quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"O Grupo Baader-Meinhof" e "Che": ideologia com honestidade

















Neste final de ano, estou tirando o atraso nos filmes que não assisti durante 2009. Nos últimos dias, vi muitos filmes, felizmente todos bons. Não dá para comentar todos eles agora, mas dois me chamaram a atenção como thrillers políticos, com tramas bem concatenadas, abordagens realistas e produções muito bem elaboradas. Falo de "O Grupo Baader-Meinhof" (Der Baader Meinhof Komplex), de Uli Edel (Christianne F.), e "Che" (1 e 2, mas que na prática é um filme só), de Steven Sorderbergh (Traffic/Sexo, Mentiras e Videotape).

Os dois filmes, embora em espectros ideológicos e cinematográficos bem distintos, são duas obras primas e possuem uma qualidade que me chamou a atenção: apesar de francamente ideológicos, são profundamente honestos e não sectários. Neles, não há maniqueísmos fáceis, nem defesa apaixonada de um dos lados, embora a abordagem das duas histórias, ambas reais, são pautadas por simpatias ideológicas à direita (1° caso) e à esquerda (Che).

Começo por esse último. "Che", filme dividido em duas partes, é bem simpático à figura do guerrilheiro cubano-argentino Ernesto Che Guevara, auxiliar direto de Fidel Castro à época da Revolução Cubana de 1959. Magistralmente interpretado por Benicio Del Toro (ótimo ator, mas dirigido por Sorderbergh - como em "Traffic" - parece ir ao ápice das boas atuações), Guevara é mostrado como um sujeito idealista e bastante empenhado em praticar aquilo que defendia na teoria, qualidade rara nos políticos de hoje e de sempre. Viu na luta armada, no contexto latinoamericano dos anos 50/60 do século passado a única forma de enfrentar e vencer o imperialismo norteamericano e a exploração dos trabalhadores pelas classes dominantes locais nos países da América Latina.

Contudo, embora simpático a Guevara, o filme não o mostra como aqueles herois folhetinescos, com músicas melodiosas para despertar emoções favoráveis na plateia e frases feitas proferidas quase epicamente em meio a batalhas sangrentas. O filme é seco, quase sem música, em um estilo semidocumental. Praticamente não há bordões ou frases de efeito, a não ser em uns poucos discursos lidos, como na parte em que Guevara discursa na Assembleia Geral da ONU. Embora seja um sujeito ético, Guevara é, antes de tudo, um guerrilheiro consciente de sua missão e não hesita em matar ou fuzilar quando isso se mostra necessário em seu entender.

Sorderbergh também não se preocupa em demonstrar detalhadamente atrocidades cometidas contra os trabalhadores e camponeses pelas ditaduras latinoamericanas, embora isso esteja claramente presente nos diálogos dos guerrilheiros. Também não há qualquer preocupação em mostrar que o regime socialista cubano também se tornou uma ditadura. A intenção parece ser pura e simplesmente mostrar a trajetória de Che Guevara do encontro com Fidel Castro até a morte pelos soldados do Exército Boliviano na selva daquele país. E é muito bem sucedido em seu intento.

Filme de excelente qualidade, ideológico à esquerda, mas honesto e distante de sectarismos extremistas.

O primeiro, "O Grupo Baader-Meinhof", é um dos melhores filmes do recente cinema alemão. Embora ideologicamente distinto, é igualmente honesto e distante de sectarismos à direita.

O filme de Uli Edel mostra a trajetória do RAF (Rote Armee Fraktion - Fração do Exército Vermelho), grupo de revolucionários alemães de extrema esquerda, que ficaram mais conhecidos como Grupo Baader-Meinhof, por causa dos sobrenomes de Andreas Baader (o líder das ações do grupo) e de Ulrike Meinhof (a cabeça teórica do mesmo).

O Baader-Meinhof (que virou até música do Legião Urbana - Baader-Meinhof Blues) se inseriu no âmbito do movimento estudantil dos anos 60/70 do século passado e iniciou como um grupo de jovens contestadores da ordem vigente na Alemanha Ocidental e do imperialismo norteamericano no mundo. Ao perceberem que o legado do nazifascismo ainda permeava as cabeças de muitos alemães, os referidos jovens decidem contestar não mais com palavras, mas com ações, já que acreditavam que o Estado alemão ocidental não passava de títere dos EUA e servia à opressão mundial. Daí passam a engendrar uma guerrilha urbana contra o Estado, praticando assaltos, sequestros, assassinatos e atos de terrorismo, espalhando pânico na população e nas autoridades. De jovens idealistas a crueis e manipuladores assassinos, o Baader-Meinhof se perde totalmente em relação aos limites do que deve ser uma atuação contra o sistema. No excesso de humanismo e de solidariedade com os oprimidos, paradoxalmente se tornaram pessoas extremamente desumanas e opressoras.

A pretensão do filme, que reúne grandes atores do cinema alemão contemporâneo, como Bruno Ganz ("A Queda - As Últimas Horas de Hitler") e Martina Gedeck ("A Vida dos Outros"), é explicitar mesmo a crueldade e a falta de limites razoáveis na ação revolucionária do Baader-Meinhof, segundo afirmou o próprio diretor. Andreas Baader, Ulrike Meinhof, Gudrun Ensslin e os demais se tornaram profundamente perversos em nome de uma ideologia que nem mesmo conseguiam definir consistentemente, para além de uma vaga luta contra a opressão capitalista e a tirania fascista (o treinamento nos campos de guerrilheiros da Jordânia mostra bem esse despreparo teórico dos membros do RAF).

Contudo, o que eu acho profundamente honesto do filme é que ele também mostra o porquê do discurso e da ação desse grupo ter tido um apelo popular tão forte. A mentalidade fascista de parte da sociedade (demonstrada de modo muito contundente com a tentativa de assassinato do líder estudantil Rudi Dutschke por um extremista de direita), a injustificável e violenta repressão dos protestos estudantis contra a visita do Xá Reza Pahlevi, então soberano do Irã, a Berlin Ocidental e os maus tratos do sistema aos renegados da sociedade são mostrados sem retoques, o que faz parecer correto o discurso defendido por Horst Herold, policial que foi o principal responsável pelo desbaratamento do grupo. Afirma o personagem de Bruno Ganz que "não se justifica a ação terrorista do Baader-Meinhof, mas é necessário compreender os seus motivos", respondendo a uma autoridade alemã que possuía o simplista raciocínio que "terroristas são terroristas e ponto final".

Um filme complexo, com muita ação (chega a lembrar em alguns momentos os bons filmes de ação dos EUA), mas com aquele toque perfeccionista alemão, sobretudo na profundidade possível de ser abordada em um filme de duas horas e meia, o que o faz inegavelmente superior à quase totalidade dos filmes de Hollywood. Um verdadeiro thriller político-policial.

A produção do filme é excepcional e ainda vale destacar a magnífica performance de Moritz Bleibtreu como Andreas Baader. Outro destaque é a incrível semelhança dos atores com os reais personagens do filme.

Qualquer um dos dois filmes são ótimas pedidas para este final de ano e início do próximo. Filmes que tratam o espectador como um ser realmente pensante e não insultam a nossa inteligência. Valem a pena.

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