sábado, 2 de maio de 2009

Quando o politicamente incorreto pode ser necessário


Embora eu discorde de pelo menos 70% do que ele diz, gosto de ler a coluna semanal de Luiz Felipe Pondé, na Folha de SP. Ácido e mordaz, o filósofo colunista é crítico ferrenho dos exageros das visões politicamente corretas e com isso, bate de frente com muita gente da dita esquerda ideológica e, algumas vezes, também da direita.

Apesar de ser um sujeito mais ligado ao pensamento político de esquerda, sou profundamente avesso ao sectarismo (de esquerda ou de direita). O diálogo é sempre necessário e por isso gosto de ler e ouvir aqueles que pensam diferente de mim, embora, para que isso seja possível, tomo para mim a máxima do filósofo anglo-austríaco Karl Popper quando afirma que "o racionalismo é uma atitude de disposição a ouvir argumentos críticos e a aprender da experiência. É fundamentalmente uma atitude de admitir que eu posso estar errado e vós podeis estar certos, e, por um esforço conjunto, poderemos aproximar-nos da verdade" (K. Popper: A Sociedade Aberta e Seus Inimigos - vol. II).

Diante disso, ao invés de ler aquelas críticas toscas e mal intencionadas da Revista Veja e o consequente festival de bobagens preconceituosas de Diogo Mainardi e asseclas, prefiro algo mais consistente, e nesse particular, acredito que Pondé merece ser lido. Seus textos ensejam reflexão crítica.

Segue abaixo escrito do autor, publicado na última segunda, intitulado "Debaixo dos cobertores":

"Se você for convidar uma colega de trabalho para sair, melhor pedir a seu advogado para ligar para o advogado dela, pois "desejo é poder". Nos EUA, órgãos especializados em assédio sexual em universidades são tão comuns quanto baratas em casas sujas.

Políticas públicas podem causar efeitos colaterais nefastos. E as coisas só pioram com a epidemia de políticas públicas, marca de uma democracia cada vez mais maníaca por regular a respiração de seus súditos. Há uma relação invisível entre os mecanismos modernos de controle e a paranoia. Paranoicos detestam a liberdade porque ela é incontrolável e promíscua.

Desde o utilitarista Jeremy Bentham (século 18) e seu panóptico (máquina para vigiar prisioneiros), os governos sonham com o controle "benéfico" do comportamento moral da coisa pública (res publica) via mecanismos de vigilância contínua.

Dizia o sociólogo Robert Nisbet (século 20): é uma ilusão supor uma vocação evidente da república para a liberdade. Quanto mais moral ela for, mais totalitária ela será. Ainda Nisbet: os especialistas, com suas visões sectárias e pouco isentas, são agentes de destruição da liberdade quando se fazem oráculos. Nas ciências humanas, temperamentos e ressentimentos determinam a escolha de objetos e teorias.

Respiramos a "politização do amor". Grande parte dos oráculos das políticas do amor é gay ou feminista. Os gays têm pouco interesse (por razões óbvias) nos efeitos colaterais de sua "ciência" do amor sobre o cotidiano miúdo dos homens que amam mulheres. Quanto as feministas, quando não são também homossexuais, se mostram, muitas vezes, rancorosas e repetitivas: do que trata "Hamlet"? Opressão da mulher. E a Bíblia? Idem. E adivinhe qual a questão no Pato Donald?

O argumento (feministas são rancorosas), nada científico, é usado pelas próprias mulheres cansadas das feministas neandertais que ignoram as agonias das mulheres já livres.

Já nos anos 70, feministas como as do grupo de Taipe afirmavam que apenas lésbicas seriam de fato mulheres emancipadas, porque as heterossexuais seriam oprimidas pelo desejo que sentem pelo macho.

Para elas, o amor heterossexual flertaria com o "inimigo". Eu, ao contrário, penso que este tema deveria ser tratado justamente por quem "ama o inimigo".

O impacto no cotidiano deste "antiamor" se dá via arte, leis, educação, enfim, os oráculos de Nisbet.

O resumo da ópera é o seguinte: a mulher ganhou dinheiro e com isso deu um pé no mau marido, que existem aos montes porque a regra geral é a insatisfação. As feministas acertam quando dizem que o homem teme a mulher (não por conta dessa bobagem de "inveja do útero", ele tem mais é "medo da dor do útero"), mas sim pelo medo do fracasso sexual diante dela. As neandertais tratam dessa ferida com ácido.

Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres.

Não se trata de dizer que as mulheres "devam voltar para o tanque" -isso é idiota-, mas sim que as feministas neandertais só atrapalham quando levam a política para debaixo dos cobertores. Fiquem nas delegacias e sindicatos, lugares onde a vida é pobre e bruta.

Dizem as mulheres: queremos homens sensíveis, mas nem tanto, queremos ter sucesso profissional, mas jamais sustentar homens sem sucesso profissional (dividir contas sempre já seria sinal suficiente de pouco sucesso por parte do parceiro), queremos ser livres, mas não homens bananas.

Mulheres não suportam homens tristes. Seria, afinal, o sucesso profissional dos machos um critério definitivo do desejo das fêmeas por eles? Quando o homem deve começar a dizer "não" a suas mulheres livres?

A noite vazia é o paraíso dos homens e mulheres livres. Nela, eles respiram a banalidade das conquistas repetidas. Uma infinidade de seduções insignificantes.

O acúmulo das experiências múltiplas gera uma consciência afetiva cínica. Assola-me o sentimento profético de que quanto mais experimento, menos sou capaz de experimentar. Na juventude a solidão é opção, com o tempo não passa de falta de opção. Ao mesmo tempo em que as rugas nascem o corpo cansa e a alma desespera.

As políticas do amor são um dos modos mais sofisticados de barbárie "científica". Haveria uma relação invisível, como um fantasma obsessivo, entre ódio e políticas do amor?"

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