quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Criminoso Honesto


Interessantíssimo texto de Rodolfo Araújo, publicado no blog Acerto de Contas (http://www.acertodecontas.blog.br/). Resolvi transcrevê-lo:

"Costumo brincar com meus amigos economistas dizendo que eles passam a vida toda estudando algo que não existe, pois seus modelos contemplam um mundo ideal - muito distante daquele em que vivemos. Pois agora tenho ao meu lado a companhia do pseudo-dissidente Dan Ariely, autor do magnífico "Predictably Irrational: the hidden forces that shape our decisions" (Harper Collins, 2008).

O argumento central de Ariely é que nossas decisões nem sempre têm o grau de racionalidade que gostamos de acreditar. E vai mais além: as várias decisões erradas que tomamos ao longo de nossas vidas raramente servem de aprendizados e, assim, cometemos os mesmos erros repetidamente. Ou seja, nós não somente somos um tanto quando irracionais, mas previsivelmente irracionais.

O autor explora vários temas em diferentes situações para ilustrar (e comprovar) essa sua teoria e, certamente, muitos deles serão abordados aqui no futuro. Mas um, em especial, chamou muito a minha atenção, pois tratei dele recentemente no post A marca da maldade, onde discuti o que levava pessoas normais a cruzarem a fronteira entre o bem e o mal. Pois Ariely investiga o assunto com muita propriedade e apresenta, ao final, algumas sugestões bastante pertinentes.

Seu engenhoso experimento consistia em aplicar testes simples de matemática em voluntários (alunos do MIT, nesse caso). Eram vinte matrizes como a abaixo à direita, onde a pessoa precisava encontrar, em cinco minutos, os pares de números que somavam exatamente dez (nesse caso, 4,81 + 5,19). Para cada resposta correta encontrada ganhava-se uma simbólica recompensa em dinheiro - algo como US$ 0,10. A parte interessante do estudo vinha na hora de pagar pelos acertos e aí os alunos eram divididos em três grupos:

1. O aluno entregava sua folha de resposta diretamente ao examinador e, assim, não havia a possibilidade de fraude (esse era o grupo-controle);

2. O aluno copiava suas respostas para uma outra folha e ele mesmo a corrigia, mas depois entregava ambas as folhas; e

3. O aluno copiava suas respostas para uma outra folha e ele mesmo a corrigia, mas depois entregava apenas a folha corrigida, destruindo a outra.

Nas diversas variações desse estudo, mais de 2.000 alunos fizeram os testes. O grupo controle (1, o que não tinha como trapacear) apontou que a média de acertos era em torno de três. Partindo do princípio que não há motivos para acreditar que haveria diferenças entre os grupos, era de se supor que os outros grupos tivessem o mesmo índice de acertos. Pois os grupos 2 e 3 tiveram média perto de quatro.

Descobrir que o crème-de-la-crème dos estudantes americanos, que ocupa cerca de 20% dos cargos de diretoria das 500 maiores empresas listadas na Fortune* é capaz de trapacear nos deixa um pouco entristecidos, mas ajuda a explicar os recentes escândalos financeiros.

Outra observação interessante é notar que não houve diferença estatística entre os grupos 2 e 3, embora os participantes do grupo 2 podiam ser pegos roubando - o que não aconteceria com o grupo 3. Isso quer dizer que a possibilidade de ser descoberto não influi na trapaça.

Dirá também o leitor que os desonestos roubaram "apenas" uma questão, em média, enquanto que poderiam ter roubado 17. Roubar pouquinho serve de consolo? É permitido? Desculpável? Quanto é "pouquinho"? E 33% a mais é pouquinho?

Uma segunda variação do experimento dividia os grupos com possibilidade de trapacear em dois subgrupos, A e B, e pedia a A que relacionasse os dez últimos livros que havia lido; já ao grupo B era solicitado listar os Dez Mandamentos - ou tantos quanto lembrassem. Os resultados do grupo A mantiveram-se iguais, mas no grupo B os alunos não roubaram. A simples recordação† desses valores pétreos os impediu de roubar.

O terceiro subset da pesquisa foi o que trouxe os subsídios mais interessantes: em vez de receberem dinheiro pelas respotas certas, os alunos recebiam fichas (como as de pôquer) para serem imediatamente trocadas por dinheiro, noutra sala da Universidade, dez metros adiante. Foi aí que veio a grande surpresa: a média foi 9,4! Noutras palavras, esses chutaram o balde!

Para Ariely e sua equipe havia uma explicação lógica: por não se tratar diretamente de dinheiro, os alunos não se importavam tanto em trapacear. Ampliando um pouco mais o conceito, quanto mais longe do dinheiro vivo estiver a trapaça, maiores as chances de ela ocorrer de fato. Será que se a troca ocorresse no dia segiunte ou num local mais longe haveria mais trapaça?

As implicações disso são bastante perturbadoras e estão à nossa volta - muito mais do que gostaríamos. Senão vejamos:

Vários de meus amigos têm carteiras de estudante falsificadas para pagar meia entrada no cinema, teatro e shows. No cinema, por exemplo, ele "economiza" algo como R$ 10,00. Se não tivessem a carteira falsa e ninguém tivesse olhando, eles seriam capazes de tirar R$ 10,00 do caixa da bilheteria? Improvável, né? (E espero que meus amigos leiam esse texto e parem de cometer esse crime - até porque eu sou um dos que paga a conta).

Suponha que você encontre a Madonna na rua e uma nota de um dólar esteja saindo do bolso da calça dela. Você iria furtá-la? É o que faz quando baixa Hung up na Internet. Você tiraria R$ 5,00 do caixa da padaria? É o que faz quando percebe que não lhe cobraram o presunto e não diz nada. Você pegaria R$ 10,00 no caixa da sua empresa? É o que faz quando leva um grampeador para casa. O autor pergunta, por exemplo, se os diretores da Enron teriam coragem de roubar bolsas de senhoras nas ruas. O "não" parece óbvio, mas eles de fato roubaram milhares de bolsas de senhoras que perderam suas aposentadorias com as fraudes por eles perpetradas.

É incrível o quanto nossa consciência é condescendente quando esses atos parecem distantes do dinheiro propriamente dito. Ou o quanto nós nos enganamos para justificar nossos pequenos crimes. Mesmo pessoas boas e honestas são tentadas a esticar as fronteiras de seus valores morais, na perseguição de benefícios financeiros. E algumas motivações parecem nos pregar peças pois em determinadas situações nem nos damos conta disso.

A sugestão de Ariely? Quando você ou alguém próximo estiver numa situação dessas, tente visualizar o dinheiro que está trocando de mãos. Pense de onde esse dinheiro está saindo. E pense na sua mão pegando-o.

__________________

*Segundo estatísticas do próprio MIT, que agora fica sub judice…

†Essa técnica de pesquisa social chama-se priming."

Sobre o regime de trabalho dos docentes de ensino superior

O leitor Francisco fez interessante comentário ao post anterior, provocando-me a reflexão sobre o regime de trabalho dos docentes das instituições de ensino superior, notadamente dos cursos jurídicos.

Bem, uma vez provocado, darei minha singela opinião baseada em minha experiência como profissional da área, assim como observação e impressões estritamente pessoais. De plano, deixarei de lado, por ora, o regime de trabalho das IES privadas por seguir uma sistemática completamente diversa do das públicas

Pois bem. Para as IES públicas, a legislação em vigor (Decreto 94.664/1987, art. 14) impõe duas possibilidades de opção de regime de trabalho para o professor: 1) dedicação exclusiva, com obrigação de pestar 40 horas semanais e não exercer outra atividade remunerada, pública ou privada, e 2) regime parcial de 20 horas semanais. Admite ainda, em caráter excepcional, o regime de trabalho de 40 horas semanais sem a obrigação da dedicação exclusiva.

Para mim, o grande erro do decreto em questão está nesse último aspecto: a excepcionalidade do regime de 40 horas semanais. Creio que os 3 regimes deveriam ser admissíveis como igualmente válidos e o professor poderia, com a devida aprovação de seu Centro e/ou Departamento, escolher qual regime de trabalho melhor lhe conviria.

A realidade de cada Centro de cada IES pública é distinta, de modo que a autonomia universitária aí é mais necessária do que em muitos outros setores. Entendo que é preciso tentar conciliar a vontade pessoal do docente com as necessidades do curso. Harmonizar tais interesses é importante para que o professor trabalhe mais satisfeito e atenda, por sua vez, aos reclamos da comunidade universitária em questão.

Em alguns cursos, a dedicação exclusiva é algo imprescindível, em outros, não tanto, e em outros, chega a ser prejudicial. A realidade de cursos como Física ou Biologia, que necessitam de pesquisadores com maior introspecção no ambiente de laboratórios e centros de pesquisa, é muito diferente, por exemplo, da de cursos como Engenharia ou Medicina, em que a aplicação dos conhecimentos científicos é mais relevante do que a sua descoberta ou criação, de modo que a atuação extra-universitária se faz mais necessária. Nesse particular, o curso de Direito se aproxima mais destes últimos, o que não impede que tenhamos professores pesquisadores com dedicação exclusiva tanto em uns como em outros.

A dificuldade está no caráter imposiitivo do regime de DE. Se os Centros tiverem mais autonomia para decidirem a respeito, boa parte do problema estará solucionado. No curso de Direito, do qual sou Professor, entendo que os 3 tipos de regime são necessários: 1) 20 h - contempla aquele sujeito que é tecnicamente muito bom na sua área, possui Mestrado e/ou Doutorado, mas está muito dedicado aos seus afazeres profissionais como advogado militante ou no exercício da magistratura ou ministério público e deseja dar apenas uma pequena contribuição à universidade; 2) 40 h - contempla o Professor que, com a mesma formação científica (Mestrado e/ou Doutorado), embora possua outros afazeres profissionais, deseja dar uma contribuição mais significativa à instituição, orientando dissertações e teses, coordenando atividades, participando de fóruns e conselhos etc., implicando inclusive em um melhor conceito para o programa de pós-graduação junto à CAPES; 3) DE - para contemplar o docente que, com igual formação científica, deseja de fato integrar-se plenamente à universidade, pensando sua estrutura e adminstração, seu planejamento pedagógico e científico, sua inserção na comunidade etc., também melhorando o conceito da pós-graduação junto à CAPES.

Nas ciências sociais aplicadas, os 3 tipos são imprescindíveis.

É um desperdício termos no curso de Direito professores em regime de 20 h semanais que gostariam de se dedicar muito mais à universidade, caso pudessem optar pelo de 40 h.

Por outro lado, alguns professores em regime de DE ficam impedidos de um maior contato com outros empreendimentos e projetos profissionais e/ou sociais, simplesmente por que são obrigados a um autismo universitário quase absoluto, às vezes chegando às raias da perseguição dos docentes que, embora não negligenciem seus deveres para com a IES, tenham proferido palestras ou cursos remunerados esporádicos fora da universidade. Tornou-se emblemático disso o caso de um procurador da República que queria propor ação de improbidade administrativa por enriquecimento ilícito contra um professor de universidade pública que, ao longo de um ano inteiro, tinha recebido R$ 3.500 (três mil e quinhentos reais - é isso mesmo!) em palestras remuneradas. O "milionário" professor chegou a ser indiciado em inquérito civil, embora parece que o douto procurador foi demovido da idéia de levar adiante a ação, de tão risível que ela é. Talvez se tivéssemos um salário de R$ 21.000, não precisássemos "enriquecer ilicitamente" com palestras remuneradas fora da IES.

Penso que a valorização do docente passa por bons salários, mas não somente isso. Reestruturar a carreira (como, justiça seja feita, vem fazendo o governo atual) valorizando os professores em regime de DE (eu, inclusive, sou um deles), mas sem menosprezar a importante contribuição dos demais.

Todavia, acima de tudo, é necessário valorizar a liberdade de escolha do docente em conjunto com a autonomia mais ampla que devem ter os Centros e Departamentos para decidirem a respeito do que é melhor para o curso diante das peculiaridades que lhes são próprias. Querer uma excessiva padronização em cursos com realidades tão díspares como os de uma universidade federal só dá azo à permanente busca de brechas legais para alternativas e intermináveis discussões judiciais sobre esse ou aquele aspecto da legislação e sua interpretação.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sarmiento e a educação: aos mestres com carinho


Professor: profissão árdua destinada a abnegados que abrem mão muitas vezes de si mesmos, de maior reconhecimento e melhor remuneração, para se dedicarem à formação técnica, ética e humanista de gerações de alunos.

Até aí, nada de novo. Aliás, é por isso que muitos dos nossos alunos, especialmente na minha área (direito), chegam a perguntar em quê trabalhamos, apesar de verem que somos professores.

"Professor, o sr. trabalha mesmo em quê?", já ouvi isso algumas vezes. "Sou Professor em regime de dedicação exclusiva, caro amigo", respondi. "Mas o sr. só dá aula?", perguntou espantado meu pupilo, na certa, esperando que eu dissesse que sou juiz, promotor ou advogado militante. "É", respondi, "afinal de contas, é melhor do que trabalhar!".

Bom, deixa para lá, para não ficarmos no lugar comum do que todo mundo já sabe.

Hoje, dia do Professor, ao invés de tecer loas a essa importantíssima figura em nossas vidas (para não parecer que estou homenageando a mim mesmo), prefiro homenagear-nos com um agradecimento a todos os que, direta ou indiretamente, fazem ou fizeram muito pela educação. Em especial, um Presidente argentino do século XIX que até hoje é, lá na terra de nuestros hermanos, um homem reverenciado pelo que fez pela educação nacional. Su nombre: Domingo Faustino Sarmiento.

Em 2004, quando estive em Buenos Aires, algo me impressionou: mesmo em grandes dificuldades econômicas e com a cidade mal cuidada, apesar de muitos belos monumentos(parecia uma Paris decadente), o portenho em geral é fissurado em leitura. Em todo lugar, há pessoas sentadas em bancos de praça lendo algum livro e o número de livrarias em Buenos Aires (apenas na cidade) é maior do que em todo o Estado de São Paulo (ao menos, era, na ocasião). O argentino, gostemos ou não, é muitíssimo mais educado do que nós, embora estejam momentaneamente mais pobres.

Pois bem. Nessa viagem descobri outra coisa: se, no exterior, o mais famoso Presidente da Argentina é, historicamente, Juan Perón, lá, tirando os mais exaltados e passionais, uma boa parte dos argentinos consideram Domingo Sarmiento de muito maior relevância positiva para o país.

Domingo Sarmiento nasceu em San Juan, no ano de 1811. Tornou-se um intelectual respeitado e um ativista político liberal, tendo que superar, dentre outras coisas, sua origem humilde e as dificuldades que teve para freqüentar a escola.

A literatura e a política sempre andaram de mãos dadas em sua trajetória de vida. Pela sua atuação política, terminou exilado no Chile durante os anos 40 do século XIX. A distância da pátria foi fecunda literariamente, pois em solo chileno, Sarmiento produziu dois de seus livros mais importantes: "Facundo o Civilización y Barbarie", de 1845, um estudo do caudilhismo e um verdadeiro libelo contra Rosas, ditador argentino de então, e "Recuerdos de Provincia", de 1850, uma obra autobiográfica.

Ao voltar à Argentina natal, participou do movimento que derrubou o ditador Rosas. Depois foi Governador de San Juan, Embaixador da Argentina nos EUA e, finalmente, Presidente da República, eleito em 1868. Em seu governo, foi duplicado o número de escolas públicas (construiu mais de 800 delas) e fundou mais de cem bibliotecas. Das viagens que fez aos EUA e à Europa, Sarmiento voltou com a idéia fixa, quase obsessiva, de que a educação pública teria um papel fundamental na construção de um grande país.

Sarmiento governou a Argentina de 1868 a 1874 e fez em 6 anos a maior obra educacional da História da América Latina em um mesmo governo. Morreu em Assunción, Paraguai, no ano de 1888, e até o fim da vida continuou escrevendo e atuando politicamente.

Atualmente, seu rosto está estampado na nota de 50 pesos e praticamente todas as cidades argentinas possuem algum logradouro que leva seu nome.

Mais do que merecido. Domingo Sarmiento, patrono-mor dos educadores latino-americanos.

Parabéns aos todos os colegas docentes.

Macaco Simão e a crise

"Análise financeira: se em janeiro de 2008, você tivesse aplicado R$ 1000 na Global Technology, hoje você teria R$ 59. Se você tivesse aplcado R$ 1000 na Network, hoje você teria R$ 79. E se você tivesse aplicado R$ 1000 em cerveja, bebido tudinho e ainda tivesse vendido as latinhas, hoje você teria R$ 80. Ou seja, teria sido muito melhor ter ficado em casa bebendo cerveja."

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Aos que amam os cães tanto quanto eles nos amam



Não sei quem é o autor dessa mensagem, mas com ela faço uma singela homenagem a Ava (foto), nossa querida cadelinha dachhound que faleceu esta semana, após quase 17 anos muito bem vividos.

Nossas eternas saudades...

"SE CONSEGUES

Se consegues começar o teu dia sem cafeína,

Se consegues terminá-lo sem sedativos para dormir,

Se consegues estar de bom humor, sabendo ignorar os teus males e as tuas dores,

Se consegues nunca te queixar, nem aborrecer os outros com os teus problemas,

Se consegues compreender quando os que te amam estão ocupados demais para te dispensar o seu tempo,

Se consegues aceitar que te censurem por uma falta que não cometeste,

Se consegues acreditar que cuidarão de ti até o fim de tua vida,

Se consegues aceitar todas as críticas sem nunca te insurgires,

Se consegues suportar a grosseria de certas pessoas sem nunca as corrigir,

Se consegues enfrentar a vida sem nunca mentir ou falsear,

Se consegues descontrair sem nunca tomar uma gota de álcool,

Se consegues dizer, muito honestamente, do fundo do teu coração, que não tens qualquer preconceito contra os idosos, as diferentes raças, religiões ou opções sexuais,

Se consegues comer a mesma comida todos os dias e continuar feliz,

Se consegues amar sem condições, sem esperar nada em troca...

Então, meu amigo, ÉS QUASE TÃO PERFEITO QUANTO O TEU CÃO!"

Quanto ainda temos o que aprender com esses animaizinhos...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

20 anos da Constituição de 1988: o saldo positivo da "Carta Cidadã"



Como Professor de Direito Constitucional não poderia deixar passar a data sem lembrar seu significado: no último dia 5 não somente votamos nas eleições para escolha do prefeito e dos vereadores; também foi o aniversário de duas décadas de nossa atual Lei Maior, a Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988.

Um pequeno post em um blog é completamente insuficiente para uma análise do que foram esses 20 anos constitucionais. Mas não dá para deixar em branco. Vamos lá, então.

De logo, afirmo que o saldo é bastante positivo. São comuns os comentários do tipo a Constituição nasceu com o olhar para trás, possui um sem número de normas irrealizáveis e de "promessas não cumpridas", que o Brasil está pior do que há 20 anos com mais violência, desemprego e desigualdade social, que a classe política e os homens do poder estão piores e com uma desfaçatez nunca antes vista, enfim, as velhas idéias de que "no meu tempo é que era bom".

Respeito todas essas análises, mas não posso concordar com elas. Embora nem tudo sejam flores, do momento em que Ulysses Guimarães concluiu seus trabalhos de Presidente da Assembléia Constituinte para cá, o saldo constitucional, a meu ver, é bastante positivo.

É a Constituição de 1988 uma das mais ricas em previsão de direitos fundamentais. Claro que isso, por si só, nada garante. Como costumo dizer aos meus alunos, efetividade constitucional se faz com luta política e em diversas frentes. Mas é inegável que um texto constitucional que explicita tais direitos e possibilita uma gradativa abertura à construção de uma esfera pública na sociedade, com o debate permanente e as denúncias quanto ao não cumprimento dos preceitos constitucionais, já dá largos passos para ser concretizada.

Nunca é demais lembrar que no período da Assembléia Constituinte havíamos há pouco saído de uma ditadura militar de duas décadas com seqüelas autoritárias ainda muito presentes no ambiente político e social de então. Uma Constituição que resgatasse a cultura democrática e cidadã se fazia imprescindível.

Atualmente as pessoas em geral, mesmo as mais humildes e de pouca instrução escolar, são muito mais conscientes dos seus direitos e buscam a sua realização, seja ajuizando ações no poder judiciário, seja denunciando abusos em outras esferas públicas estatais e não-estatais. A sociedade civil está mais organizada e vigilante quanto aos abusos de prerrogativas diante do que a Constituição estabelece. O poder judiciário e o ministério público possuem hoje um grau de independência bastante elevado, o que lhes propicia uma atuação autônoma frente aos demais poderes estabelecidos, trazendo importantes dividendos à sociedade, principalmente quando as decisões e ações dos mesmos contrariam interesses poderosos. E isso não impediu que até mesmo eles sofram controles semi-externos, como garante a recente criação dos Conselhos Nacionais de Justiça e do Ministério Público, tudo dentro dos marcos constitucionais do Estado democrático de direito. A administração pública está mais transparente, os abusos são mais facilmente perceptíveis, a generalização do concurso público como via de acesso aos cargos públicos tornou-se uma realidade e premia a meritocracia em detrimento do QI (quem indica) político-partidário. As políticas de orçamento participativo ganham cada vez mais força e as lutas pelos direitos humanos em geral e das minorias em particular também encontram forte guarida no texto constitucional. A impunidade dos poderosos, embora ainda muito forte, não é mais tão generalizada como outrora, havendo mudanças até mesmo nas imunidades parlamentares, desde a Emenda Constitucional 35/2001, mais restritivas.

A Constituição serve de parâmetro para governo, oposição, empresariado, trabalhadores, ambientalistas, sindicalistas, ruralistas, enfim, todos afirmam, de algum modo, estarem cumprindo a Constituição, o que aponta para a construção de uma autêntica cultura constitucional brasileira. A jurisdição constitucional feita pelos juízes e tribunais e, principalmente, pelo Supremo Tribunal Federal, nunca foi tão debatida e a busca pela afirmação constitucional é tamanha que tem exigido dos poderes da República iniciativas de restrição do acesso àquela jurisdição sob pena de se inviabilizar o seu funcionamento (a jurisdição constitucional é um pouco vítima do seu próprio sucesso).

É bem verdade que há muito a realizar. O déficit de direitos sociais e econômicos continua imenso, a desigualdade social continua gravíssima, a violência urbana aumentou muito e a ação do Estado nem sempre se mostra construtiva de uma sociedade melhor, abusos são cometidos com inaceitável freqüência, o sistema penitenciário é um completo fracasso. Porém, pergunto: isso é culpa do texto constitucional? Ou tratar-se-ia de ações/omissões dos poderes públicos, dos poderosos e até da própria sociedade civil na luta pela afirmação/negação dos referidos direitos? Aos pobres, os próprios direitos de primeira dimensão (individuais, civis e políticos) continuam sendo negados. Mas nem por isso faria sentido retirá-los da Constituição.

Lembro sempre de uma conferência do Prof. Marcelo Neves, em que foi questionado acerca da inefetividade do art. 7º, IV, da CF ("São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: ... IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim"). Neves respondeu que, não obstante a referida inefetividade ser verdadeira, seria de se indagar o que ganharíamos com a retirada desse dispositivo do texto constitucional. Na visão daquele mestre, não ganharíamos nada e perderíamos as possibilidades de, de um lado, denunciar a discrepância entre a previsão formal e a prática desse salário mínimo e, de outro, cobrar das autoridades governamentais, poderes públicos e empresas, políticas transformadoras da realidade social no sentido de nos aproximarmos o máximo possível daquilo que o texto normativo propõe. Concordo integralmente com ele.

Claro que haveria muito mais o que falar, mas um único post é claramente insuficiente. Acredito que temos o que comemorar. E, seguramente, muito ainda o que lutar para a construção de uma sólida cultura democrática e humanista no Brasil que perpassa necessariamente pelas possibilidades colocadas pelo texto constitucional que ora completa 20 anos de vigência.

Longa vida à "Constituição Cidadã".

A Vida dos Outros: crônica particular de um sistema doentio


Finalmente assisti o vencedor do último oscar de melhor filme estrangeiro, "A Vida dos Outros" (Das Leben der Anderen). Mais uma bela obra do cinema alemão contemporâneo abordando os "fantasmas" germânicos, neste caso, da antiga Alemanha Oriental, e mais precisamente seu sistema de vigilância e espionagem interna, executado pela STASI, a polícia secreta da República Democrática Alemã.

Já tratamos aqui da mesma quando escrevemos a série de artigos "Contra a intolerância e os fanatismos de qualquer espécie", mas não custa lembrar que, através da STASI, os alemães orientais criaram um dos mais doentios sistemas de vigilância dos próprios cidadãos em que até detalhes insignificantes de suas vidas privadas eram de conhecimento do Estado e potencialmente utilizáveis contra eles.

Pois bem. Com esse pano de fundo, o diretor Florian Henckel von Donnersmarck recria a história real da espionagem feita na vida do dramaturgo alemão Georg Dreyman, à época (1984) tido por queridinho do Partido Comunista da RDA pelo fato de suas peças exaltarem o regime alemão oriental. Apesar disso, Dreyman é visto como alguém provavelmente não tão "limpo" quanto parecia e em razão dessa hipotética possibilidade, o dramaturgo passa a ter sua vida completamente vigiada por Gerd Wiesler, um expert em descobrir "conspirações" e inimigos do Partido e do regime. O monitoramento completo da vida de Dreyman, do telefone grampeado às escutas ambientais captando até as conversas íntimas com a namorada, a STASI passa à condição de detentora de informações importantes para que seus agentes, notadamente os do alto escalão, como o chefe de espionagem Grubitz e o ministro Bruno Hempf, possam levar adiante cruéis chantagens, que não adiantarei para não estragar a surpresa dos que não assistiram.

A aparente ambigüidade do agente Wiesler que, em alguns momentos parece ter uma síndrome de Estocolmo ao contrário, termina por ser ao mesmo tempo a força e a fraqueza do filme: por um lado, permite um deslocamento do olhar a partir da vida de Wiesler (preponderante até a metade do filme) para a vida de Dreyman (do meio para o final - parece "vida dos outros" mesmo) sem perder a solução de continuidade quanto à narrativa. A ambigüidade parece não ser exclusiva de Wiesler, a se observarem as condutas do próprio Dreyman e de Christa Sieland, sua namorada. Por outro lado, o final do filme não explora tanto como deveria tais ambigüidades, deixando-as um pouco de lado e enfatizando aspectos mais maniqueístas (as pessoas "boas" e "más" do regime) e não como um sistema totalitário transforma a vida dessas pessoas, estimulando o denuncismo, a delação e a desconfiança doentia em relação aos seus próximos.

Na verdade, trata-se de um excelente filme com um final apenas bom. Ainda assim, infinitamente melhor do que a esmagadora maioria das produções hollywoodianas com tantos milhões de dólares a mais.

Não deixem de assistir, vale a pena.

sábado, 4 de outubro de 2008

A cegueira e a crítica



Anteontem, assisti o novo filme do Fernando Meirelles, adaptação do romance de José Saramago intitulado "Ensaio sobre a Cegueira".

Ao contrário dos críticos em geral, gostei bastante do filme. Talvez pelo fato de não ter lido o livro, pois os que o leram parecem ser os críticos mais mordazes. Acontece que é sempre difícil fazer adaptações de obras literárias para o cinema e os resultados são sempre uma incógnita, já que as linguagens cinematográfica e literária são substancialmente distintas.

Contudo, acho muito boas iniciativas como essa de Meirelles de aproveitar os recursos da indústria do cinema para produzir obras de arte, ainda que não plenamente bem sucedidas. Por si só, já acredito ser profundamente meritória a ousadia de um cineasta com a sincera tentativa de fazê-lo.

Quanto ao filme, achei-o excelente. A montagem das cenas foi muito bem feita, o uso das luzes na medida certa, o contraste claros-escuros dando conta da atmosfera dos acontecimentos, isso foi um dos pontos altos do filme. A interpretação dos autores também foi magnífica, com destaque para a excelente Juliane Moore, e a direção impecável (dirigir aquela quantidade de atores fazendo papel de cegos deve ser tarefa para lá de hercúlea). Diferentemente dos críticos, não senti tanta necessidade de um narrador, e creio que até nisso Meirelles acertou: o filme flui muito melhor sem as interrupções e intermediações narrativas (elas realmente são escassas no filme), é perfeitamente inteligível sem elas. Como diria Hitchcock, as narrativas em um filme devem ser limitadas ao estritamente necessário, cinema é imagem antes de tudo.

Em relação à estória, também não poderia ser melhor a escolhida. Não li o livro em questão, mas já li dois outros romances de Saramago - "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "As Intermitências da Morte" - e, gostei especialmente do último. Ambos são geniais, apesar do estilo literário do escritor português com aqueles parágrafos longos e ininterruptos não me agradar muito.

Assim como nas "intermitências", no "Ensaio sobre a Cegueira", as asas da imaginação de Saramago vão longe e retratam a possibilidade de uma epidemia de cegueira física e as situações daí provenientes. Na situação limite do medo de se "pegar" a cegueira, os atingidos pela epidemia são confinados em verdadeiros campos de concentração, com a diferença de que a ordem interna neles é completa dissociada da ordem externa e o pior dos seres humanos, inclusive em termos de tirania e de ocupação de poder e de espaço político, é visto na ocasião, quando os membros de uma das alas começam a usar a força para impor suas vontades mais bestiais (em forma de extorsão e de abusos sexuais) em troca de comida.

Uma única pessoa (a personagem de Moore) não é atingida pela epidemia e passa a encarar uma realidade tão difícil que é de se perguntar sobre se naquele contexto seria melhor mesmo enxergar. A responsabilidade pela coletividade que recai sobre seus ombros é imensa, quase exaustiva, pois a possibilidade de enxergar fisicamente lhe dá também o dom de ver a situação em que todos se encontram e, diante disso, tentar enxergar também as possíveis soluções.

Certamente o livro deve ser melhor, mas acho louvável e extremamente importante o cinema produzir obras desse tipo.

Assim como em "Cidade de Deus" e "O Jardineiro Fiel", Meirelles acertou na mosca. Sou cada vez mais fã desse grande diretor brasileiro.