quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"O Grupo Baader-Meinhof" e "Che": ideologia com honestidade

















Neste final de ano, estou tirando o atraso nos filmes que não assisti durante 2009. Nos últimos dias, vi muitos filmes, felizmente todos bons. Não dá para comentar todos eles agora, mas dois me chamaram a atenção como thrillers políticos, com tramas bem concatenadas, abordagens realistas e produções muito bem elaboradas. Falo de "O Grupo Baader-Meinhof" (Der Baader Meinhof Komplex), de Uli Edel (Christianne F.), e "Che" (1 e 2, mas que na prática é um filme só), de Steven Sorderbergh (Traffic/Sexo, Mentiras e Videotape).

Os dois filmes, embora em espectros ideológicos e cinematográficos bem distintos, são duas obras primas e possuem uma qualidade que me chamou a atenção: apesar de francamente ideológicos, são profundamente honestos e não sectários. Neles, não há maniqueísmos fáceis, nem defesa apaixonada de um dos lados, embora a abordagem das duas histórias, ambas reais, são pautadas por simpatias ideológicas à direita (1° caso) e à esquerda (Che).

Começo por esse último. "Che", filme dividido em duas partes, é bem simpático à figura do guerrilheiro cubano-argentino Ernesto Che Guevara, auxiliar direto de Fidel Castro à época da Revolução Cubana de 1959. Magistralmente interpretado por Benicio Del Toro (ótimo ator, mas dirigido por Sorderbergh - como em "Traffic" - parece ir ao ápice das boas atuações), Guevara é mostrado como um sujeito idealista e bastante empenhado em praticar aquilo que defendia na teoria, qualidade rara nos políticos de hoje e de sempre. Viu na luta armada, no contexto latinoamericano dos anos 50/60 do século passado a única forma de enfrentar e vencer o imperialismo norteamericano e a exploração dos trabalhadores pelas classes dominantes locais nos países da América Latina.

Contudo, embora simpático a Guevara, o filme não o mostra como aqueles herois folhetinescos, com músicas melodiosas para despertar emoções favoráveis na plateia e frases feitas proferidas quase epicamente em meio a batalhas sangrentas. O filme é seco, quase sem música, em um estilo semidocumental. Praticamente não há bordões ou frases de efeito, a não ser em uns poucos discursos lidos, como na parte em que Guevara discursa na Assembleia Geral da ONU. Embora seja um sujeito ético, Guevara é, antes de tudo, um guerrilheiro consciente de sua missão e não hesita em matar ou fuzilar quando isso se mostra necessário em seu entender.

Sorderbergh também não se preocupa em demonstrar detalhadamente atrocidades cometidas contra os trabalhadores e camponeses pelas ditaduras latinoamericanas, embora isso esteja claramente presente nos diálogos dos guerrilheiros. Também não há qualquer preocupação em mostrar que o regime socialista cubano também se tornou uma ditadura. A intenção parece ser pura e simplesmente mostrar a trajetória de Che Guevara do encontro com Fidel Castro até a morte pelos soldados do Exército Boliviano na selva daquele país. E é muito bem sucedido em seu intento.

Filme de excelente qualidade, ideológico à esquerda, mas honesto e distante de sectarismos extremistas.

O primeiro, "O Grupo Baader-Meinhof", é um dos melhores filmes do recente cinema alemão. Embora ideologicamente distinto, é igualmente honesto e distante de sectarismos à direita.

O filme de Uli Edel mostra a trajetória do RAF (Rote Armee Fraktion - Fração do Exército Vermelho), grupo de revolucionários alemães de extrema esquerda, que ficaram mais conhecidos como Grupo Baader-Meinhof, por causa dos sobrenomes de Andreas Baader (o líder das ações do grupo) e de Ulrike Meinhof (a cabeça teórica do mesmo).

O Baader-Meinhof (que virou até música do Legião Urbana - Baader-Meinhof Blues) se inseriu no âmbito do movimento estudantil dos anos 60/70 do século passado e iniciou como um grupo de jovens contestadores da ordem vigente na Alemanha Ocidental e do imperialismo norteamericano no mundo. Ao perceberem que o legado do nazifascismo ainda permeava as cabeças de muitos alemães, os referidos jovens decidem contestar não mais com palavras, mas com ações, já que acreditavam que o Estado alemão ocidental não passava de títere dos EUA e servia à opressão mundial. Daí passam a engendrar uma guerrilha urbana contra o Estado, praticando assaltos, sequestros, assassinatos e atos de terrorismo, espalhando pânico na população e nas autoridades. De jovens idealistas a crueis e manipuladores assassinos, o Baader-Meinhof se perde totalmente em relação aos limites do que deve ser uma atuação contra o sistema. No excesso de humanismo e de solidariedade com os oprimidos, paradoxalmente se tornaram pessoas extremamente desumanas e opressoras.

A pretensão do filme, que reúne grandes atores do cinema alemão contemporâneo, como Bruno Ganz ("A Queda - As Últimas Horas de Hitler") e Martina Gedeck ("A Vida dos Outros"), é explicitar mesmo a crueldade e a falta de limites razoáveis na ação revolucionária do Baader-Meinhof, segundo afirmou o próprio diretor. Andreas Baader, Ulrike Meinhof, Gudrun Ensslin e os demais se tornaram profundamente perversos em nome de uma ideologia que nem mesmo conseguiam definir consistentemente, para além de uma vaga luta contra a opressão capitalista e a tirania fascista (o treinamento nos campos de guerrilheiros da Jordânia mostra bem esse despreparo teórico dos membros do RAF).

Contudo, o que eu acho profundamente honesto do filme é que ele também mostra o porquê do discurso e da ação desse grupo ter tido um apelo popular tão forte. A mentalidade fascista de parte da sociedade (demonstrada de modo muito contundente com a tentativa de assassinato do líder estudantil Rudi Dutschke por um extremista de direita), a injustificável e violenta repressão dos protestos estudantis contra a visita do Xá Reza Pahlevi, então soberano do Irã, a Berlin Ocidental e os maus tratos do sistema aos renegados da sociedade são mostrados sem retoques, o que faz parecer correto o discurso defendido por Horst Herold, policial que foi o principal responsável pelo desbaratamento do grupo. Afirma o personagem de Bruno Ganz que "não se justifica a ação terrorista do Baader-Meinhof, mas é necessário compreender os seus motivos", respondendo a uma autoridade alemã que possuía o simplista raciocínio que "terroristas são terroristas e ponto final".

Um filme complexo, com muita ação (chega a lembrar em alguns momentos os bons filmes de ação dos EUA), mas com aquele toque perfeccionista alemão, sobretudo na profundidade possível de ser abordada em um filme de duas horas e meia, o que o faz inegavelmente superior à quase totalidade dos filmes de Hollywood. Um verdadeiro thriller político-policial.

A produção do filme é excepcional e ainda vale destacar a magnífica performance de Moritz Bleibtreu como Andreas Baader. Outro destaque é a incrível semelhança dos atores com os reais personagens do filme.

Qualquer um dos dois filmes são ótimas pedidas para este final de ano e início do próximo. Filmes que tratam o espectador como um ser realmente pensante e não insultam a nossa inteligência. Valem a pena.

O falar nordestino



Apesar de ser nordestino e pernambucano com muito orgulho, nunca gostei de fazer da nordestinidade ou pernambucanidade um cavalo de batalha. Aliás, é uma questão que às vezes beira a histeria, principalmente quando se discute futebol em Pernambuco, a ponto de alguns acharem que, p. ex., quando um alvirrubro torce contra o Sport ou um rubronegro fica "secando" o Náutico, estariam cometendo uma espécie de crime de "lesa-pátria". Acho isso uma bobagem, o Estado e os clubes são coisas diferentes e, se o sujeito coloca o bairrismo acima do clubismo, vai torcer para os times de Pernambuco no confronto com os de outro Estado; se, ao contrário, o clubismo prepondera, aflui a questão da rivalidade e o cidadão torce apenas pelo seu time e contra os rivais diretos. Ora, ambas as opções são legítimas e merecem respeito.

Por outro lado, acho terrível quando os nordestinos se envergonham, p. ex., do seu sotaque e ficam querendo imitar os sotaques do Sul-Sudeste, como se houvesse alguma inferioridade no nosso modo de falar. Até mesmo os telejornais locais são muito condicionados a um sotaque próprio padronizado sem permitir que as diferenças regionais possam se estabelecer naturalmente, como se falar com sotaque nordestino fosse falar errado.

Ora, fala-se certo ou errado em qualquer sotaque.

Particularmente penso que a diversidade é que faz a riqueza de um país ou de uma região e padronizar excessivamente sufoca aquilo que é natural aos povos e culturas.

Tendo em vista essa temática, transcrevo abaixo o texto de um ex-aluno meu em Ciência Política, Wander Amorim, que traz várias curiosidades sobre o nosso modo de falar e motivos para nos orgulharmos de nossa nordestinidade, sem qualquer sentimento de inferioridade ou superioridade em relação a gaúchos, paulistas ou mineiros que, de modo assemelhado, têm também sua própria cultura e tradições muito ricas e belas. O texto reflete um pouco o que penso sobre o assunto.

Aí vai, editado por mim para o post (o blog de Wander é http://www.thenetwanderer.blogspot.com/):

"Notando que poucas pessoas têm real conhecimento sobre a origem das peculiaridades dos sotaques dos vários estados do Nordeste, das nossas várias palavras e expressões; e pior, vendo que esta falta de conhecimento é um dos fatores preponderantes que levam a uma deterioração do orgulho na nossa maneira de falar (e por conseguinte até na nossa própria História), percebo que é de grande importância que ao menos alguém fale um pouco mais sobre aspectos esquecidos do nosso sotaque, tão carregado de símbolos e de riqueza histórica.

Depois de obter a mínima informação, qualquer pessoa consegue perceber que essa conversa toda de sotaque mais bonito ou mais feio, mais "correto", ou mais "errado", não passa de mera ladainha que vem servir apenas como mais uma das bases de dominação dos centros às periferias, assim como são as econômicas, políticas ou quaisquer outras. Vendo isto, e aproveitando meu conhecimento sobre diversas formas de falar de portugueses e espanhóis, resolvi esclarecer alguns pontos sobre nosso dialeto os quais, espantosamente ninguém conhece, mas que chegam a ser coisa meio óbvia, a fim de demonstrar o quão ricos são os sotaques nordestinos. Para tanto, tendo em vista um enriquecimento da leitura por parte do leitor, vou usar como recurso certas ligações, à semelhança duma Wikipédia.

Começo a falar sobre o assunto tomando a princípio duas das mais famosas expressões nordestinas, expressões que muitas vezes são tidas como símbolo maior da "ignorância" (não sei por que logo "ignorância", mas enfim) nordestina: nomeadamente, o "oxe" e o "vixe". Para quaisquer dúvidas inciais, a palavra "oxe" (diminutivo de "oxente") tem seu significado proveniente de "ó gente", e expressa sensação de estranheza para os habitantes do Nordeste brasileiro. Embora muitos não saibam, assim como as palavras "vixe" e "vige" (provenientes de "vixe Maria"), que por sua vez vêm de "virgem Maria" (expressando espanto), "oxente" na verdade já vem dos antigos sotaques do Portugal nortenho, mais precisamente dos portugueses transmontanos e alto minhotos que migraram ao Nordeste ainda nos tempos de colônia; além de vir também dos dialetos das várias levas de galegos (povo proveniente do Noroeste da Espanha) que vieram ao Brasil. Nas províncias portuguesas de Trás-os-Montes e Alto Minho, em muitos lugares é comum falar "paxar", em vez de "passar"; "raxo", em vez de "raso", "xente", em vez de "gente", e "virxe" ao invés de "virgem" etc. Na língua galega, tais formas são tidas inclusive como, mais que meras formas de sotaque, as oficiais pela academia que rege a língua, sendo comum ouvir-se pela região gritos de "ó xente" (ó gente).

Para se verificar melhor essa relação, veja-se que em muitas regiões do Nordeste do Brasil, "galego" é o termo mais popular para identificar pessoas com aparência norte-europeia, tal como os vocábulos "alemão" e "russo" são usados em São Paulo. Isso ocorre principalmente porque no Nordeste os alemães não marcaram tanta presença, e portanto durante o período colonial até a primeira metade do século XX, as pessoas mais claras eram majoritariamente do Portugal do Norte e da fronteira Galega, onde as pessoas são por natureza mais alvas e de cabelos mais claros. Isso até por fatores referentes à história da povoação de ambas as regiões, majoritariamente composta de tribos celtas, como os brácaros (oriundos da região de Braga, Portugal) e os celtiberos (que inclusive saíram daquela área para colonizar as ilhas britânicas anos mais tarde, mas esta é outra história), além dos posteriores povos germânicos,notadamente os suevos, não havendo ali significante presença moura. É curioso que no Nordeste seja corriqueiro o uso da palavra "galego" para designar pessoas com tais características, mas que pouco se saiba sobre a origem dessa palavra, que tão claramente nos remete à Galiza espanhola. Muita gente acredita que a grande incidência de pessoas com caracteres norte-europeus (cabelos e olhos claros) no interior do Nordeste do Brasil (principalmente nas áreas interiores dos estados de Pernambuco e Paraíba) se deve sobretudo aos holandeses que teriam fugido sertão adentro na época da reconquista portuguesa. Esta tese não deve ser descartada; pelo contrário, é muito plausível. Apesar da carência de provas documentadas sobre as famílias flamengas no interior (até porque eram fugidas, logo não queriam dizer aos quatro cantos que eram estrangeiras, e por conseguinte preferiram ir aos lugarejos mais isolados), temos vários indícios revelando a razoabilidade dessa teoria, tais como as tradições orais do povo, além da aparência. Porém tal tese se complementa melhor também pela da imigração galega.

O Sul da Galiza mandou ao longo de séculos muitos colonos ao Brasil, sendo quase impossível determinar quantos brasileiros possuem ao menos um ancestral galego hoje em dia. É sabido que o português do Brasil (ao menos em sua fonética) é mais fiel ao português arcaico (parecido com o galego) do que ao português de Portugal, daí que muitas vezes seja mais fácil para nós entendermos um habitante da Galiza do que um luso (se falarmos dos açorianos então, aí nem se discute). Palavras das mais diversas, comuns no falar simples dos interiores do Brasil (muitas vezes tidas como simples expressões de ignorância por parte das camadas mais humildes), vêm comprovar as heranças linguísticas peculiares.

O tido como tão nordestino "cabra", por sua vez é outro termo que é originário da influência do português falado no Nordeste brasileiro nos tempos de colônia. O comum "cabra da mulesta", por exemplo, vem de "cabra da 'moléstia'" (o "o" átono torna-se um "o" puxado ao som de "u", como é comum em Portugal), que por sua vez vem de "'cabrão' da moléstia". "Moléstia", coisa ruim, perigosa, doença... como é sabido por todos. Já "cabrão", em várias regiões de Portugal, é o mesmo que homem ruim, mais comumente -safado-. Na península Ibérica essa palavra (modificada de acordo com os devidos dialetos regionais) é muito usada para chamar alguém de "coisa ruim" ou algo do gênero; basta ver também a forma espanhola "cabrón", "cabrón de mierda", etc. e sua etimologia. No Nordeste do Brasil ao longo do tempo mudou-se a palavra de "cabrão" para "cabra". "Cabra da mulesta", "cabra da peste", querem dizer em síntese alguém valente, perigoso, forte. Nada se tem a ver com o animal. Muitas vezes algumas pessoas que nunca nem no Sertão já pisaram querem dar uma etimologia como que teatral à palavra. Frequentemente se vê um desinformado, convicto de suas credenciais só porque é professor doutor da Universidade de Algum Lugar do Sul, opinar aqui e ali que a palavra se dá em razão de o "homem nordestino" (o tal "homem nordestino", aquele dos filmes e novelas sudestinos, que não somos nós) ser, por exemplo, "forte que nem cabra", e outras dessas coisas que na verdade, por mais que possam não parecer à primeira vista, revelam uma visão um tanto estereotipada da região e de seu povo (como se Nordeste fosse só Sertão das secas brabas e vaqueiros perecendo sob o Sol e a palma). A palavra viria, segundo eles, em razão de o homem nordestino ser forte como cabra, muito forte, porque é "sertanejo que sobrevive superando todos os sofrimentos, da dentição difícil, do sarampo certo, da caxumba, da desidratação inevitável, da catapora, da coqueluche e do amarelão, e de tudo mais que atormenta a vida de um cristão nascido no Nordeste"... e de todo mais aquele bafafá estereotipado que já nos cansa os ouvidos como nordestinos normais, e não meros coitados, como gosta-se de pintar.

Outro ponto que merece ser valorizado é o que diz respeito ao famoso "visse" nordestino. Na verdade este é outro resquício linguístico que nos remete ao português mais tradicional. É do "viste" e do "ouviste", de fato, que vem o tão comum "visse". Em alguns lugares de Portugal se pergunta com frequência em fim de frase: "viste?" "ouviste?"; bem como em muitos lugares da Espanha: ¿viste?, ¿viste tú?. Aqui tornaram-se o "visse", "viss?" ("viss", isso mesmo, não aquele negócio estranho, aquele "vissíí" tão consagrado por Suzanas Vieras e relacionados). Trata-se apenas dum resquício da conjugação correta dos verbos na segunda pessoa que permanece no Nordeste, embora adaptada a um sotaque regional; forma que no Sul já não existe mais (ao menos popularmente) tendo lá o "tu" uma conjugação -sempre- associada à terceira pessoa (a que se associa ao "você"): "tu falou", "tu pagou", "tu comprou" (confundindo-se com "você falou", "você comprou", etc.). No Nordeste só se mudou a pronúncia do "t", que passou a ser mais imperceptível adequando-se à característica limpa e como que seca geral dos sotaques da região (aos das áreas de letras e essas coisas, não vou ficar aqui falando daqueles termos estranhos que ninguém sabe o que quer dizer... "africatos", "palato-linguais", "sub-nasais"... etc. É limpo e seco mesmo e acabou-se) tornando-se um "s". A mesma característica seca que transformou o "v" do "ave Maria" num "f" duro do "afe Maria" (muito conhecido como "aff"). Engraçado... "secura" esta que, confesso, não tenho aqui tantas evidências históricas para afirmar mas, veja-se: de onde parece vir essa peculiaridade nordestina, quando vemos que o "v", no neerlandês, pronuncia-se "f" (assim como no alemão...), e quando vemos que o "te" átono (no neerlandês, equivalente ao som de "tie"), nessa mesma língua, pronuncia-se como o nosso átono "se"...? "Secura", na verdade provável resquício de uma herança flamenga em nossos interiores.

No Nordeste, enfim, é muito comum perguntar-se, por exemplo, "fosse?", "comprasse?", "pagasse?" (como diz Lenine em seu clássico Jack Soul Brasileiro); em vez de "foste?", "compraste?" e "pagaste?". Aí se veem traços duma rica herança histórica. Piadas com o "visse" realmente são de fazer rir: faz-se piada, vejam, afinal, com o português correto.

Da Galiza e do português arcaico falado na época colonial ainda vêm os "tamém", "despois", "ferruge", "tresantonte", "saluço", "entonce", "num" ("não", na Galiza "nom"; em Miranda do Douro, "nun"; nas Astúrias, também "nun"). "Em riba", ao invés de "em cima", "a donde", em vez de "aonde"; "derribar", no lugar de "derrubar". Do português nortenho comum ainda hoje temos o "barrer", em vez de "varrer"; "bassoura", ao invés de "vassoura", e mesmo o muito nordestino "brabo", mais forte que o "bravo".

É comum o nordestino dizer que, quando alguém está agitado ou chateado, está "aperreado". Palavra esta que pode ser vista como simples gíria matuta, feia, à qual sudestinos levantam o nariz. Mal se sabe que na verdade nos leva a um rico português arcaico, em que cachorros eram "perros" (assim como ainda são em espanhol) e estar aperreado queria dizer o mesmo que estar entre "perros". Além disso, ainda também do período de União Ibérica, compreendido entre 1580 a 1640, quando Portugal e Espanha formaram um só país, tendo o Brasil (parte de Portugal no momento) por conseguinte sido domínio espanhol, temos várias formas que revelam um rico intercâmbio entre os colonos portugueses e os espanhóis no momento: formas verbais como "vinhesse" ("viesse"); palavras tidas como matutas, como "oitcho", em vez de "oito" (vindo do castelhano "ocho"), "leiche", em vez de "leite" (do castelhano "leche"), "muintcho", ao invés de "muito" (pelo "mucho"); "pregunta", no lugar de "pergunta", entre tantas outras. São palavras comuns à gente simples, não só de várias localidades do Nordeste, mas também de muitos interiores desse Brasil, que muitas vezes são tidas como simples erros de ignorância, nunca sendo vistas como heranças culturais legítimas passadas de pai para filho através dum povo que ainda não perdeu seus traços tradicionais por ocasião de uma maior "educação" moderna, e que detêm de fato sua riqueza histórica (muitas vezes são é o que caracteriza o popular dito de que "o espanhol seria um português mal falado" ou outro desses preconceitos enraizados).

Tais palavras são apenas alguns exemplos indicadores duma identidade linguística que supõe relacionamentos muito antigos. Tudo isto vem comprovar, na ausência de mais fontes históricas documentadas relacionadas à evolução das formas verbais especificamente, a influência do galego e do Norte de Portugal no linguajar nordestino.

Por consequência da colonização, muitas dessas formas, como "vixe Maria" e "oxente", no Brasil, manifestaram-se originalmente na população mais ao interior do Nordeste, onde vários lugares ficaram por muito tempo mais isolados (até pelas características geográficas e econômicas da região). Daí se terem mantido algumas das particularidades daqueles sotaques nortenho e galego.

A população das capitais nordestinas de zonas mais úmidas, como Recife e Salvador, que sempre usaram uma variante da língua mais puxada às tendências modernas, já usam as expressões por influência do interior. As formas abreviadas "oxe", "oxen" e "vixe" são as mais comuns nas grandes cidades, ao contrário do que acontece em várias das cidades menores do interior do Nordeste, onde as formas completas prevalecem.

É engraçado que evidências tão claras, até óbvias, sobre a herança do falar regional não sejam reconhecidas ou sequer notadas por grande parte da população. Tanto brasileira no geral como mesmo a nordestina em si, as quais em vez de valorizar o sotaque e a tradição procurando por material consistente para isso, dedicam-se a debates intermináveis sobre a etimologia de várias palavras que no fim só nos levam a invenções e explicações fajutas, e por muitas vezes cômicas (alguns dizem que "forró", do velho "forrobodó", viria de "for all", nada mais falso. Outros chegam, pior, ao extremo de dizer que "oxente", na verdade viria de "oh shit", por causa de soldados americanos etc.), apenas demonstrando sua falta de conhecimento histórico em relação ao nosso país e às raízes do povo. Além da sua tendência contemporânea ao anglicismo, sempre visto com preponderância sobre a nossa própria História. Definições que só vêm contribuir para a perpetuação do estigma dum Nordeste subserviente, burro da cabeça chata. Esquece-se que o povo brasileiro não é só uma mistura de raças que surgiu magicamente a partir dos 1500 e virou uma coisa própria. No Brasil não há conhecimento relevante ou sequer interesse por parte da população sobre sua própria História verdadeira. Se sabe apenas que houve índios, negros e portugueses. Quem sabe dizer quais tribos habitavam a região onde moram? De que região da África são os tais ancestrais negros cuja identidade muitos defendem a todo custo por aí em movimentos de negritude (com argumentos muitas vezes hipócritas, tem-se que dizer)? Quem eram (ou mesmo são) os portugueses? Ninguém sabe no país. Por isso nem se sabe da existência do povo galego, quem foram nossos antepassados, o que é de fato nossa forma de falar, quem somos no país, de onde viemos mesmo. Quem somos nós, enfim.

Mas voltando ao âmbito da geopolítica, apesar de toda a legitimidade e riqueza aqui demonstrada, tem-se hoje no eixo meridional brasileiro uma visão de que os sotaques das áreas interiores e das áreas mais ao Norte não passam de corruptelas do português sudestino, este o dito "bonito", mais civilizado, e o preferido por todos os meios de comunicação do país (embora eu não saiba quando ao certo, e de onde, vieram concepções tão deturpadas. Talvez saiba, parece-me que toda esta concepção de variante mais culta ou mais matuta, comum a quase todos os povos do mundo com línguas suficientemente grandes para tal, não passam de pura ilusão formada pela propaganda do meio regional mais em destaque em direção ao meio regional menos favorecido). Se há corruptelas, a do Norte que certamente não é. Embora na verdade, o português do Nordeste (e por conseguinte do Norte), no Brasil estabelecido antes do sudestino, seja tão mais preservado e fiel em relação às variantes ibéricas tradicionais (veja-se, por exemplo, o uso do "t" e do "d" junto ao "i" no nordeste nordestino. Especificamente: Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, onde se diz "ti" e "di", e não os comuns sudestinos "txi" e "dji", invenções do eixo Sul guarani brasileiro) e traga tão mais indícios duma herança secular legítima da lingua portuguesa e seus vários gradientes, trata-se hoje duma variante vista por muitos como algo "feio", que deve ser mudado, apenas alvo de simples desdém.

Muitas pessoas que não param para reparar no mundo à sual volta talvez achem que comentários sobre variantes das formas de falar não passariam de detalhes inúteis à vida prática. Mas percebo que na verdade a língua, assim como qualquer outro fator cultural, apresenta-se como ponto crucial no que determina a dominação de uma região por outra, usando-se da instauração, por meio da imposição de mentalidade, da estima fraca às populações mais àmargem, que têm sua identidade deturpada para depois ser ridicularizada. Trata-se dum assunto voltado para a área linguística, mas que não deixa de ter grandes implicações políticas, e sobretudo (e mais importante) práticas. Sobre esse ponto é até cabível a exposição de uma passagem histórica conhecida na qual Elio Antonio de Nebrija, à época dos grandes descobrimentos espanhóis, organizou a primeira gramática duma língua moderna, a Gramática Castelhana, como presente à Rainha Isabel de Castela. Ao entregá-la, disse do que se tratava a obra, e a rainha, meio desdenhosa, respondeu-lhe: "para quê preciso disso, se já sei falar a língua?" Nebrija sagazmente lhe respondeu: "porque as línguas sempre foram companheiras dos impérios".

De acordo com o estudioso, através da língua é que seria possível manter a unidade e o controle sobre os povos conquistados, bem como seria por ela que a empresa de destruir as culturas locais seria facilitada. Nada mais coerente com o que se tem visto desde aqueles tempos até os dias atuais. A propaganda é tudo no que diz respeito à mentalidade dos povos. E assim como a propaganda ao longo dos anos fez do Nordeste e de seu sotaque algo visto muitas vezes através duma visão caricata, também podemos nós nos valer dessa mesma propaganda para incutir (...ou desincutir, se pensarmos bem) em todos uma visão totalmente oposta, que valorize nosso patrimônio e que traga a cada um mais apreço em relação à região Nordeste e à sua História (material em potencial, como foi visto, não falta); o que, associado a vários outros fatores da mesma ordem, por conseguinte contribuiria para nos trazer maior crescimento e desenvolvimento, e enfim uma terra a que se pode chamar, por todos os vieses, de decente.

Valorizemos todos enfim nossa forma de falar. É nobre, é rica, é pura (não põe todas as vogais do alfabeto entre uma consoante e outra, como algumas aí meio assoberbadas ...porque mostraram ao mundo o que é a Cidade de Deus), sendo ao menos a mim engraçado é ouvir piadas em relação a ela, e o pior, de gente sem eira nem beira, a bem da verdade. O sotaque nordestino e todas as suas manifestações traz consigo vários significados antigos e que merecem respeito e nota. O sotaque do Nordeste, além da forma como nos identificamos oralmente, também é uma fonte incontestável da História da região.

Não preciso terminar aqui escrevendo uma frase forçada usando as nossas expressões mais estereotipadas e "arretadas" (...engraçado que eu sempre usei essa palavra mais para dizer que estou muito irritado do que para dizer que uma coisa é "muito boa", como é a forma tão mais divulgada pelo país. Só sou eu...? Tenho essa curiosidade... Enfim) para criar de improviso um sentimento de pertença como muitos fazem por aí quando falam em "defender" o Nordeste. Não é preciso porque este sentimento de pertença já existe, o Nordeste tem uma cultura comum; e porque sabemos como falamos. Não precisamos por nosso orgulho regional também exagerar e nos passar por caricatos que fazem jus às piadas, não precisamos também encher o saco de ninguém por aí afora dizendo: "olha, sou do Nordeste, sou do Nordeste, minha terra!!! ...e as cabras, e a fome!!! ...e a ladainha da palma na terra rachada!!! Que saudade da minha terra!!!" (quando vai ver esses é que são os mais hipócritas: "amam a terra", têm saudade mas não pisam nela há mais de década só passeando na boa por São Paulo). Sabemos que não somos também figuras teatrais dum Auto da Compadecida (ótimo filme, mas apenas isso, filme) para acatar mansamente aos estereótipos sustentados por aqueles que dos nordestinos gostam de fazer piada. Assim é que se impõe a maneira de ser: sendo nós mesmos. Não atendendo forçadamente ao estereótipo do coitado, morto de fome, ou o da galera do "Ó Paí Ó"...

Basta que nós, como verdadeiros brasileiros do Nordeste, valorizemos o que é genuinamente nosso, nosso povo e nossa forma de falar; e achemos enfim estranho que, por exemplo, repórteres que não consigam se expressar em sotaque sudestino não sejam contratados pelos jornais locais (quem dirá nacionais), ou que intérpretes nordestinos sejam discrimidados em conferências. Que o sotaque nordestino seja associado a falta de credibilidade, entre tantas outras coisas do tipo. Sempre de forma natural, nunca vestindo a carapuça.

Não desmerecendo os falares das outras regiões, pelo contrário, valorizando nossas diferenças regionais. Apenas percebo que em relação àqueles o falar dos nordestinos (e sublinhe-se aqui que o Nordeste não tem apenas um sotaque, mas vários sotaques: embora todos igualmente ignorados) é muito escanteado. Tem-se uma grande riqueza oral que deve ser explorada; como a bem da verdade se apresenta tudo neste país. Temos muitos recursos fabulosos, muitas vezes desconhecidos pela população, correndo até o risco de se perderem, e que acabam por não ser explorados. Isso tanto no âmbito linguístico, como no cultural, natural, econômico, profissional, educacional, e por aí se vai."