sábado, 18 de dezembro de 2010

Warat: quando a genialidade encontra a sensibilidade



Este foi um ano especialmente difícil para mim por razões que por ora não me sinto à vontade para expor. E enquanto fico "na torcida" para que 2010 termine (apesar de admitir que os anos não deixam de ser simbologias, como quase tudo na vida), eis que vem uma notícia que me entristeceu deveras: o grande Prof. Luis Alberto Warat deixou este mundo na última quinta, dia 16.

Há cerca de dois anos, em 14/11/2008, tive oportunidade de aqui mesmo no blog, postar um texto em homenagem ao grande Mestre, de modo que não estou nesta nova homenagem, agora póstuma, fazendo qualquer "necrofilia da arte", como diria Caetano Veloso. Tive a feliz oportundidade de reverenciá-lo ainda em vida.

Contudo, não dá para negar que como jurista, Warat foi um artista. A arte com a qual escreveu seus textos jusfilosóficos e realizou suas conferências deixará muitas saudades desse "jurista baiano", como se autointitulava, apesar de ser brasileiro naturalizado e argentino de nascimento.

Em minha modesta opinião, Warat foi o mais original jurista da América Latina em todo o século XX. Em tempos de "samba de uma nota só" e "mais do mesmo" jurídicos, o "gordo", como carinhosamente chamado pelos amigos, foi um pensador invulgar, ousado, capaz de com sua palavra mordaz e ferina, abalar estruturas ilusoriamente sólidas do mundo do direito. Ao mesmo tempo, não era um simples desconstrutivista: a percepção da ausência da sensibilidade no mundo jurídico o fez dedicar-se às questões humanistas de um modo diferente, trazendo os aspectos psicológicos e psicanalíticos mais amplos para o debate jusfilosófico. A presença do amor, da magia, do surreal, do desejo e até de suas várias "ecologias" seriam impensáveis no direito sem as singulares reflexões de Warat.

No meio jurídico e filosófico há muitos eruditos (alguns nem tanto assim) metidos a gênios, que confundem erudição com genialidade. Eurditos talvez até tenhamos em quantidade razoável. Gênios, contudo, com arroubos criativos verdadeiros, quase nenhum. Quem conheceu Warat, contudo, pode afirmar que conheceu ao menos um dos pouquíssimos e verdadeiros gênios do mundo jusfilosófico.

Apesar dele ter nos deixado, ainda bem que tive a felicidade de conhecê-lo e com ele trocas ideias e impressões pessoais, ainda que não com demasiada frequência.

Conheci Warat em 1999, quando praticamente iniciava minha ainda curta carreira docente. Até então, ele era para mim um ilustre desconhecido, dos que ouvimos falar mas não lemos. Um amigo em comum, Albano Pêpe, o trouxe a Pernambuco para alguns eventos sobre as relações entre mediação e sensibilidade. Não obstante eu ser então um completo neófito, Warat conversou comigo com a mesma atenção e gentileza com que conversou com todas as outras pessoas que estavam nos eventos, sem discriminação titulatória ou de saberes.

Fiquei com vergonha de na época ainda não tê-lo lido e fui às suas obras. Foi uma das melhores coisas que já fiz: descobri que aquele simpático e bonachão Professor havia produzido a obra mais original que um jurista do nosso tempo poderia conceber.

Seus lampejos de genialidade não conseguem aprisioná-lo a rótulos, embora ele dizia ser um "jurista baiano", porque, destarte ser argentino, era o único jurista no mundo que pensava o direito a partir dos paradigmas do candomblé e da ficção literária de Jorge Amado.

Para muitos, Warat era um "gozador", um "porra louca". Para mim, um pensador incomum que aliava profunda erudição com um verdadeiro turbilhão mental criativo, ousando navegar "mares nunca d'antes navegados" no direito e na filosofia. Era um sujeito que trazia ao direito debates impensados pela quase totalidade dos juristas com análises juspsicanalíticas, cognição da sensibilidade, relação do direito e da filosofia com a arte e a literatura, quase em uma "pedagogia jusfilosófica surrealista", como certamente diria o próprio. Não estava preso a amarras ideológicas, e quase como uma "metamorfose ambulante", conseguia agradar e desagradar a todos (direita, esquerda, centristas, liberais, conservadores - principalmente, comunistas, socialistas, social-democratas) com seu pensamento tão único e distinto com permanentes rupturas e retornos a ideias e autores.

Acima de qualquer coisa, incentivava seus discípulos a nunca segui-lo nem a ninguém. "Pensem por si próprios, ninguém é dono de seus pensamentos", foi sua mensagem.

A última feliz oportunidade de encontrá-lo foi no Simpósio realizado em 2008, em João Pessoa, em sua homenagem, quando ele recebeu o título de Doutor Honoris Causae, da Universidade Federal da Paraíba. Fui um dos palestrantes do evento com o tema "O Senso Comum Teórico dos Juristas e a Edificação de Culturas Constitucionais" (prometo aos leitores sistematizá-la e postá-la aqui). Warat ficou muito emocionado com a participação de tantos discípulos exclusivamente para debater suas ideias e pela última vez, sem o saber, pude ouvir as reflexões finais desse Salvador Dalí jurídico em seu inconfundível e carinhoso portunhol, de um brasileiro que nunca aprendeu a falar português e, segundo seus amigos portenhos, desaprendeu a falar espanhol (risos).

Sentirei muita falta dos "estilhaçamentos de utopias", "dos sonhos aposentados", "dessa raridade chamada amor". Como nós juristas nos acostumaremos sem o "direito surreal", sem a "ecologia do desejo", sem "as armas da ternura", sem os "dois maridos" da ciência jurídica?

Ultimamente estava discutindo um assunto que estou interessado em estudar: "saúde mental e direitos humanos". Uma de suas últimas conferências foi "racionalidad, locura y muerte" no IX Congreso de Salud Mental y Derechos Humanos, em Buenos Aires (http://luisalbertowarat.blogspot.com/2010/12/ecos-del-congreso.html). Infelizmente não pude ouvi-lo a respeito.

Por que nos aprontaste esta, querido Warat? Desta vez não teve graça.

Eras daqueles que, de tão grandioso, parecias imortal. Mais uma vez nos pregastes uma peça e com bom humor nos deixaste, uma vez mais, atônitos.

Que teu espírito, onde quer que esteja, possa colher os frutos de toda a sensibilidade e humanismo que plantaste nesse pequeno planeta que hoje já não te abriga.

Obrigado, Luis, tudo de bom pra ti. Saravá e buen viaje.

Um comentário:

Talden Farias disse...

Parabéns pelo belíssimo texto de despedida a esse singular mestre.