terça-feira, 21 de setembro de 2010

Um réquiem para o falecido futebol pernambucano



"Aqui jaz o finado Santa Cruz Futebol Clube..."

"O Clube Náutico Capibaribe agoniza em seus últimos momentos, já tendo recebido a extrema-unção..."

Se estivéssemos nos tempos de Mozart e Pernambuco fosse a Áustria, caberia bem encomendar ao genial compositor uma missa de réquiem para o futebol local e, por conseguinte, do seu Campeonato estadual, outrora competitivo e emocionante, mas hoje reduzido a um monótono monopólio absoluto de um único clube.

Os leitores deste espaço sabem que torço para o Náutico e, portanto, meu comentário está longe da imparcialidade. Contudo, sou antes de tudo um apreciador do bom futebol e das emoções que este provoca, e admiro os campeonatos nos quais existe competitividade e sempre há dois ou mais clubes lutando com reais chances de conquista do título. Em verdade, só se pode falar em competição se presentes tais condições.

Até a década de 80 do século passado, Náutico, Santa Cruz e Sport eram considerados os 3 grandes clubes de Pernambuco. A disputa era acirrada e não raro ocorriam emocionantes surpresas. Mesmo quando o time de um deles era nitidamente mais fraco, por vezes se agigantava nos momentos decisivos e até conquistava o título. Em minha infância e adolescência eu ainda tive oportunidade de testemunhar isso.

Também a nível nacional, os 3 aprontavam contra os ditos "Grandes" do Brasil. Lembro de memoráveis vitórias deles contra Flamengo, Corínthians, Palmeiras, Vasco e outros "queridinhos" da mídia sudestina.

Agora isso é passado. A prematura desclassificação do outrora grande Santa Cruz da 4a. divisão nacional, derrotado pelo modestíssimo Guarani de Sobral, mesmo após colocar 50 mil pessoas no Estádio do Arruda, só comprova a tese de que há muito a real competitividade no futebol pernambucano é inexistente.

Em minha modesta opinião, o fator decisivo para isso foi o ingresso do Sport no famigerado "Clube dos 13" (União dos Grandes Clubes Brasileiros), entidade exclusivista e oligopolista do futebol brasileiro, no ano de 1997. Construindo uma eficiente estratégia de marketing em cima do título brasileiro de 1987, conquistado em definitivo fora de campo, nos tribunais da Justiça Comum, somente 7 anos depois, o fato é que o Sport foi muitíssimo competente em utilizar esse famoso factoide como cavalo de batalha para se impor politicamente no cenário clubístico nacional. Aliado a isso, teve seguidas boas administrações, o que fez com que conquistasse boas colocações no Brasileirão dos anos seguintes e em 1997 entrasse para o referido C13, antes tão criticado pelos próprios rubronegros.

Isso significou e continua significando um gigantesco aporte de recursos financeiros exclusivamente direcionados ao Sport em Pernambuco, o que criou uma igualmente gigantesca disparidade econômica com Náutico e Santa Cruz que, a partir daí, dificilmente conseguem montar times com reais condições de superar ou mesmo fazer frente aos constituídos pelo Clube da Ilha do Retiro.

É bem verdade que, aliado a isso, Náutico e Santa Cruz (principalmente este) tiveram talvez as piores administrações de suas histórias. Se, sendo curto o dinheiro, ainda este é administrado de forma equivocada, os clubes ficam esfacelados. Mas por si só isso não seria suficiente, até porque o Sport também passou por más administrações, embora menos frequentemente que os rivais.

Para verificar o papel do C13 nesses acontecimentos, basta observarmos os dados históricos do Campeonato Pernambucano antes e depois da entrada do Sport no C13 quanto ao número de títulos de cada clube:

1915 a 1996 (antes do C13)

Sport - 29

Santa Cruz - 23

Náutico - 18

1997 a 2010 (depois do C13)

Sport - 39

Santa Cruz - 24

Náutico - 21

Ou seja, em 14 campeonatos estaduais, o Sport conquistou 10, o Náutico, 3, e o Santa Cruz apenas 1. Como se não bastasse, ainda conquistou uma Copa do Brasil em 2008 e disputou uma Taça Libertadores da América sem fazer feio. Hoje, mesmo na Série B, desponta como um dos francos favoritos ao acesso, bem como ao título da competição. Apesar do início ruim, com R$ 7 milhões livres e de bandeja fornecidos pelo C13, rapidamente injetou dinheiro em boas contratações e resolveu o problema.

Enquanto isso, o Náutico conseguiu, a duras penas, se manter durante dois anos na 1a. divisão nacional para cair para a Série B no terceiro. Hoje, mesmo jogando na mesma divisão que o Sport, não tem direito a um único centavo do C13, não consegue se sustentar e, ao que tudo indica, se não cair para a Série C, já estará no lucro. Voltar à Série A parece um sonho impossível.

O cada vez mais paupérrimo Santa Cruz, por sua vez, vai para o terceiro ano na esquecida e melancólica Série D. Aporte financeiro, nenhum, falência completa, um verdadeiro morto-vivo. Sua imensa torcida, outrora a maior do Estado, só pode hoje curtir a si própria, pois time não mais possui.

A verdade é que o Campeonato Pernambucano se tornou um cansativo "samba de uma nota só", um enfadonho "mais do mesmo". Muitos alvirrubros temem que o único título que somente o Náutico possui no Estado, o de hexacampeão pernambucano, deixe de ser exclusividade em 2011. Eu não mais temo, pois já vejo isso como uma certeza que só aguarda uma protocolar consumação fática. Nessa seara, o Sport não somente poderá ser hexa, mas hepta, octa etc.

O fato é que nos transformamos em um Estado de um só clube. A competitividade acabou, o Sport já é campeão antes mesmo do início do campeonato.

Parece que a hoje velada intenção da CBF e do C13 de acabarem com os campeonatos estaduais está se concretizando por inanição. O esvaziamento dos mesmos por se tornarem cada vez menos interessantes e menos competitivos se consubstancia na dinheirama do C13 recebidas no Nordeste exclusivamente por Sport, Bahia e Vitória, ficando todos os demais à míngua e mendigando migalhas.

Nenhum campeonato sobrevive sem que pelo menos dois clubes lutem de fato pelo título com reais condições de conquistá-lo. A se considerar isso, o Campeonato Pernambucano morreu. O futebol pernambucano morreu, hoje só existe o futebol do Sport Clube do Recife. A ele, absolutamente tudo, aos demais, absolutamente nada, é a mais dura realidade, para deleite dos rubronegros, e tristeza de alvirrubros, tricolores e apreciadores de boas competições.

Que comece a missa fúnebre...

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