sexta-feira, 5 de março de 2010

Ateísmo, espiritualidade e budismo

No último domingo, participei de uma celebração religiosa singular: a Cerimônia de Refúgio na Joia Tríplice, realizada no Templo Budista Fo Guang Shan localizado em Olinda. Tal evento é algo mais ou menos equivalente a um batismo no budismo, feito por aqueles que desejam se tornar formal e publicamente budistas. A Joia Tríplice compreende o Buda, o Darma e a Sanga que são, respectivamente, o iluminado precursor da compreensão das profundezas da espiritualidade humana e potencialidades de sua realização, os ensinamentos da filosofia de vida budista e a comunidade de budistas, monges e leigos, embora algumas linhagens do budismo chinês considerem Sanga apenas a comunidade monástica. Ao fazer os votos, o budista declara de público a vontade de fazer do budismo sua filosofia de vida.

Pela manhã, fomos brindados com uma palestra do Mestre chinês Hsin Ting (foto), vindo diretamente de Taiwan para falar sobre “Carma e Lei de Causa e Efeito”, bem como para presidir a Cerimônia especial à tarde. O referido Mestre é um dos grandes nomes mundiais do budismo humanista, da linhagem Mahayana, e foi Abade Geral da Ordem Monástica Fo Guang Shan, que possui templos espalhados por todos os continentes do mundo.

Já há algum tempo venho fazendo leituras budistas a partir da teoria e prática da meditação zen. A doutrina budista me responde muitas das indagações espirituais que sempre me fiz e que as demais religiões, pelas quais não obstante nutro profundo respeito, não me respondiam.

O cristianismo ocidental no qual fui educado, seja na modalidade católica ou protestante/evangélica, faz em geral um proselitismo militante do tipo “venha e creia”, baseado na autoridade de padres, pastores, bispos e papas que dizem “verdades de fé” reproduzindo ou interpretando a Bíblia, “verdades” estas que devem ser aceitas ainda que não façam muito sentido. A fé agostiniana do “creio, mesmo que absurdo!” (creo quid absurdum).

Não vi tal proselitismo no budismo. Os budistas normalmente vão dizer “venha e veja” ao invés de “venha e creia”. É fé religiosa, mas profundamente embasada na racionalidade de suas premissas e consequências. A inteligibilidade da ideia do carma, da lei de causa e efeito, dos diversos planos espirituais dos seres sencientes me chama a atenção, assim como o aspecto concreto dos méritos espirituais com a prática sincera e irrestrita do bem e o equilíbrio corpo-mente-espírito proveniente de atividades meditativas e contemplativas que ensejam paz e tranqüilidade aos praticantes. Parece ser, como afirmou o Mestre Hsin Ting, o “creio, pois faz sentido”.

É claro que pessoas com espiritualidade aguçada e profunda existem em todas as religiões e mesmo fora delas. Conheço católicos, evangélicos, judeus, espíritas, islâmicos, agnósticos e ateus, bem como crentes em Deus sem religião definida, que possuem grande espiritualidade e praticam verdadeiramente o que pregam, com tolerância e respeito aos demais. Qualquer religião pode servir de caminho ao engrandecimento espiritual. Só não pode ser considerada “o único caminho”. É aí, quando posam de “donas da verdade”, que as religiões começam a criar problemas (e quantas guerras e assassinatos se fizeram em nome de Deus...).

No caso do budismo, historicamente, não há uma única guerra associada a tentativas de sua expansão. Os países de maioria budista enfrentaram guerras como todos, algumas terríveis, mas não por razões de expansionismo religioso.

O curioso é que levei um amigo, que se diz(ia) ateu, para assistir a Cerimônia. Havia comentado a respeito e ele se interessou bastante. Como o budismo é uma religião não teísta (no sentido de acreditar em um Deus que interfira diretamente nas coisas humanas), o diálogo com ateus e agnósticos que se sentem impelidos à espiritualidade, mas esbarram na ilogicidade de um Deus antropomórfico feito à imagem e semelhança do homem e presente na maioria das religiões, fica bastante facilitado. Deus certamente está muito além desse tosco entendimento humano, tendo criado em algum momento leis físicas e espirituais universais que sempre se aplicam. Cabe a nós tentar compreendê-las e usá-las em favor de toda a humanidade.

E é por isso que nenhuma religião, nem mesmo o budismo, possui plenamente a verdade. Mas a ampla compatibilidade da doutrina budista com o conhecimento científico demonstra que fé e ciência podem sim andar juntas e não necessariamente são antitéticas.

Pois é, e o "ateu" ficou encantado e disse que quer continuar frequentando o templo. Isso serve para enxergarmos que a nossa espiritualidade pode brotar e frutificar onde e em quem quer que seja e é preciso percebê-lo de forma despreconceituosa, com a mente aberta, tolerante e respeitosa.

Já vi tanta gente dizer que só quem acredita em Deus é espiritualizado. Que bobagem...

De minha parte, continuarei a eterna busca de engrandecimento e evolução espiritual, aspiração permanente e interminável de todos nós, mas tão pouco provável de alcançar de forma plena...

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”.

5 comentários:

Talden Farias disse...

Esse texto me lembrou o artigo que Jorge Luis Borges, escritor argentino, escreveu sobre o assunto. Apesar de ter sido ateu declarado por quase toda a vida, Borges se identificava profundamente com o budismo. No texto, o portenho esclarece bem a relação entre essa doutrina e a desnecessidade de crença em uma pessoa ou em uma palavra específica. Inclusive, em alguns países esse pequeno ensaio chegou a ser publicado como livro autônomo. Parabéns pelo texto e pela cerimônia.

Marcondes Alberto Pinto de Araujo disse...

Olá professor, sou ex-aluno seu. Achei o assunto interessante,concordo plenamente que pode-se alcançar um sentido para a nossa existência onde há simplicidade e liberdade de pensamento. Sou ateu, e vejo a agressão pscicológica com que a maioria das religiões atuam no meio social, antes de quererem pregar a existência de um "Deus" as entidades religiosas promovem suas "convicções" expansionistas.

Emanuela disse...

Estava procurando na internet um lugar que tivesse meditação...e por felicidade minha encontrei seu blog...gostei bastante dos seus textos...inclusive os que vc comenta sobre sua experiência na meditação. Eu ando em busca de espiritualidade...me interessei em conhecer o templo. Obrigada por contribuir através dessas leituras. Assim fica mais fácil acreditar que posso encontrar o q procuro...

Emanuela disse...

Estava procurando na internet um lugar que tivesse meditação...e por felicidade minha encontrei seu blog...gostei bastante dos seus textos...inclusive os que vc comenta sobre sua experiência na meditação. Eu ando em busca de espiritualidade...me interessei em conhecer o templo. Obrigada por contribuir através dessas leituras. Assim fica mais fácil acreditar que posso encontrar o q procuro...

Marcela disse...

Ótimo post, simpatizo com os princípios budistas, apesar de muito pouco conhecê-los, e a leitura do seu texto me aguçou ainda mais essa vontade.