sábado, 14 de fevereiro de 2009

Benjamin Button: maravilhosa fábula do envelhecer



Fui ao cinema ontem ver "O Curioso Caso de Benjamin Button", de David Fincher, mesmo diretor de Seven, Zodíaco e Clube da Luta. Saí da sala escura maravilhado.

Não que seja surpreendente ver um bom filme de Fincher, basta considerar os acima citados. Outra coisa boa é a fuga de qualquer tipo de convencionalismo hollywoodiano, algo que somente diretores com mais experiência e independência conseguem. Fincher parece fazer isso com maestria e esse seu novo filme, não por acaso com 13 indicações ao Oscar, é prova incontestável disso.

Inspirado no conto de Scott Fitzgerald, o filme, segundo os que leram o livro, foge bastante da estória escrita. Contudo, o fundamental do livro, que é a estranhíssima trajetória do protagonista interpretado por Brad Pitt, está lá: Benjamin Button nasce velho, com saúde e caracteres de alguém com mais de 80 anos (com exceção da estatura, por óbvio) e ao longo da vida vai adquirindo características físicas de um homem sempre mais jovem. Não fosse por isso, a trajetória de vida de Button é bastante trivial: aprende a ler na idade escolar, vive na adolescência suas primeiras experiências sexuais, se apaixona, começa a trabalhar e tudo o mais.

A grande paixão amorosa de sua vida é Daisy, interpretada na fase adulta pela ótima Cate Blanchet. Embora ambos tenham quase a mesma idade, ele com aparência de velho a conhece como criança e, na medida em que o tempo passa, ela envelhece e ele rejuvenesce, coincidindo os caracteres físicos de ambos quando estão por volta dos 40 anos. Eles têm uma filha, mas Button decide "abandoná-las", por que ao rejuvenescer mais, não teria condições de exercer a paternidade. Deixa com elas todo o dinheiro e propriedades herdados do pai e parte para uma vida errante. Depois se reencontram, ela mais velha e ele fisicamente mais jovem, contudo, interiormente velho. Torna-se um adolescente senil, criança, desaprende a andar, a falar, a viver...

As cenas finais do filme, com a involução de Button ao estágio de bebê, são essencialmente tocantes para mim. Como pai de um bebê, acompanhando a cotidiana evolução do pequenino, desde os primeiros passinhos ao balbuciar das primeiras palavrinhas, penso como seria triste se eu me deparasse com o processo inverso... Todavia, é o que acontece com o natural processo da vida, do nascimento à morte.

No fundo, o filme trata de algo essencialmente comum, só que em uma perspectiva invertida. E é precisamente aí que sai do convencional e deleita os apreciadores da sétima arte.

O filme é muito bem dirigido, com uma fotografia maravilhosa e atuações muito boas. O próprio Brad Pitt está muito bem no papel e mostra evolução como ator. E ainda uma contribuição da tecnologia de computação gráfica e merece destaque especial a maquiagem envelhecedora: está soberba e Pitt velho (especialmente no início do filme), irreconhecível.

A obra de Fincher suscita uma bela e profunda reflexão sobre a trajetória da vida e por que as coisas são como são. Por que nascemos bebês, crescemos, ficamos jovens, adultos, maduros, velhos e morremos... Que a felicidade e a realização pessoal depende muito dos referenciais que adotamos e que nascer velho e ir rejuvenescendo (apesar das tentativas das clínicas de estética e academias de nos tornar "eternamente jovens") pode não ser tão bom como acreditaram Mark Twain e Woody Allen.

Não que nos entreguemos, descuidando de nós mesmos e ficando com a "boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar", como afirmou Raul Seixas. Por outro lado, fico triste quando vejo um Roberto Carlos dizer que tem pânico, verdadeiro pavor do envelhecimento. E me pergunto: por que nos apegamos tanto às efêmeras e passageiras ilusões de fama, dinheiro e poder?

Se cuidar é importante, ter saúde e beleza também, sucesso profissional idem, mas aceitar o inevitável com serenidade é não só necessário, como imprescindível à nossa paz de espírito. Talvez uma lição implícita do filme a partir de uma leitura estritamente pessoal que faço.

Para escapar da velhice, só morrendo jovem. Não sei se é uma boa opção.

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