segunda-feira, 2 de março de 2009

Revista Veja como objeto de estudo jurídico-sociológico



Na última quinta-feira, logo após o carnaval, participei como examinador de uma banca para lá de interessante na Pós-Graduação em Direito da UFPE: tratava-se de uma dissertação de Mestrado, de autoria de Roberto Efrem Filho, intitulada "Veja e a Criminalização da Política: Mídia e Direito entre a Ideologia do Consenso e o Estranhamento do Mundo". Participaram comigo os Profs. Luciano Oliveira e Maria Eduarda Rocha (esta como examinadora externa, já que é Profa. em Sociologia).

O autor é um marxista teórico e utiliza a metodologia adjacente para tratar o tema. Apesar de minha discordância metodológica, já que sou popperiano (metodologia científica de Karl Popper, diametralmente oposta a de Karl Marx), não posso deixar de reconhecer o excelente trabalho feito pelo agora Mestre em Direito, Efrem Filho.

Compactuo com o autor da dissertação profunda antipatia pela Revista Veja que, com capas como essa que ilustra o post (a reportagem é de um unilateralismo e, o que é pior, de uma desonestidade fora do comum, colocando frases fora de contexto e dando interpretações sobre a figura do guerrilheiro como se fossem únicas e a própria expressão da verdade - cf. http://veja.abril.com.br/031007/p_082.shtml), demonstra que deixou há muito de ser um veículo de imprensa minimamente sério, preferindo adotar uma postura panfletária anti-esquerdista, anti-Lula e tudo o mais que a eles esteja associado, sem qualquer preocupação com análises equilibradas que permitam ao leitor concluir por si próprio acerca dos temas que debate.

Não que uma Revista como Veja tenha obrigação de ser completamente imparcial: nenhum órgão de imprensa o é. Todos têm o direito de ser parciais e o editorial do jornal ou da revista é um espaço para isso. Todavia, as reportagens devem ter um mínimo de decência ao procurar retratar a realidade, dando espaço ao contraditório e permitindo ao leitor conhecer os argumentos e posturas de todos os lados envolvidos. Veja definitivamente não faz isso, apesar de hipocritamente afirmar-se como uma Revista que faz uma "defesa intransigente do Brasil".

Sou da opinião que, uma coisa é fazer uma leitura ideológica da realidade, outra bem diferente é querer manipular a realidade, mostrando somente aquilo que interessa à corroboração de uma postura ideológica, ocultando todo o resto.

Efrem Filho fez um minucioso estudo em 12 anos de edições da Revista, mais precisamente das edições entre 4 de junho de 1997 e 27 de agosto de 2008. Colheu dados muito interessantes que somente confirmam as impressões que eu já tinha: embora se proclame equidistante de ideologias (o que já é por si um grande engodo), as suas reportagens políticas são sistematicamente dirigidas contra os governos ditos de esquerda, no Brasil e fora dele; nas páginas amarelas só se entrevista gente politicamente alinhada com essa perspectiva; quando sai dessa regra geral, Veja entrevista pessoas que, de algum modo, naquele momento, defendem ideias pertinentes à postura da Revista, como quando entrevistou Fernando Haddad e Joaquim Barbosa; os movimentos sociais são também sistematicamente considerados criminosos; há uma verdadeira idolatria de posturas semifascistas de combate ao crime, como a do Secretário de Segurança do RJ ao dizer que as mortes de inocentes são apenas lamentáveis efeitos colaterais dessa "guerra".

Sobre a criminalização da política, há um dado profundamente interessante exposto por Efrem: nos 2 últimos anos do primeiro mandato presidencial de Fernando Henrique, cerca de 7% das capas de Veja tratavam de políticos envolvidos em crimes de alguma ordem. No mesmo período do primeiro mandato de Lula, esse número mais que triplicou, chegando perto dos 30%. Foram 6% em 1997 e 8% em 1998 contra 40% (isso mesmo, quarenta por cento) em 2005 e 21% em 2006, sendo que, em 2005, entre maio e setembro, foram dezesseis capas seguidas com a sistemática repetição de que o governo Lula é o mais corrupto da História.

Sinceramente, não sei qual governo ganha em corrupção, visto que tais atos ocorrem às escondidas e penso que talvez a impressão de muitos fosse diferente se os frequentes pedidos de CPIs, abafados no Congresso Nacional pela bancada governista no período FHC, tivessem sido aceitos. Ainda não foi criado um corruptômetro para aferirmos cientificamente se o governo Lula é mais corrupto do que o de FHC. Mas que o tratamento dado a ambos é de uma disparidade fora do comum, me parece evidente, e é o que abala profundamente a credibilidade da Revista.

Para Veja, parece existir apenas uma verdade: a dela própria.

Por isso que eu digo, como meu amigo Eduardo Rabenhorst, que Veja em minha casa só o desinfetante.

Parabéns, Efrem! Excelente investigação.

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