campeã atual, abriram mão das características tradicionais de seus times em busca do "jogar feio, mas ganhar", e os resultados foram pífios, como atestam as campanhas dos referidos selecionados. E não se diga que o Brasil de 1994 provaria o contrário, pois ali, se não tivéssemos a genialidade da dupla de ataque Bebeto-Romário, jamais teríamos feito grande coisa - ainda assim na final só ganhamos nos penaltis!

Por isso que a Espanha atual de David Villa, Casillas e Puyol pode se tornar um divisor de águas. Foi o time que mais buscou vencer, fazer gols (apesar da falta de pontaria não ter ajudado) e jogar para frente. Nem por isso deixou de ser eficiente lá atrás, levando apenas dois gols em sete jogos. Aliou eficiência e bons resultados a um jogo bonito e vistoso, de modo que mereceu de longe o título.

Espero que os treinadores passem a valorizar mais isso, a se espelhar mais no Brasil de 2002 e na Espanha de 2010 ao invés do suposto jogo "pragmático" do "futebol de resultados".

Y viva España!

SOBRE A ALEMANHA

Não podia deixar de falar sobre uma grata surpresa dessa Copa que foi a seleção alemã. Jogou bem e bonito e embora tenha esbarrado na Espanha, apresentou belíssimo futebol, sem perder em eficiência. Belas goleadas sobre a Inglaterra e a Argentina encantaram os que gostam verdaeiramente de futebol e não somente de bons resultados.

O curioso é que vi alguns desses comentaristas de futebol falando bobagens contra o excesso de naturalizações e descendentes de pessoas de outras nacionalidades na seleção da Alemanha, o que descaracterizaria um time autenticamente nacional, inclusive com exigências de que a FIFA teria que tomar providências quanto a isso. Um discurso desses está mais para "purismo ariano" nazista do que para a ideia de confraternização pelo esporte que tais competições devem trazer.

Eu tenho o pensamento totalmente oposto: vejo com muita alegria e contentamento esse "multiculturalismo alemão". Para um país que ficou estigmatizado com o racismo nazista, admitir que poloneses (Podolski, Klose e Trochowski), turcos (Özil e Tasci), bósnios (Marin), tunisianos (Khedira), espanhóis (Mario Gomez), e até mesmos negros da Nigéria (Aogo), de Gana (Jérôme Boateng) e do Brasil (Cacau) sejam considerados legítimos alemães e representantes desse país no maior evento esportivo do planeta é bastante alvissareiro.

E vivas também à Alemanha do século XXI e aos "alemães multiculturais". Neues multikulturalisches Deutschland, viva!