sexta-feira, 12 de junho de 2009

Os "mais iguais" de nossa "res publica"

Foi publicado no blog Acerto de Contas o seguinte texto, de autoria de meu amigo Pierre Lucena:

"Ontem saí a pé do Tepan, na Encruzilhada, até o Arruda para ver o jogo da Seleção. Como a Avenida Beberibe estava interditada, o “povo” foi andando até o estádio. Esta foi uma medida acertada para evitar trânsito caótico. No meio do caminho, nunca vi tanto policial na minha vida.

Mas eis que de maneira pouco discreta, um carro oficial de uma “otoridade” do Tribunal de Justiça de Pernambuco passa rasgando a patuléia que se dirigia ao Mundão do Arruda. Foi devidamente escoltado pela PM até o estádio, onde foi assistir ao jogo do Brasil. Na saída foi o mesmo procedimento, e um leitor atento bateu uma foto do celular. A foto ficou com resolução péssima pois o carro da “otoridade” estava rasgando a Avenida Beberibe, após “compromisso oficial”.

Daí perguntar não ofende.

Dado que está proibido pelo CNJ a utilização de carro oficial sem estar no horário do expediente, quem seria a “otoridade” número 004 -Desembargador do TJPE?"

Quis colocar a foto em questão aqui no blog, mas não consegui. Mas quem quiser conferir, é só acessar http://acertodecontas.blog.br/atualidades/perguntar-no-ofende-60/#comments.

Na minha insignificância diante de suas magnificências, "otoridades" certamente de plantão e "vítimas" da "indiscrição" e "maledicência" alheias, ainda assim arrisquei postar um comentário lá no Acerto de Contas que entendi pertinente a sua transcrição aqui no blog. Ei-lo:

"É um problema cultural sério.

O curioso é que quando encontro alguém (sou do meio jurídico e convivo com algumas dessas pessoas) que é autoridade e que não abusa de suas prerrogativas, chega a ser motivo de admiração para alguns (”incrível, ele tem direito a carro oficial e não usa!”) ou, ainda pior, de escárnio para outros (”Que otário! Tem direito a isso e não usa, é um idiota!”).

A mim, que trabalho com a formação dos futuros juristas, isso é ainda mais desafiador e difícil, pois tentar mudar uma cultura tão arraigada é tarefa que certamente atravessará gerações. Provavelmente, Andrei deve estar certo: se mudar, deve levar algumas décadas, pelo menos.

O grande problema é que, seja o Congresso, a Administração Pública ou o Judiciário, queiramos ou não admitir, são a cara da população brasileira.

Em nossa cultura política e social, esquecemos que autoridades somos alguns durante algum tempo e que cidadãos somos todos o tempo todo.

A maioria dos que bradam raivosamente contra a pouca vergonha do governo Lula ou FHC, que dizem que os parlamentares são todos ladrões e que os juízes são venais e corruptos, na primeira oportunidade que têm, fazem a mesma coisa ou ainda pior.

Pseudoarautos da moralidade e dos bons costumes, sua indignação não é pela defesa da coisa pública, do Estado de direito e da cidadania: trata-se de simples revolta por que “esses aí” estão lá se beneficiando e “eu” não; “eu” não tenho essa boquinha.

Então “eu” quero que tudo continue como está, apenas “comigo” no lugar “deles”. Não quero corrigir nada, não quero um país diferente, quero apenas ser o beneficiado no lugar “desses aí”.

Queiramos ou não admitir, essa é a nossa cultura política e social e em todas as classes sociais. São poucos os que podem “dar carteirada” e não o fazem.

Esquecemos que esse “vale tudo” egoístico (”eu quero é me dar bem, os outros que se danem”) é uma das principais razões de sermos o que somos. Não adianta saírem os parlamentares, os ministros ou os desembargadores que lá estão se os que entrarem tiverem essa mesma cultura política e social patrimonialista, já tão bem descrita em Faoro no seu “Os Donos do Poder” (continua bem atual, pelo visto).

É por isso que o Brasil é o que é. Não existe consequência sem causa. É preciso mudar esta última.

No fundo, somos uma “multidão de espertos” formando uma nação de idiotas."

Um comentário:

PETRUS disse...

Ilustre professor, parece que as práticas arcaicas dos "donos" dos "podres poderes" da República Pindorama não sinalizam para mudanças. Que o poder tende a corromper o homem, isso é uma lição comezinha. O incrível é mesmo como os homens sabem disso há tanto tempo e, mesmo assim, pouco fazem para mudar a história. Disso tudo, o resultado não pode ser outro, no dizer de Eduardo Galeano: "na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre".Pelos fartos exemplos negativos de que tomamos notícia todos os dias, esses "espetáculos" imorais, da graça e obra dos que tem a responsabilidade maior de mudar essas posturas, não vão acabar nem tão cedo, já que, mais uma vez, nas palavras emprestadas do mestre Galeano, "somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos".