segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Em busca da FIB (Felicidade Interna Bruta)

Antes de tudo, um feliz ano novo a todos.

Bom, com todas as notícias dessa mais nova e estúpida guerra entre israelenses e palestinos (inaceitáveis ataques do Hamas a Israel e brutal e desproporcional reação deste último), decidi não começar o ano opinando a respeito (embora já o tenha feito de algum modo) e falar de algo que todos nós buscamos e poucos encontramos: a felicidade. Mais do que riquezas, sucesso ou reconhecimento, no fundo, queremos ser felizes. E essas coisas podem contribuir com nossa felicidade, mas, por si sós, não a edificam (em certos casos, até atrapalham).

Uma definição básica de felicidade seria estar em paz e harmonia consigo mesmo, com a humanidade, com a natureza e com o universo, o que implica em convergirem fatores diversos como boa saúde, alguma condição financeira, espiritualidade aguçada, equilíbrio emocional, interação social com convivência harmoniosa, dentre outros. Decididamente não é fácil, mas temos que tentar.

Pois bem. A nível de governança global, diante do esgotamento do meio ambiente, do stress cotidiano e da cada vez menor qualidade de vida das populações, parece haver cada vez mais preocupação com a consideração de outros itens para se caracterizar um país ou uma cidade como bons para viver que não somente o econômico. A ONU já vem trabalhando o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) há algum tempo, mas um outro indicador me chamou bastante a atenção em uma reportagem da National Geographic Brasil (edição 96/2008): o FIB (Felicidade Interna Bruta).

O FIB não é algo exatamente novo: foi criado em 1972 pelo governo do Butão, pequeno país asiático entre a China e a Índia, com fundamento na idéia de que o foco das ações governamentais é a promoção do bem-estar social, mais do que a produção e circulação de riquezas. Contrapõe-se ao PIB (Produto Interno Bruto) precisamente pelo fato de que este é limitado à medição do capital econômico, fundamental no desenvolvimento de uma sociedade, mas incapaz de considerar outras esferas tão ou mais importantes, como o capital humano, ambiental, cultural etc.

O índice butanês vem chamando a atenção de governos, empresas e instituições multilaterais, como os governos do Canadá e da França, e até de célebres pensadores econômicos, como os prêmios Nobel Joseph Stiglitz e Amartya Sen.

Segundo a metodologia desenvolvida pelos butaneses, há nove áreas distintas para aferição do FIB e a econômica é apenas uma delas. O FIB é composto pelos seguintes itens:

  1. Padrão de vida (renda per capita e padrões de renda e emprego das pessoas);
  2. Boa governança;
  3. Vitalidade da comunidade;
  4. Educação;
  5. Uso e equilíbrio do tempo;
  6. Vitalidade e diversidade do ecossistema;
  7. Vitalidade e diversidade cultural;
  8. Saúde da população;
  9. Bem-estar emocional.

A reportagem não entra em detalhes sobre a metodologia para aferir todos esses aspectos, mas me parece algo extremamente relevante para a humanidade atual. Temos que reaprender a conviver conosco mesmos e com a natureza por uma questão de sobrevivência. Considerar todos os indicadores acima, e não somente o econômico, é uma necessidade premente para nós seres humanos. E isso nos obriga a pensar, como afirma o vice-presidente do Conselho Nacional do Butão, Dasho Karma Ura, que "eventualmente, uma economia estacionária pode ser uma economia bem-sucedida". Vejo isso como profundamente revolucionário.

É, o pequeno Butão, com seus pouco mais de 2 milhões de habitantes, ensina ao mundo uma visão diferente da economia e de seu papel nas relações humanas. Um país que passou de uma monarquia semi-teocrática a uma monarquia esclarecida a partir de 1952, com o Rei Jigme Dorji Wangchuk, que introduziu a representação parlamentar, e continuou com o filho, o atual Rei (desde 1974) Jigme Singye, que a transformou numa monarquia constitucional, com a criação do cargo de Primeiro Ministro e o arrefecimento dos conflitos étnicos internos de modo razoavelmente pacífico. Um país que se torna paulatinamente uma democracia sem abrir mão de seu rico patrimônio cultural. E agora ensina-nos o FIB.

Ou reaprendemos a viver ou o planeta nos dirá adeus, como na canção Humanity, do Scorpions (Humanity, Auf wiedersehen, It´s time to say goodbye...).

Aprendamos com os butaneses e aumentemos o nosso tão combalido FIB.

Muita "felicidade interna bruta" a todos em 2009.

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