terça-feira, 7 de julho de 2009

Por que ainda se inspiram neles...


Sempre esteve presente em minhas reflexões políticas e filosóficas o papel das ideologias políticas e das visões individualistas e coletivistas de sociedade e de mundo. E tem feito parte das mesmas, já há algum tempo, uma perspectiva de análise racionalista crítica.

Em alguns períodos de minha vida, acreditei muito na igualdade como princípio básico da convivência social humana. Embora continue acreditando que uma desigualdade social obscena como a do Brasil e de outros países seja um grave empecilho para o exercício de uma série de outros direitos e que uma igualdade básica é fundamental em qualquer sociedade, vejo a diferença, e não a igualdade, como um princípio filosófico-político ainda mais importante. É no respeito ao diferente, seja em que sentido for (religioso, ideológico, preferência sexual etc.), que me parece estar o mais importante aspecto de uma sociedade melhor, assim como de um indivíduo melhor.

A imposição de uma visão de superioridade de um paradigma político-social é algo que inevitavelmente conduz à autoritarismos e totalitarismos, como já coloquei aqui em outros posts.

Essas reflexões sempre me fazem recordar das experiências socialistas do século XX, o chamado "socialismo real", para mim, a maior discrepância entre teoria e prática que já existiu como experiência histórica, embora eu creia que com o aprendizado que esta última propiciou à humanidade, pode-se antever possibilidades em relação a qualquer ideologia, religião ou visão de mundo que se pretenda absoluta dona da verdade. Os resultados tendem a ser semelhantes.

Os slogans e palavras de ordem socialistas ainda mobilizam muito, principalmente nos países periféricos, por uma razão até certo ponto simples: a ineficácia do capitalismo em resolver problemas básicos da humanidade e no seu caráter exacerbadamente desigual. A verdade é que o capitalismo deixa a maioria dos seres humanos à margem do processo produtivo, daí o socialismo enquanto ideia ser um apelo profundamente interessante.

O problema é quando as experiências socialistas concretas, principalmente as denominadas “comunistas” (Leste Europeu, União Soviética, Cuba, Coreia do Norte), sob a generosa ideia marxista de abolir a exploração do homem pelo homem, transforma o agir institucional e político em um mecanismo de aniquilação do “indivíduo pequenoburguês egoísta” em prol do homem novo em uma sociedade nova. A sociedade, o povo, esse ente abstrato em primeiro lugar e o indivíduo em último. Basta olhar a História e ver que isso gerou a primazia absoluta dos detentores do poder e não do povo. Quem fosse contra, ainda que somente no plano das ideias, era ” inimigo do povo” e, como tal, aniquilado.

A generosa utopia marxista gerou um pesadelo ainda pior que o capitalismo. O custo humano da experiência socialista “real” foi de mais de 100 milhões de mortos, sendo “comunistas” os 2 maiores genocidas da História (por incrível que pareça, Hitler não está entre eles, o que, é claro, não torna menos grave o que fizeram os nazistas): Stalin, o maior genocida de todos os tempos em números absolutos (as estatísticas mais tênues apontam cerca de 20 milhões de mortes diretamente associadas a ele e à sua máquina de terror) e Pol Pot, ditador do Camboja entre 1975 e 1979, o maior genocida de todos os tempos em números relativos, tendo dizimado cerca de 1 milhão de cambojanos, cerca de 20% da população do país, através do terror do Khmer Vermelho.

Por isso que, diante da imperfeição humana, prefiro acreditar nas sociedades abertas, como defendeu Karl Popper. A capacidade de o homem, em sua imperfeição, chegar a soluções mais razoáveis tendo como pressuposto a inexistência de verdades absolutas, sejam elas políticas, religiosas ou filosóficas, e a humildade de admitirmos que “eu posso estar errado e você pode estar certo, e juntos, nesse estado de espírito, podemos nos aproximar da verdade” (Karl Popper afirma isso na “Sociedade Aberta e Seus Inimigos”). Seja como princípio científico ou filosófico-político, isso me parece mais acertado.

Desenvolver e aprofundar a democracia ainda parece mais interessante do que estipular experiências substancialmente ricas em bons propósitos, mas pobres no respeito à diferença.

Veja-se a experiência dos países nórdicos, largamente influenciada pelo keynesianismo econômico (para mim, ainda um referencial importante, ao menos a nível principiológico): são eles que mais se aproximaram de extrair o que há de bom no capitalismo e no socialismo, deixando de lado a maior parte de seus defeitos. Nem o capitalismo selvagem do liberalismo à EUA, nem o socialismo “real” à Leste Europeu. Um não a totalitarismos de qualquer espécie e um saudável equilíbrio entre individualismo e coletivismo, sem supremacia absoluta de um sobre o outro.

Há leituras sempre atuais e recomendáveis sobre os assuntos deste post. Recomendo em especial:
Karl Popper: A Sociedade Aberta e seus Inimigos
Hannah Arendt: Origens do Totalitarismo (ed. Cia. das Letras)
Tina Rosenberg: Terra Assombrada (Ed. Record)
George Orwell: 1984/A Revolução dos Bichos

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