quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Krzysztof Kieslowski: sétima arte em estado bruto







Que bom voltar a falar de cinema depois de tanto tempo. E de cinema com "C" maiúsculo.

Certa vez, Alfred Hitchcock, cineasta que dispensa apresentações, afirmou que costumeiramente se irritava com filmes com excessos de diálogos. Para o mestre do suspense, cinema é sobretudo imagem e os diálogos deveriam se restringir ao estritamente necessário.

Sou um mero cinéfilo, mas não iria ao extremo de Hitchcock. Acho, p. ex., Woody Allen um excepcional cineasta e seus filmes são exacerbadamente dialógicos. Contudo, reconheço que o diálogo excessivo pode ser uma forma de esconder a pouca habilidade na elaboração das imagens que, de fato, deve ser o principal foco na produção de um bom filme.

Bom, se Hitchcock estiver certo, poucos cineastas são tão hitchcockianos, nesse sentido específico, quanto o diretor polonês Krzysztof Kieslowski.

Kieslowski veio da Escola dramatúrgica de Lodz, a mesma de outros dois célebres cineastas da Polônia, Andrzej Wajda ("Katyn" e "Danton") e Roman Polanski ("O Pianista" e "Lua de Fel"). Começou sua carreira como documentarista e diretor de curtas. Com problemas com a censura dos tempos da Polônia comunista, começou a se aproximar da escola francesa (a partir de "A Dupla Vida de Veronique"), não sem antes produzir uma série de filmes para a TV polonesa, intitulada "Decálogo": dez filmes de cerca de uma hora cada, abordando cada um dos dez mandamentos bíblicos. Foi aí que seu estilo ficou definitivamente ligado à ideia de poucos diálogos e muita ênfase nas imagens e cores, no que alguns intitularam de "poesia imagética".

Recentemente, assisti novamente a sua "Trilogia das Cores". Esse magnífico "3 em 1" cinematográfico consiste em três longas, cada um deles abordando uma das cores da bandeira francesa e um dos lemas da Revolução de 1789: "A Liberdade é Azul", "A Igualdade é Branca" e "A Fraternidade é Vermelha". Produzidos entre 1993 e 1994, os três filmes são independentes e, paradoxalmente, interdependentes entre si. Em meio ao início da vigência do Tratado de Maastricht e da visão otimista de uma Europa unida nos anos 90, Kieslowski aborda essas questões, não com filmes grandiloquentes e épicos, mas com estórias do cotidiano, de gente comum, com suas virtudes e defeitos concretos, cheias de ambiguidades e distantes de heroísmos ou perversão exasperada. E as imagens, como Kieslowski as constrói, são o ponto forte de toda a Trilogia.

A LIBERDADE É AZUL (Trois Couleurs: Bleu)

É o primeiro filme da Trilogia e o que eu gosto menos, confesso. Mas, como diz meu amigo Alexandre da Maia, um filme "ruim" (que não é o caso) de diretores como Kieslowski é melhor do que 95% das produções lançadas no mercado cinematográfico. Se você não viu, não deixe de começar por ele, é imprescindível.

A estória se passa na França, às vésperas da celebração do Tratado de Maastricht (União Europeia) e do consequente estreitamento dos laços intereuropeus. Começa com uma incomensurável tragédia familiar: Julie (Juliette Binoche) perde o marido, famoso compositor de música clássica, e a filha de 5 anos em um acidente de carro. Ela sobrevive, mas se sente aprisionada ao passado e à tragédia. Para se libertar, busca se livrar de tudo o que a remete ao passado, de objetos pessoais até posses e heranças. Mas o passado está lá, nas lembranças, na música do marido (que compusera um concerto para Maastricht, não concluído até sua morte) e até mesmo em outro músico (Benoit Régent), amigo do marido, que termina por se tornar o novo companheiro de Julie.

O estilo de Kieslowski está claramente delineado já na primeira cena. Não há diálogos até o momento do acidente, somente imagens mostrando desde o vazamento no carro, provavelmente do óleo de freio, ao susto que acomete o jovem que estava próximo ao local do ocorrido. A presença da música praticamente idêntica ao concerto do marido tocada por um flautista de rua, o lustre azul no novo apartamento de Julie, lembrança de um passado que insiste em persegui-la, até mesmo a descoberta de uma advogada que era amante de seu marido, cenas recheadas de acasos e coincidências bem kieslowskianas.

E a liberdade, tema central, no caso libertação do passado, das lembranças, das situações indesejáveis, está na tela em antagonismo ao amor. É como se para amar, ela precisasse renunciar à sua própria liberdade.

O filme é um tanto melancólico, por vezes sombrio, mas não vale a pena ver os demais sem antes assisti-lo. Destaque para a fotografia do filme: as cenas produzidas em tons propositadamente azulados, remetendo à primeira cor da bandeira francesa, não deixa de ser um sensacional jogo de imagens.

A IGUALDADE É BRANCA (Trois Couleurs: Blanc)

Normalmente as trilogias cinematográficas e os filmes sequenciados pioram a cada número. O que ocorre na maioria dos casos é que o primeiro, que seria inicialmente o único, faz sucesso e os produtores, ávidos por lucro fácil e garantido, resolvem fazer o 2, 3, 4 e o que mais puderem (vide o caso da trilogia Matrix, com um excelente primeiro filme e dois filmes posteriores sofríveis).

Em cineastas como Kieslowski essa regra é quebrada. No caso da "Trilogia das Cores", a sequência é invertida: o filme posterior é melhor que o anterior. E é o que ocorre com "A Igualdade é Branca".

A estória se passa entre a França e a Polônia. Karol (Zbigniew Zamachowski), polonês, é casado com Dominique (Julie Delpy), francesa. Moram em Paris e estão em processo de divórcio, pois Karol está sexualmente impotente e Dominique se irrita com isso. Ela fica com tudo o que possuíam e o deixa em situação de mendicância na capital francesa. Após encontrar um compatriota na estação do metrô, este o convence a voltar a Varsóvia de um modo inusual. Chegando na capital polonesa, após curiosas reviravoltas um tanto tragicômicas, Karol consegue enriquecer na Polônia pós-comunista. Apesar de ainda apaixonado por Dominique, Karol planeja uma inusitada vingança contra a ex-esposa.

Sem perder a essência, aqui Kieslowski joga com uma narrativa um tanto diversa da do primeiro filme. A coincidência de Julie no tribunal onde Karol e Dominique discutem o divórcio nos transporta ao universo casualista do diretor. A cena inicial da mala na esteira rolante do aeroporto, incompreensível naquele momento, faz uma conexão com o desdobramento do filme. O encontro fortuito dos dois poloneses no metrô através da música que Karol "tocava" com o pente enquanto pedia esmolas e o jogo com a moeda de dois francos que parece não querer abandonar são outras cenas que chamam bastante a atenção na narrativa "imagética".

A igualdade como tema central já aparece como problema no próprio tribunal onde Dominique parece ter a preponderância na preferência do juiz, a princípio pela questão nacional, já que estava litigando contra um polonês. Karol, por sua vez, se queixa da discriminação sofrida, o que não deixa de ser um contraste entre uma utopia da Europa unida e a desigualdade fática nas relações do cotidiano europeu.

Mais uma vez, a fotografia remete à cor em questão: os tons brancos, com especial destaque para a cena dos dois poloneses "brincando" na neve em Varsóvia, diz muito do que Kieslowski busca com esse segundo filme da Trilogia.

A FRATERNIDADE É VERMELHA (Trois Couleurs: Rouge)

Em minha opinião, é o melhor filme da Trilogia e a fecha com chave de ouro.

Dessa vez, a estória se passa em Genebra, na Suíça. Valentine (Irène Jacob) é uma jovem modelo suíça que trabalha nas passarelas e em comerciais, tendo um cotidiano bem movimentado. Acidentalmente atropela uma cadela e, preocupada, vai em busca do seu dono. Ao encontrá-lo, começa, por mais uma das típicas casualidades kieslowskianas, a desenvolver com ele uma relação ambígua, de certo "amor e ódio", sem chegar a extremos, contudo. O homem é um juiz aposentado, interpretado por Jean-Louis Trintignant, que, solitário e amargurado, passa os dias a realizar escutas telefônicas das chamadas de seus vizinhos. Ao descobrir isso, Valentine, que é dessas pessoas bastante éticas e "certinhas", acha repugnante o comportamento do mesmo e pensa em denunciá-lo aos vizinhos. Chega a casa de um deles, mas ao descobrir a relação familiar existente (em verdade, era um homem que vivia um caso homossexual, embora fosse casado e pai de uma filha), fica amendrontada com a perspectiva de prejudicar tal família e desiste. Entretanto, o próprio juiz termina se denunciando aos vizinhos, pois passa a ter certo drama de consciência após as recriminações de Valentine.

Em paralelo, corre a estória de um vizinho da modelo. Auguste (Jean-Pierre Loirit), ainda jovem advogado, estuda para se tornar juiz e termina por alcançar seu objetivo. No filme, funciona como uma espécie de alter ego do velho juiz bisbilhoteiro, na medida em que as histórias pessoais de ambos se repetem em boa medida, principalmente no contexto da profissão e do relacionamento amoroso, uma chave para a explicação da amargura pessoal demonstrada pelo magistrado aposentado.

As histórias de Valentine e Auguste se encontrarão em uma tragédia, o naufrágio do navio em que viajavam pelo Canal da Mancha em mais uma casualidade kieslowskiana que, brilhantemente reúne os principais personagens de toda a Trilogia como sobreviventes da tragédia naval, em um inusitado e improvável desfecho.

A incompreensão mútua é muito explorada no filme e somente a fraternidade entre as pessoas parece ser capaz de redimi-las, criando novas possibilidades de recomeços em cima dos destroços das fatalidades humanas. Isso é especialmente relevante na última meia hora da película, sem que se deixe desapercebido a variedade de nacionalidades (francesa, polonesa, suíça, inglesa) dos sobreviventes do naufrágio, talvez uma alusão à Europa reerguida da devastação em sua rica e, quem sabe, fraterna diversidade.

Chamam-me a atenção em especial duas cenas: a inicial, do itinerário da comunicação telefônica (coisa de cineasta do impensável) e a coincidência (mais uma) da foto do comercial de Valentine com a imagem televisiva paralisada em sua feição na TV após o resgate do naufrágio. Destaque, mais uma vez, para a fotografia em tons propositadamente avermelhados, bem como para o talento de Irène Jacob, excelente atriz suíça revelada por Kieslowski em "A Dupla Vida de Veronique" e que em "A Fraternidade é Vermelha", como se não bastasse a competência, está no auge de sua singela e cândida beleza, um verdadeiro colírio para os apreciadores da beleza feminina, entre os quais eu me incluo.

Após a Trilogia, Kieslowski disse que se aposentara, mas estava trabalhando em um roteiro baseado na "Divina Comédia" de Dante Alighieri, também pensada como trilogia (inferno, purgatório e paraíso). Infelizmente, em 1996, a morte levou o velho Krzysztof, sem que pudéssemos desfrutar de mais uma obra-prima sua.

Fica a "Trilogia das Cores" e em especial "A Fraternidade é Vermelha" como o mais maravilhoso e redentor gran finale de um cineasta de brilhantismo invulgar.

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